A Baleação e os limites do cosmopolitismo atlântico
Introdução
Ao longo do século XIX, a cidade da Horta, na ilha do Faial, foi frequentemente descrita como um porto cosmopolita do Atlântico Norte: escala regular de baleeiros americanos, ponto de encontro de comerciantes e agentes marítimos estrangeiros, e espaço de circulação de pessoas, bens e ideias. Esta imagem, recorrente em relatos de viajantes, memorialistas e estudos históricos, sublinha a singularidade do Faial no contexto açoriano e a sua integração precoce nas redes atlânticas da navegação moderna.

Em 9 de agosto de 1849, contudo, surge um testemunho que contrasta fortemente com essa leitura. Nesse dia foi publicado em Nova Iorque, no jornal The Independent (vol. 1, n.º 36, pp. 1–2), o artigo “The Azores, or Western Islands”, da autoria de Lorenzo Dow Johnson. O texto resulta de observações realizadas durante duas escalas na ilha do Faial, na cidade da Horta, enquanto o autor viajava como surgeon’s steward (despenseiro do cirurgião) a bordo do navio da Marinha dos Estados Unidos USS Erie.
Este contraste não invalida nenhuma das visões, pelo contrário, permite compreender a coexistência de múltiplas experiências sociais num mesmo porto atlântico. O presente artigo analisa o texto de Johnson como fonte primária para a história social do Faial, integrando-o no debate historiográfico sobre baleação, cosmopolitismo portuário e marginalidade marítima no século XIX.
Faial, baleação e cosmopolitismo atlântico: estado da arte
A historiografia tem reconhecido o papel central do Faial no sistema atlântico de circulação marítima desde finais do século XVIII. Autores como Frank T. Bullen, Briton Cooper Busch e, no contexto açoriano, José Guilherme Reis Leite sublinharam a importância do arquipélago como ponto de escala estratégica para a navegação transoceânica, em particular para a baleação norte-americana.

No século XIX, a expansão da baleação da Nova Inglaterra transformou os Açores e o Faial em particular, num nó fundamental de reabastecimento, comercialização, recrutamento e apoio logístico. Estudos clássicos, como History of the American Whale Fishery de Alexander Starbuck (1878), já destacavam a frequência com que os baleeiros escalavam a Horta, quer na ida para o Pacífico quer no regresso. Trabalhos mais recentes têm aprofundado esta análise, mostrando como a economia da baleação se entrelaçou com as sociedades insulares, criando oportunidades económicas, mas também dependências estruturais.
Paralelamente, vários autores caracterizaram a Horta oitocentista como uma cidade portuária cosmopolita, marcada pela presença de cônsules estrangeiros, redes comerciais luso-britânicas e luso-americanas, circulação de capitais e convivência quotidiana de marinheiros de múltiplas nacionalidades. Este cosmopolitismo, contudo, era essencialmente funcional, pois dependia do porto e beneficiava sobretudo elites comerciais, agentes marítimos e marinheiros qualificados.
Abordagens mais recentes de história social e marítima têm vindo a sublinhar os limites desse cosmopolitismo, chamando a atenção para os grupos excluídos dos circuitos de mobilidade e prosperidade. É neste ponto que o testemunho de Lorenzo Dow Johnson se revela particularmente relevante, ao deslocar o olhar das elites portuárias para os marginais do sistema marítimo global.
Lorenzo Dow Johnson e o seu lugar de observação

Lorenzo Dow Johnson (1805–1867) foi pastor metodista episcopal, educador, escritor e reformador social. Ordenado muito jovem, afastou-se temporariamente do ministério ativo a partir de 1834, dedicando-se ao ensino, à escrita e a causas morais como a temperança e a educação religiosa.
Entre 1848 e 1849 viajou pela Europa, Mediterrâneo e Atlântico como surgeon’s steward a bordo do USS Erie. Esta função colocava-o em contacto direto com marinheiros doentes, inválidos ou abandonados, conferindo-lhe um ponto de observação privilegiado sobre os efeitos humanos da navegação de longo curso. O artigo publicado em The Independent resulta diretamente dessa experiência, registando observações feitas em duas escalas no Faial, na ida e no regresso do Mediterrâneo.
O artigo de 1849: conteúdo e argumentos centrais
Embora o título sugira uma descrição geral dos Açores, o texto concentra-se rapidamente no Faial enquanto ponto de passagem e abandono de marinheiros americanos. Johnson identifica a ilha como local onde “navios de todos os tamanhos podem entrar para fazer reparações e obter água, frutas e outros mantimentos frescos”, sublinhando a regularidade das escalas de baleeiros americanos.
O cerne do artigo é, contudo, a descrição de um padrão social recorrente. Segundo Johnson, muitos jovens oriundos do meio rural da Nova Inglaterra migravam para cidades como Boston em busca de trabalho, acumulavam dívidas em alojamentos e, desanimados, aceitavam embarcar em viagens de baleação pelo adiantamento salarial. Ao chegarem ao Faial, após mais de duas mil milhas de travessia atlântica, encontravam-se exaustos e desiludidos, “olhando para um futuro de dois ou três anos de cruzeiro com horrível pavor”.
Muitos desertavam assim que conseguiam ir a terra, outros eram deixados como inválidos, incapazes de cumprir serviço, “para recuperar ou morrer”. Johnson afirma ter encontrado mais de cinquenta marinheiros americanos sob a responsabilidade do cônsul dos Estados Unidos numa das escalas. O USS Erie aceitou transportar doze deles, que trabalharam para pagar a passagem até portos onde poderiam tentar regressar a casa.

O autor descreve em detalhe o caso de um jovem alfaiate de Massachusetts que desertou no Pico, quase morreu de fome, foi assistido pelo cônsul no Faial e acabou por regressar aos Estados Unidos como inválido. Johnson é explícito: “a história deste jovem no mar é a história de centenas”.
O retrato social do Faial e os limites do cosmopolitismo
É a partir desta realidade marginal que Johnson constrói o seu retrato social do Faial. Descreve uma ilha marcada por pobreza relativa, poucas escolas, escassez de livros, ausência de tipografia, forte carga fiscal e resistência à inovação. Associa estas condições à política do governo português e à estrutura fundiária baseada em rendas e propriedades vinculadas. O tom é claramente paternalista e filtrado por uma visão moral protestante, particularmente visível na crítica severa ao clero católico local, descrito como ignorante das Escrituras e moralmente corrupto.
Este retrato contrasta com outras descrições contemporâneas da Horta como cidade cosmopolita e dinâmica. A divergência, contudo, não resulta de erro factual, mas do ponto de observação. Johnson vê o Faial “a partir de baixo”, a partir de desertores, inválidos e marinheiros sem língua nem recursos, excluídos dos circuitos económicos e sociais que sustentavam o cosmopolitismo portuário.
O seu testemunho revela, assim, que o Faial podia funcionar simultaneamente como:
- entreposto moderno de circulação atlântica;
- e espaço de bloqueio social para os descartados da navegação global.
Conclusão
O artigo de Lorenzo Dow Johnson constitui uma fonte primária de grande valor para a história social do Faial e da baleação no século XIX. Ao deslocar o olhar das elites portuárias para os marginais do sistema marítimo atlântico, revela o outro lado do cosmopolitismo, aquele que produzia não apenas mobilidade e prosperidade, mas também abandono e vidas suspensas.
Longe de invalidar as leituras que sublinham o carácter cosmopolita da Horta oitocentista, o texto de Johnson complementa-as, permitindo compreender como a mesma cidade podia ser aberta ao mundo para uns e profundamente fechada para outros. É precisamente nesta tensão que reside o seu maior valor historiográfico.
Referências bibliográficas
Fontes primárias
Johnson, Lorenzo Dow. “The Azores, or Western Islands.” The Independent (Nova Iorque), vol. 1, n.º 36, 9 ago. 1849, pp. 1–2.
Starbuck, Alexander. History of the American Whale Fishery. Waltham, MA: Published by the author, 1878.
Fontes secundárias
Busch, Briton Cooper. Whaling Will Never Do for Me: The American Whaleman in the Nineteenth Century. Lexington: University Press of Kentucky, 1994.
Leite, José Guilherme Reis. Faial e Açores: Economia e Sociedade no Século XIX. Ponta Delgada: Instituto Açoriano de Cultura, 1996.
Rediker, Marcus. Between the Devil and the Deep Blue Sea. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.
Saldanha, António. A Horta e o Atlântico no Século XIX. Horta: Núcleo Cultural da Horta, 2004.






















