O Faial visto da margem por Lorenzo Dow Johnson

A Baleação e os limites do cosmopolitismo atlântico

Introdução

Ao longo do século XIX, a cidade da Horta, na ilha do Faial, foi frequentemente descrita como um porto cosmopolita do Atlântico Norte: escala regular de baleeiros americanos, ponto de encontro de comerciantes e agentes marítimos estrangeiros, e espaço de circulação de pessoas, bens e ideias. Esta imagem, recorrente em relatos de viajantes, memorialistas e estudos históricos, sublinha a singularidade do Faial no contexto açoriano e a sua integração precoce nas redes atlânticas da navegação moderna.

Em 9 de agosto de 1849, contudo, surge um testemunho que contrasta fortemente com essa leitura. Nesse dia foi publicado em Nova Iorque, no jornal The Independent (vol. 1, n.º 36, pp. 1–2), o artigo “The Azores, or Western Islands”, da autoria de Lorenzo Dow Johnson. O texto resulta de observações realizadas durante duas escalas na ilha do Faial, na cidade da Horta, enquanto o autor viajava como surgeon’s steward (despenseiro do cirurgião) a bordo do navio da Marinha dos Estados Unidos USS Erie.

Este contraste não invalida nenhuma das visões, pelo contrário, permite compreender a coexistência de múltiplas experiências sociais num mesmo porto atlântico. O presente artigo analisa o texto de Johnson como fonte primária para a história social do Faial, integrando-o no debate historiográfico sobre baleação, cosmopolitismo portuário e marginalidade marítima no século XIX.


Faial, baleação e cosmopolitismo atlântico: estado da arte

A historiografia tem reconhecido o papel central do Faial no sistema atlântico de circulação marítima desde finais do século XVIII. Autores como Frank T. Bullen, Briton Cooper Busch e, no contexto açoriano, José Guilherme Reis Leite sublinharam a importância do arquipélago como ponto de escala estratégica para a navegação transoceânica, em particular para a baleação norte-americana.

No século XIX, a expansão da baleação da Nova Inglaterra transformou os Açores e o Faial em particular, num nó fundamental de reabastecimento, comercialização, recrutamento e apoio logístico. Estudos clássicos, como History of the American Whale Fishery de Alexander Starbuck (1878), já destacavam a frequência com que os baleeiros escalavam a Horta, quer na ida para o Pacífico quer no regresso. Trabalhos mais recentes têm aprofundado esta análise, mostrando como a economia da baleação se entrelaçou com as sociedades insulares, criando oportunidades económicas, mas também dependências estruturais.

Paralelamente, vários autores caracterizaram a Horta oitocentista como uma cidade portuária cosmopolita, marcada pela presença de cônsules estrangeiros, redes comerciais luso-britânicas e luso-americanas, circulação de capitais e convivência quotidiana de marinheiros de múltiplas nacionalidades. Este cosmopolitismo, contudo, era essencialmente funcional, pois dependia do porto e beneficiava sobretudo elites comerciais, agentes marítimos e marinheiros qualificados.

Abordagens mais recentes de história social e marítima têm vindo a sublinhar os limites desse cosmopolitismo, chamando a atenção para os grupos excluídos dos circuitos de mobilidade e prosperidade. É neste ponto que o testemunho de Lorenzo Dow Johnson se revela particularmente relevante, ao deslocar o olhar das elites portuárias para os marginais do sistema marítimo global.


Lorenzo Dow Johnson e o seu lugar de observação

Lorenzo Dow Johnson (1805–1867) foi pastor metodista episcopal, educador, escritor e reformador social. Ordenado muito jovem, afastou-se temporariamente do ministério ativo a partir de 1834, dedicando-se ao ensino, à escrita e a causas morais como a temperança e a educação religiosa.

Entre 1848 e 1849 viajou pela Europa, Mediterrâneo e Atlântico como surgeon’s steward a bordo do USS Erie. Esta função colocava-o em contacto direto com marinheiros doentes, inválidos ou abandonados, conferindo-lhe um ponto de observação privilegiado sobre os efeitos humanos da navegação de longo curso. O artigo publicado em The Independent resulta diretamente dessa experiência, registando observações feitas em duas escalas no Faial, na ida e no regresso do Mediterrâneo.


O artigo de 1849: conteúdo e argumentos centrais

Embora o título sugira uma descrição geral dos Açores, o texto concentra-se rapidamente no Faial enquanto ponto de passagem e abandono de marinheiros americanos. Johnson identifica a ilha como local onde “navios de todos os tamanhos podem entrar para fazer reparações e obter água, frutas e outros mantimentos frescos”, sublinhando a regularidade das escalas de baleeiros americanos.

O cerne do artigo é, contudo, a descrição de um padrão social recorrente. Segundo Johnson, muitos jovens oriundos do meio rural da Nova Inglaterra migravam para cidades como Boston em busca de trabalho, acumulavam dívidas em alojamentos e, desanimados, aceitavam embarcar em viagens de baleação pelo adiantamento salarial. Ao chegarem ao Faial, após mais de duas mil milhas de travessia atlântica, encontravam-se exaustos e desiludidos, “olhando para um futuro de dois ou três anos de cruzeiro com horrível pavor”.

Muitos desertavam assim que conseguiam ir a terra, outros eram deixados como inválidos, incapazes de cumprir serviço, “para recuperar ou morrer”. Johnson afirma ter encontrado mais de cinquenta marinheiros americanos sob a responsabilidade do cônsul dos Estados Unidos numa das escalas. O USS Erie aceitou transportar doze deles, que trabalharam para pagar a passagem até portos onde poderiam tentar regressar a casa.

O autor descreve em detalhe o caso de um jovem alfaiate de Massachusetts que desertou no Pico, quase morreu de fome, foi assistido pelo cônsul no Faial e acabou por regressar aos Estados Unidos como inválido. Johnson é explícito: “a história deste jovem no mar é a história de centenas”.


O retrato social do Faial e os limites do cosmopolitismo

É a partir desta realidade marginal que Johnson constrói o seu retrato social do Faial. Descreve uma ilha marcada por pobreza relativa, poucas escolas, escassez de livros, ausência de tipografia, forte carga fiscal e resistência à inovação. Associa estas condições à política do governo português e à estrutura fundiária baseada em rendas e propriedades vinculadas. O tom é claramente paternalista e filtrado por uma visão moral protestante, particularmente visível na crítica severa ao clero católico local, descrito como ignorante das Escrituras e moralmente corrupto.

Este retrato contrasta com outras descrições contemporâneas da Horta como cidade cosmopolita e dinâmica. A divergência, contudo, não resulta de erro factual, mas do ponto de observação. Johnson vê o Faial “a partir de baixo”, a partir de desertores, inválidos e marinheiros sem língua nem recursos, excluídos dos circuitos económicos e sociais que sustentavam o cosmopolitismo portuário.

O seu testemunho revela, assim, que o Faial podia funcionar simultaneamente como:

  • entreposto moderno de circulação atlântica;
  • e espaço de bloqueio social para os descartados da navegação global.

Conclusão

O artigo de Lorenzo Dow Johnson constitui uma fonte primária de grande valor para a história social do Faial e da baleação no século XIX. Ao deslocar o olhar das elites portuárias para os marginais do sistema marítimo atlântico, revela o outro lado do cosmopolitismo, aquele que produzia não apenas mobilidade e prosperidade, mas também abandono e vidas suspensas.

Longe de invalidar as leituras que sublinham o carácter cosmopolita da Horta oitocentista, o texto de Johnson complementa-as, permitindo compreender como a mesma cidade podia ser aberta ao mundo para uns e profundamente fechada para outros. É precisamente nesta tensão que reside o seu maior valor historiográfico.


Referências bibliográficas

Fontes primárias

Johnson, Lorenzo Dow. “The Azores, or Western Islands.” The Independent (Nova Iorque), vol. 1, n.º 36, 9 ago. 1849, pp. 1–2.
Starbuck, Alexander. History of the American Whale Fishery. Waltham, MA: Published by the author, 1878.

Fontes secundárias

Busch, Briton Cooper. Whaling Will Never Do for Me: The American Whaleman in the Nineteenth Century. Lexington: University Press of Kentucky, 1994.
Leite, José Guilherme Reis. Faial e Açores: Economia e Sociedade no Século XIX. Ponta Delgada: Instituto Açoriano de Cultura, 1996.
Rediker, Marcus. Between the Devil and the Deep Blue Sea. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.
Saldanha, António. A Horta e o Atlântico no Século XIX. Horta: Núcleo Cultural da Horta, 2004.

Memórias do Porto da Horta

O voo de Italo Balbo e os Açores na aviação transatlântica

Aviadores voando entre o Velho e o Novo Mundo usaram o Faial como ponto de escala.


Seis dos 24 hidroaviões italianos, liderados pelo Marechal do Ar Italo Balbo, no notável voo coletivo de Roma a Chicago em 1933, sobrevoam a esplêndida baía da Horta, ilha do Faial, na viagem de regresso.O vapor engalanado com bandeiras é o navio de apoio Città di Catania.
Ao fundo, acima das nuvens, eleva-se o cume da ilha do Pico – Foto: Norberto Amaral

Em julho de 1933, a baía da Horta integrou-se simbolicamente numa das maiores operações aéreas do período entre guerras: o voo coletivo transatlântico liderado pelo Marechal do Ar Italo Balbo. Seis dos vinte e quatro hidroaviões italianos sobrevoaram a cidade no percurso de regresso da célebre Crociera Aerea del Decennale, organizada para assinalar os dez anos do regime fascista italiano e demonstrar a capacidade técnica da aviação nacional.

A esquadrilha utilizava hidroaviões Savoia-Marchetti S.55X, aeronaves de casco duplo concebidas para longas travessias oceânicas. O voo Roma–Chicago, realizado em formação e com apoio naval permanente, constituiu um feito sem precedentes, tanto pela distância percorrida como pela complexidade logística envolvida. A chegada a Chicago coincidiu com a Exposição Universal Century of Progress, onde os aviões foram recebidos como símbolo do avanço tecnológico europeu.

A presença nos Açores inscreveu-se numa lógica estratégica clara. Desde o século XIX, o arquipélago afirmara-se como plataforma fundamental nas comunicações transatlânticas, papel que a aviação emergente viria a reforçar. O navio de apoio Città di Catania, visível engalanado na baía da Horta, fazia parte de uma frota destinada a garantir reabastecimento, comunicações e salvamento, evidenciando a estreita articulação entre meios aéreos e navais.

Embora breve, o episódio reforçou a projeção internacional dos Açores e antecipou a sua importância futura na aviação atlântica. Nas décadas seguintes, essa centralidade consolidar-se-ia com a aviação comercial e militar, transformando o arquipélago num ponto-chave das ligações entre a Europa e a América.

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Città di Catania
Piroscafo italiano de passageiros, construído nos estaleiros Ansaldo de Sestri Ponente e lançado à água em 1910, o Città di Catania foi a primeira embarcação italiana movida por turbinas a vapor, atingindo velocidades de cruzeiro elevadas para a época. Projetado para o serviço estatal entre o continente e a Sicília, destacou-se pela modernidade técnica e pelo conforto, tendo sido descrito pelo pintor Paul Klee como um «magnífico piroscafo».

Durante a Primeira Guerra Mundial foi requisitado pela Marina e convertido em cruzador auxiliar, participando em operações navais no Mediterrâneo, no Adriático e na costa da Líbia. No pós-guerra regressou ao serviço civil, integrando mais tarde a frota da Tirrenia (companhia de transporte de passageiros estatal).

Em Agosto de 1933, desempenhou funções de navio de apoio à Crociera Aerea del Decennale, acolhendo nos Açores os tripulantes dos hidroaviões comandados por Italo Balbo e prestando apoio logístico à travessia aérea transatlântica.

Manteve actividade durante a Segunda Guerra Mundial, sobretudo como transporte de passageiros e de tropas. Em 3 de Agosto de 1943, navegando sem escolta entre Durazzo e Brindisi, foi afundado por um submarino britânico, causando a morte de mais de duas centenas de pessoas. O seu naufrágio constitui um dos episódios mais trágicos da marinha mercante italiana.

Fontes

  • Balbo, Italo — La Crociera Aerea del Decennale (Roma, 1933)
  • Ferrara, G. — Gli S.55 e le grandi trasvolate atlantiche (Ufficio Storico Aeronautica Militare)
  • Gunston, Bill — The History of Aviation (Crescent Books, 1986)
  • Ribeiro, João — Os Açores e a Aviação Atlântica (Instituto Açoriano de Cultura)
  • Arquivo Histórico da Aeronautica Militare Italiana
  • Imprensa portuguesa da época (Diário de Notícias, O Século, julho de 1933)

Ao Abrir da Manhã – RAMPA: Nasceu sem os pescadores e assim continuará

Publicado no Jornal Incentivo de 22 de Janeiro de 2026 

Os tunídeos são espécies migratórias, geridas a nível internacional, e a pesca açoriana de salto e vara é das mais limpas do mundo. O impacto das proibições locais na conservação global é residual, mas o impacto social e económico nas comunidades piscatórias é profundo. Ainda assim, optou-se por sacrificar quem faz bem, enquanto se continua a ignorar quem fez mal.

A Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores (RAMPA) não nasceu de um amplo consenso nem de um verdadeiro diálogo com quem vive da pesca. Quem afirma o contrário demonstra um profundo desconhecimento deste setor nos Açores ou, pior ainda, enfeita a realidade e as estatísticas conforme a narrativa que mais lhe convém. O processo de criação da RAMPA foi um projeto fechado, tecnocrático e imposto de cima para baixo, alheio à vivência das comunidades piscatórias e à dinâmica real das pescas no arquipélago.

Quando os impactos sociais e económicos começaram a tornar-se evidentes, surgiu então uma tentativa de correção. Foi já depois da RAMPA estar aprovada que o Partido Socialista apresentou uma proposta de alteração, reconhecendo, ainda que tarde demais, que a pesca de salto e vara é sustentável, seletiva e compatível com a conservação marinha. Esse reconhecimento tardio diz muito sobre a forma como todo este processo foi conduzido desde o início.

Este momento, entre março de 2025 e janeiro de 2026, foi apresentado como um grande exercício de participação. Mais uma vez, os números foram usados para criar percepção. Fala-se em centenas de contributos, mas a esmagadora maioria corresponde a submissões escritas no âmbito da apreciação pública, declarações individuais, muitas delas genéricas, sem carácter técnico, nem sustentação jurídica, e sem ligação direta à pesca profissional. Isto não são audições. Não são pareceres vinculativos. Não constituem diálogo estruturado.

Quando se olha para o que realmente conta num processo sério — audições presenciais, com contraditório e responsabilidade política — o quadro é claro: cerca de dez entidades e personalidades foram efetivamente ouvidas. Mesmo assim, o setor da pesca voltou a chegar tarde ao processo. Mais grave ainda, dos pareceres formais solicitados pela própria Comissão, praticamente nenhum foi entregue dentro do prazo. Ainda assim, avançou-se, como se ouvir fosse apenas um detalhe acessório.

O Partido Socialista falhou duas vezes. Falhou quando não travou a criação da RAMPA, apesar de conhecer bem a realidade da pesca açoriana e de saber que este processo nasceu torto, construído à margem do setor e sustentado por milhões de euros gastos em propaganda, que em nada refletiam o sentimento, as expectativas ou a esperança de uma fileira que foi deliberadamente colocada de parte ao longo de todo o processo. Falhou novamente quando, na fase final da discussão em plenário, recuou e aceitou um acordo de bastidores, abdicando do compromisso que havia assumido publicamente com o setor das pescas.

A coligação PSD/CDS/PPM, por seu lado, foi coerente — mas coerente no erro. Nunca reconheceu qualquer falha nem demonstrou abertura para uma reavaliação séria e fundamentada do processo. Adotou integralmente a narrativa da “Blue Azores”, passando a tratar qualquer tentativa de revisão como uma ameaça à chamada “função ecológica” do modelo. Corrigir passou a ser visto como retroceder. Nesse caminho, assistiu-se a intervenções parlamentares marcadas por uma suposta “lucidez” na defesa da causa maior, a sua ou aquela que dá jeito, sustentada em estatísticas avulsas, leituras convenientes e um profundíssimo desconhecimento da realidade das pescas nos Açores. É confrangedor ver deputados tão mal preparados, incapazes de distinguir propaganda de conhecimento do terreno, assentarem a sua narrativa em modelos que prejudicam os pescadores e as suas famílias, transformando quem sempre viveu do mar em obstáculo político, em vez de parceiros essenciais na defesa do oceano. Assim, a RAMPA tornou-se intocável, mesmo quando os seus efeitos negativos já eram evidentes no terreno.

Esta rigidez ideológica torna-se ainda mais clara na questão das compensações. Reconheceu-se que a RAMPA teria impactos económicos significativos sobre a fileira da pesca. Reconheceu-se a necessidade de compensar. No entanto, o modelo de compensação foi estudado fora da Região. Afastou-se a Universidade dos Açores e o conhecimento acumulado de décadas de trabalho ligado ao mar e aos pescadores? Onde fica a autonomia que tanto se proclama? Quando é para o discurso, somos autónomos. Quando é para decidir, colocamo-nos debaixo da asa da mãe. Esta opção pode comportar em si uma desconfiança injustificável no saber regional e reforça um modelo tecnocrático, distante e desligado da realidade das ilhas.

Mesmo o regime de compensações anunciado revela uma visão curta e perigosamente simplista. Quando forem plenamente conhecidos e operacionalizados os mecanismos de compensação, tornar-se-á ainda mais evidente que as consequências da RAMPA não se limitam aos pescadores que operavam diretamente nas áreas agora interditas. O impacto financeiro propaga-se por toda a fileira da pesca: armadores, tripulações, lotas, comercializadores, transporte, transformação e serviços associados. Ao restringir áreas tradicionais de pesca, empurra-se inevitavelmente o esforço para outras zonas, concentrando a atividade, aumentando os custos operacionais, reduzindo a eficiência e gerando uma pressão acrescida sobre outras pescarias, que até aqui se encontravam em relativo equilíbrio. Este efeito dominó é óbvio para quem conhece o mar e a realidade das pescas nos Açores e será ignorado no desenho das compensações, que continuam a assentar numa leitura parcial e incompleta do setor. Haverá sacrifícios, haverá esforço redobrado noutras áreas de pesca, e isso não é uma hipótese teórica, é uma consequência natural, previsível e inevitável de decisões tomadas sem visão sistémica.

Tudo isto assenta numa contradição fundamental: os tunídeos são espécies migratórias, geridas a nível internacional, e a pesca açoriana de salto e vara é das mais limpas do mundo. O impacto das proibições locais na conservação global é residual, mas o impacto social e económico nas comunidades piscatórias é profundo. Ainda assim, optou-se por sacrificar quem faz bem, enquanto se continua a ignorar quem fez mal.

A RAMPA não falha por querer proteger o mar.

Falha porque nasceu sem os pescadores, consolidou-se sem humildade e recusou corrigir-se quando ainda havia tempo.

E isso não é política ambiental.

É teimosia política com consequências reais.

Ao Abrir da Manhã – Transparência como oportunidade

Publicado no Jornal Incentivo de 9 de Janeiro de 2026

A discussão em torno da transmissão online das reuniões da Câmara Municipal trouxe novamente para o espaço público uma questão central da democracia local, a relação entre o poder político e os cidadãos. As propostas apresentadas pela oposição inserem-se numa prática cada vez mais comum em muitos municípios portugueses, incluindo nos Açores, onde o recurso a meios digitais tem servido para alargar o acesso à informação e aproximar eleitos e eleitores.

Apesar deste enquadramento, o executivo municipal e a maioria na Assembleia Municipal, sustentados pela coligação do Partido Social Democrata, do CDS – Partido Popular e do Partido Popular Monárquico, optaram por rejeitar a transmissão em direto das reuniões. Trata-se de uma decisão política legítima, mas que revela uma postura discutível, por não assentar numa argumentação consistente capaz de responder às atuais exigências de transparência, escrutínio público e participação democrática.

Ao recusar esta possibilidade, o executivo municipal assume claramente a responsabilidade de compensar essa opção com uma política de comunicação institucional mais clara, acessível e eficaz. Isso implica páginas oficiais permanentemente atualizadas, divulgação atempada das datas e ordens de trabalhos das reuniões públicas, das suas actas e decisões e um incentivo real à participação dos munícipes nos espaços já previstos nos regulamentos. A transparência não se esgota no cumprimento formal das regras, constrói-se na forma como a informação é partilhada e acessível.

Deve, ainda assim, reconhecer-se como positiva a retoma, por parte do atual executivo, de uma prática com longa tradição na Câmara Municipal da Horta, que se manteve em vigor pelo menos até 2020, desconhecendo se teve continuidade no mandato que terminou em 2025, refiro-me às audiências ou reuniões com os munícipes. Estes momentos de contacto direto são importantes para reforçar a proximidade e o diálogo, mas dificilmente substituem o acompanhamento regular e alargado das decisões políticas tomadas nos órgãos autárquicos.

Importa também enquadrar estas opções num contexto mais amplo. As últimas eleições autárquicas ficaram marcadas pela escassez de debates entre candidatos e por um envolvimento limitado da comunidade, sinais claros de um défice de discussão pública. Decisões que restringem o acesso à informação, incluindo aquelas que resultam da limitação ou condicionamento do trabalho jornalístico, não só não contribuem para inverter esse cenário como o agravam. Ao invés de aproximar, reforçam a distância entre instituições e eleitores, quando o desafio democrático deveria ser exatamente o oposto, criar pontes, abrir canais, estimular o interesse pela vida política local e apoiar, de forma ativa, o papel dos órgãos de comunicação social. Aos responsáveis políticos pode caber a discordância face a abordagens ou conteúdos, mas nunca, porém, a prerrogativa de hostilizar, condicionar ou desvalorizar o exercício livre do jornalismo.

A participação ativa dos faialenses na vida pública, na exigência e no escrutínio, não é apenas legítima, é um dever cívico. Ainda assim, tem sido possível assistir, nas redes sociais, a uma defesa velada deste estado de coisas, protagonizada por um núcleo de cidadãos politicamente alinhados que hoje relativizam ou desvalorizam práticas que, não há muito tempo, criticavam com enorme veemência. O uso do espaço digital não deveria induzir uma amnésia seletiva ditada por conveniências partidárias, mas esse é, infelizmente, um facto com o qual nos confrontamos.

Não podemos permitir que a indiferença se instale no quotidiano nem aceitar o “deixa andar” como resposta às decisões que moldam a nossa comunidade. O que temos vindo a assistir, no Faial, no país e no mundo, é precisamente ao avanço de modelos de governação que prosperam na ausência de vigilância democrática e na apatia dos cidadãos.

Os tempos mudaram, e com eles mudaram também as expectativas da sociedade. Hoje exige-se mais abertura, mais clareza e maior capacidade de prestar contas. A transparência deixou de ser um gesto opcional para se afirmar como um critério essencial da qualidade democrática. Cabe agora aos munícipes refletir sobre estas opções, exigir melhores práticas e participar ativamente na construção de uma democracia local mais aberta, mais próxima e mais confiante.

Porque quanto mais se vê e se compreende, mais se participa. E quanto mais se participa, mais forte se torna a nossa comunidade.

Casa da Commercial Cable Co. (C.C.C.) – 100 anos – 1926-2026

A companhia americana Commercial Cable Company. (C.C.C.) instalou o seu primeiro cabo submarino entre a cidade da Horta e Canso (Nova Escócia) a 27 de julho de 1900, tornando-se a primeira empresa a estabelecer uma ligação telegráfica por cabo entre o continente americano e o arquipélago dos Açores. Este acontecimento marcou profundamente a história das comunicações internacionais e projetou a Horta como um ponto estratégico nas redes globais de telecomunicações.

A fase inicial de instalação da companhia teve início em abril de 1900, com a aquisição à família Dabney da propriedade conhecida como “The Cedars”, destinada a residência do diretor local da C.C.C. Atendendo a que os primeiros contingentes de trabalhadores enviados para a Horta eram maioritariamente solteiros, tornou-se necessária a criação de uma zona habitacional própria, que incluía moradias e refeitório, implantada nos terrenos adjacentes à ala ocidental da Cedars House.

A construção deste núcleo habitacional data de 1901. O edifício imediatamente fronteiro à entrada, ostentando essa data na fachada e anexo ao lado oeste da Cedars House, foi o primeiro a ser construído. Posteriormente, o conjunto foi ampliado com a edificação de um novo imóvel a oeste dessa estrutura inicial, acompanhando o crescimento da empresa e a consolidação da sua presença na ilha do Faial.

Em 1926, foi construída uma nova casa, com o objetivo de servir de residência aos oficiais e respetivas famílias, acumulando igualmente a função de moradia do Subdiretor da C.C.C. Este edifício representa uma evolução significativa nas condições habitacionais proporcionadas pela companhia, refletindo a estabilidade do seu quadro técnico e administrativo. Assinala-se em 2026 o centenário desta casa, um marco simbólico da sua relevância histórica, arquitetónica e social.

O espaço envolvente da casa assumiu igualmente um papel central na vida social e recreativa da comunidade ligada à companhia. Nos seus terrenos foram construídos dois campos de ténis, equipamentos invulgares para a época, que evidenciam a introdução de práticas desportivas e costumes de matriz norte-americana na cidade da Horta. Para além da vertente desportiva, a propriedade dispunha de um amplo espaço exterior, que funcionava como local privilegiado de convívio, acolhendo encontros sociais, receções e festas, reforçando os laços entre os funcionários da C.C.C., as suas famílias e a sociedade local.

Este conjunto, habitações, campos de ténis e áreas exteriores de lazer, fez da Cedars House, Casa dos Solteiros, Casa dos Oficias e das edificações associadas não apenas um espaço residencial, mas um centro de encontros, sociabilidade e lazer da ilha do Faial, constituindo hoje um testemunho fundamental da memória urbana, arquitectónica da ilha do Faial e da importância histórica da cabotelegráfica nos Açores

Fontes bibliográficas:

ROGERS, Francis M.“A Horta dos Cabos Submarinos” Horta, ed. da Delegação de Turismo da Horta, s.d. [1983]

SILVEIRA, Carlos M. Ramos “O cabo submarino e outras crónicas faialenses”, s/local, Ed. Núcleo Cultural da Horta, 2002.

O bolo que já teve o nome de Arriaga

Há bolos que são receitas e há bolos que são calendários. O Bolo-Rei pertence a esta segunda categoria: não mede apenas ingredientes, mede o tempo. A sua história atravessa impérios, revoluções e decretos-lei, mas também atravessa cozinhas, mesas familiares e memórias que não ficaram escritas.

A origem do bolo perde-se nas Saturnálias romanas, quando uma fava escondida numa torta doce elegia, por acaso, o Rei da festa. O gesto pagão, simples, lúdico e comunitário, foi mais tarde cristianizado pela Igreja, que o integrou no ciclo da Natividade e da Epifania. A fava permaneceu e apenas mudou o Rei. Já não era o da festa, mas o dos Reis Magos, cuja visita simbólica encerrava o tempo do Natal.

Na corte de Luís XIV, o bolo ganhou a forma que hoje conhecemos, uma coroa doce e ornamentada. Nem mesmo a Revolução Francesa, avessa a reis e coroas, conseguiu expulsá-lo das mesas. Mudou-lhe o nome, disfarçou-lhe o sentido, mas manteve-o no forno. O bolo sobreviveu porque, no fundo, nunca pertenceu verdadeiramente ao poder, pertenceu sempre ao povo.

No início do século XIX chega a Portugal e é rapidamente adotado. A implantação da República tenta, uma vez mais, apagar o Rei do nome, como se mudar a palavra pudesse mudar o sabor. Surgem então designações improvisadas, criativas, quase irónicas: Bolo Nacional, Bolo Republicano, ex-Bolo Rei. Entre elas, uma destaca-se por um afeto involuntário: o Bolo Arriaga, em homenagem ao primeiro Presidente da República, o nosso conterrâneo Manuel Arriaga.

É neste ponto que a história oficial começa a perder nitidez e dá lugar à história vivida.

Na ilha do Faial, na nossa casa, o bolo tinha o seu dia. Era o momento de juntar a família, muitas vezes a ocasião em que se reuniam os Garcias e os Terras. Mantinha-se viva a lógica passada de geração em geração, em que a quadra natalícia tinha início a 8 de dezembro (Dia Imaculada Conceição) e prolongava-se até ao 6 de Janeiro (Dia de Reis). No tempo em que crescemos, o bolo era feito na véspera. A massa ficava a levedar devagar, de um dia para o outro. O forno, na manhã seguinte, aquecia a casa, e o bolo marcava o fecho de uma época bela e rica de união familiar.

O bolo surgia inteiro, redondo, quase solene, com a promessa silenciosa da fava escondida. Cortava-se com atenção, quase com respeito. A fava não era castigo, era compromisso. Havia sempre, nos mais pequenos, uma ingenuidade pura de fugir àquele brinde, como se de um jogo se tratasse. Quem a encontrasse ficava ligado ao próximo ano, ao próximo bolo, à continuidade do gesto, ainda que, na prática, essa responsabilidade acabasse sempre por sair das belas mãos da minha mãe.

Nesse contexto, chamar-lhe Bolo-Rei, Bolo de Natal ou Bolo-Arriaga torna-se quase irrelevante. O nome mudava conforme a época histórica, mas a prática permanecia. O bolo continuava e continua a cumprir a sua função essencial de reunir, marcar o tempo, ligar passado e futuro numa simples fatia doce.

Porque, no fim, o verdadeiro Rei nunca esteve no nome do bolo. Esteve sempre em quem se sentava à volta dele, no Faial, no início de um ano que ainda cheirava a massa levedada e a esperança.

Feliz ano novo!

Ao Abrir da Manhã – Balanço e Escolhas: o Faial perante 2026

Publicado no Jornal Incentivo de 31 de Dezembro de 2025

No dia 30 de dezembro de 2024 escrevi que o ano que então se iniciava deveria ser um ano de oportunidades para o Faial: um tempo para refletir, corrigir erros, cumprir promessas e preparar o futuro. Chegado o momento do balanço, importa revisitar essas notas.

2025 foi um ano marcado por eleições, demasiadas. Algumas poderiam e deveriam ter sido evitadas. A demissão de António Costa, por exemplo, não deveria ter conduzido a eleições legislativas; foi um erro que ficará registado na história da Presidência da República, cujas consequências ainda estão por escrever.

No plano interno, destacou-se a vitória da coligação PSD/CDS/PPM, liderada por Carlos Ferreira, com uma maioria expressiva e triunfos em 12 das 13 juntas de freguesia do Faial. Este resultado consolidou uma mudança clara no rumo político da ilha e criou condições para que 2026 possa ser um ano de concretização de projetos estruturantes.

Foto: João Garcia – Ilha do Faial

No entanto, no Aeroporto da Horta, 2025 confirmou o padrão do adiamento. As obras na aerogare avançaram sem visão de médio e longo prazo, enquanto a ampliação da pista soma mais um ano sem concretização, apesar de o projeto se encontrar em execução. Não há compromissos claros da concessionária, o Governo da República fugiu às suas responsabilidades e o Governo Regional nem sequer cumpriu a sua parte financeira. Apenas o Município mantém o tema vivo. Quando não existe vontade política, nenhum projeto avança. Resta esperar que 2026 traga finalmente boas notícias, talvez impulsionadas pela privatização da Azores Airlines ou, quem sabe, usada como mais um conveniente bode expiatório.

Nas acessibilidades aéreas, 2025 foi um ano tristemente normal: estagnação, falta de lugares para Lisboa, cancelamentos frequentes, bagagens deixadas em terra e passageiros a perder ligações. As expectativas para 2026 são baixas, sobretudo após um concurso de Obrigações de Serviço Público que voltou a deixar o Faial e o Pico para segundo plano. Persiste apenas a esperança numa ligação Porto–Lisboa–Porto e numa promoção séria do destino Faial, especialmente na época baixa, onde a sazonalidade continua um pesadelo para os empresários.

No Porto da Horta, o balanço é claro: nada foi feito. Perdeu-se a oportunidade do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), enquanto milhões são investidos noutros portos da Região. Mantêm-se desculpas do passado e uma administração distante das necessidades da comunidade marítima faialense. O tempo perdido não se recupera, mas 2026 terá de ser um ano de ação, sabendo que, sem vontade política, nada muda.

Em contraste, as acessibilidades marítimas foram a boa notícia de 2025, com melhorias no transporte de mercadorias e passageiros, sobretudo na ligação do Triângulo. Ficou demonstrado que, quando há planeamento, é possível fazer melhor. O desafio agora é consolidar este caminho.

Na habitação e reabilitação urbana, importa reconhecer o avanço da Estratégia Local de Habitação da Câmara Municipal da Horta. Ainda assim, subsistem dúvidas quanto à capacidade de execução e ao risco de perda de fundos do PRR. Acresce o problema persistente do trânsito e do estacionamento no centro da cidade, ainda sem soluções estruturais. Para 2026, exige-se maior proatividade e ações concretas.

O património continua a ser o exemplo mais claro da falta de vontade política para com o Faial. Termas do Varadouro, Trinity House, Castelo de São Sebastião, Forte de Santa Cruz, Museu da Horta, entre outros, permanecem ao abandono, apesar do seu enorme potencial. Isto representa um desrespeito para com os faialenses.

Preocupa igualmente a situação da Escola do Mar, fragilizada pela perda de recursos humanos e pelo subfinanciamento, com reflexos no Tecnopolo–MARTEC. Impõe-se clarificar a visão e a estratégia para estes equipamentos fundamentais ao futuro da ilha.

Por fim, impõe-se uma reflexão profunda sobre a terceira fase da Frente de Mar. A experiência das fases anteriores demonstra que o investimento realizado não trouxe benefícios reais à cidade, pelo contrário, contribuiu para a sua descaracterização e para decisões urbanísticas desconectadas da vivência local. Avançar cegamente para uma terceira fase será repetir um erro evidente, enterrando mais dinheiro público sem retorno e comprometendo irreversivelmente a relação da cidade com o mar.

2025 foi afinal um ano de balanço. 2026 terá de ser, inevitavelmente, um ano de escolhas. O Faial não pode continuar refém do adiamento nem preso ao passado. O tempo do diagnóstico já passou. É tempo de agir, com coragem, responsabilidade e visão, para o bem dos faialenses e do futuro da nossa ilha.

Feliz Ano Novo!

Ao Abrir da Manhã – Escolhas que Moldam o Presente

Publicado no Jornal Incentivo de 18 de Dezembro de 2025

Maria Raquel Viegas Soeiro de Brito

Felicitá-la pelo seu centenário é celebrar uma vida excecional dedicada ao conhecimento, ao território e às pessoas. Nascida a 12 de dezembro de 1925, na freguesia da Assunção, concelho de Elvas, é uma figura maior da ciência portuguesa, primeira mulher doutorada em Geografia, investigadora incansável e referência incontornável no estudo da paisagem e da relação entre a natureza e a sociedade.

Publicado no Jornal Público de 14 de Dezembro de 2025

A exposição de homenagem atualmente patente, organizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, revisita um percurso científico e humano absolutamente notável. Para o Faial, o seu nome tem um significado muito especial. Em 1957, foi a primeira cientista a chegar ao Vulcão dos Capelinhos, episódio que a própria descreve como “o momento mais espantoso da minha vida científica”. Nos Capelinhos, diz, “estava dentro do vulcão. Eu vivi o vulcão”, criando com a ilha uma relação profunda, científica e afetiva, que perdurou ao longo da vida e à qual regressou várias vezes, a última em 2021

As fotografias e filmagens que realizou constituem hoje um património científico e histórico de enorme valor. Por isso, faz todo o sentido que o Município da Horta estabeleça os contactos necessários para que esta exposição possa ser apresentada no Faial, idealmente no Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos. Trazer esta homenagem à ilha é um gesto de reconhecimento, de memória e de justiça para com uma cientista que ajudou a dar a conhecer o Faial ao país e ao mundo.

Carlos Ferreira

A eleição do Presidente da Câmara Municipal da Horta, Carlos Ferreira, para Presidente do Conselho de Administração da Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores (AMRAA) representa um momento de particular relevância para o concelho da Horta e para a ilha do Faial.

Esta escolha reforça a presença do Faial nos principais fóruns de decisão intermunicipal da Região Autónoma dos Açores, assegurando uma voz ativa e representativa num espaço fundamental de concertação entre municípios. A presidência da AMRAA por um autarca faialense constitui uma oportunidade para valorizar as especificidades do território, aprofundar a cooperação intermunicipal e contribuir para políticas integradas que promovam o desenvolvimento equilibrado da Região.

Marina da Horta

Registou-se este ano um novo recorde de entradas de iates, com a chegada simultânea de várias embarcações, neste mês de dezembro, entre as quais diversos veleiros da classe Class40, situação pouco habitual para esta época do ano. As entradas foram acompanhadas e registadas pelos fotógrafos locais António Fraga e José Macedo.

Foto: José Macedo – Dez 25

A presença destas embarcações está relacionada com a Globe40, a principal regata da classe em curso no final de 2025. Esta prova consiste numa volta ao mundo em duplas, iniciada em setembro, em Cádis (Espanha), e percorre vários oceanos, incluindo a passagem pelo Cabo Horn, num desafio de elevada exigência técnica e humana.

Foto: António Fraga – Dez 25

Este crescimento da atividade náutica na Marina da Horta não tem, contudo, sido acompanhado pela devida comunicação nem por uma informação adequada, e as infraestruturas, como já anteriormente referido, não têm merecido a atenção necessária. Este novo recorde de entradas deve, por isso, servir de alerta para a necessidade de reforço dos meios humanos e de melhoria das condições operacionais daquela que é considerada uma das maiores marinas de passagem da Europa. Importa ainda salientar o trabalho atento e consistente dos fotógrafos António Fraga e José Macedo, cujo registo visual tem sido fundamental para documentar este momento histórico e dar visibilidade à intensa dinâmica marítima da Marina da Horta.

Quem chega à meta em primeiro?

Gosto de Fórmula 1. O problema não é o desporto, é a mensagem política. Num país sem recursos energéticos, onde se pede às famílias contenção, eficiência e mudança de comportamentos, gastar cerca de 50 milhões de euros para patrocinar a Fórmula 1 em 2026 e 2027 levanta uma pergunta simples: qual é, afinal, a meta?

Enquanto se avança devagar na eficiência energética, o programa E-Lar, no continente português, mobilizou 81 milhões de euros em duas fases para reduzir consumos, faturas e dependência externa, um investimento com efeitos duradouros. Em contraste, a Fórmula 1 consome quase o mesmo montante num evento pontual, de elevado impacto ambiental e retorno público discutível.

Aos cidadãos pede-se que abrande; ao espetáculo acelera-se. Fala-se em retorno económico, mas ignora-se que a eficiência energética poupa energia todos os dias, enquanto a Fórmula 1 dura apenas um fim de semana.

A transição energética é uma corrida de fundo, não um sprint mediático. Sem coerência entre discurso e escolhas, o país pode até passar a linha de chegada de um grande evento, mas afasta-se da verdadeira meta: reduzir a dependência energética e preparar o futuro.

Não faz mal…

O perigo da indiferença é precisamente este, acreditar que “não faz mal”, que “não chegam lá”. A história ensina-nos o contrário.

Enquanto escrevia estas palavras, surgiu na tela uma declaração do Ministro da Educação que me deixou incrédulo: “Quando metemos pobres a beneficiar de serviços públicos, esse serviço deteriora-se. É assim nas escolas, nos hospitais…”  Tenho pessoas conhecidas nos partidos da coligação governativa e gostava, honestamente, de saber o que pensam quando ouvem algo assim.

Onde vamos parar quando se normaliza um discurso que culpa os mais frágeis pela degradação do que é público? A arrogância de certas minorias, que quando lhes convém se aliam à extrema-direita, assenta na mesma lógica perigosa de dividir, de desumanizar, de excluir. Foi com ideologias semelhantes que se retirou a liberdade, se proibiu a cultura e se silenciou quem pensava diferente, porque um povo mantido na ignorância obedecia melhor.

Não fez mal, até fazer. Não chegaram lá, até chegarem. E quando se sentiu, já era tarde. Será que já não ultrapassamos o limite?