Ao Abrir da Manhã – A fadiga do extraordinário

Publicado no Jornal Incentivo de 18 de Março de 2026

Vivemos num tempo em que quase nada se permite existir com a serenidade do que é apenas real. Tudo parece precisar de nascer envolto em grandeza, como se o simples já não bastasse para captar atenção nem o mérito discreto fosse suficiente para justificar reconhecimento. Uma ação corrente surge como marco, uma iniciativa previsível adquire contornos de feito excecional, uma repetição é apresentada como novidade e, pouco a pouco, a linguagem vai-se afastando da realidade que pretende descrever.

O extraordinário deixou de ser categoria rara para se tornar fórmula corrente. Multiplicam-se expressões definitivas, superlativos absolutos, anúncios de pioneirismo, referências constantes ao inédito, ao maior, ao melhor, ao nunca alcançado. Mas quando tudo se apresenta nesse registo, o próprio significado dessas palavras começa a dissolver-se. O excesso deixa de impressionar e passa apenas a produzir ruído.

Também no nosso quotidiano esta lógica se instalou com naturalidade inquietante. Mostra-se repetidamente o mesmo facto com molduras diferentes, altera-se o tom, muda-se a ordem das palavras, acrescenta-se solenidade, e a sucessão de anúncios cria a ilusão de movimento onde muitas vezes há apenas repetição. À força de ser dito muitas vezes, o que é comum adquire aparência de exceção, à força de ser exposto, o que é modesto ganha dimensão artificial.

Imagem criada por IA – Contrastes entre a fama e a simplicidade

Nem sempre se questiona se aquilo que se proclama pode realmente ser medido, comparado ou sequer avaliado na dimensão em que é apresentado. Muitas vezes basta o selo, o título, a designação sonora, a fotografia certa e a construção de uma narrativa suficientemente enfática para que o anúncio se imponha como evidência. O prestígio passou a depender menos da substância do que da forma como é comunicado.

Talvez por isso se tenha tornado tão difícil distinguir reconhecimento de promoção, mérito de formalidade, relevância de mera circulação de linguagem. E não deixa de ser revelador que tantas vezes a notícia surja já acompanhada da palavra que a pretende validar: excelência, distinção, referência, liderança. Como se a designação dispensasse a necessidade de prova.

O problema não está apenas no discurso, está no hábito coletivo de o aceitar sem distância crítica. De tanto convivermos com esta inflação verbal, habituámo-nos a ela. Já não estranha que tudo seja anunciado como singular, nem causa desconforto que quase tudo procure apresentar-se acima da sua própria escala. A insistência tornou-se argumento, e a repetição passou a valer como confirmação.

Entretanto, aquilo que verdadeiramente sustenta uma comunidade continua quase sempre fora deste foco: o trabalho regular, a responsabilidade silenciosa, a competência sem aparato, o cumprimento sem proclamação. Talvez porque a normalidade, hoje, se tenha tornado estranhamente rara.

E talvez seja precisamente isso que mais falta: pessoas normais no sentido mais exigente da palavra, capazes de agir sem dramatização, de produzir sem permanente necessidade de validação pública, de compreender que nem tudo precisa de ser excecional para ter valor.

Num tempo em que quase tudo procura parecer maior do que é, talvez a lucidez consista apenas em recuperar a medida: chamar às coisas pelo seu nome, devolver peso às palavras e recordar que uma sociedade madura não se engrandece pelo número de superlativos que usa, mas pela clareza com que distingue o essencial do acessório.

Olha o Faial – Pombo-Trocaz

O pombo-torcaz (Columba palumbus) é a maior espécie de pombo presente em Portugal e também ocorre na ilha do Faial, nos Açores. Distingue-se facilmente do pombo-comum pelo seu maior tamanho, corpo mais robusto, plumagem predominantemente cinzenta, peito com tonalidade rosada e pelas manchas brancas características no pescoço e nas asas, visíveis sobretudo em voo.

No Faial, esta espécie ocupa uma grande variedade de habitats, incluindo zonas de mata (naturais e plantadas, como criptomérias), áreas agrícolas, sebes, jardins e parques. Alimenta-se principalmente de sementes, grãos, folhas, rebentos e frutos, desempenhando um papel importante na dispersão de sementes e no equilíbrio dos ecossistemas.

A nidificação ocorre geralmente entre a primavera e o verão. O pombo-torcaz constrói um ninho simples de ramos, colocado em árvores ou arbustos, normalmente a uma altura média e em locais com boa cobertura vegetal. A postura é, em regra, de dois ovos brancos, incubados por ambos os progenitores.

Trata-se de uma espécie relativamente comum, mas que integra a lista de aves protegidas, estando abrangida por legislação que visa a conservação da avifauna e dos seus habitats. A preservação das zonas arborizadas e a redução da perturbação humana são fatores essenciais para garantir a continuidade das populações no Faial e em todo o arquipélago dos Açores

Fotos: João Garcia

Rostos do Porto do Varadouro


Américo da Conceição — “Mestre Américo”
(1938–1999)

Américo da Conceição, conhecido por todos como Mestre Américo, foi um homem de generosidade rara e pescador de mão cheia. Nasceu a 4 de junho de 1938 e desde cedo fez do mar a sua casa. Baleeiro, filho do mar por vocação e destino, construiu a sua vida entre o Porto do Varadouro e o Porto do Comprido, lugares que marcaram o seu percurso e a sua identidade.

Era um profundo conhecedor do mar, das correntes, das marcas e dos sinais do tempo que só a experiência de uma vida inteira sabe decifrar. A sua sabedoria nascia do trabalho diário, do silêncio atento e da observação, e era partilhada com humildade, numa palavra certa ou num gesto simples. Por isso, era respeitado por todos os que com ele partilhavam as lides da pesca.

No Varadouro e no Comprido, o Mestre Américo foi mais do que um pescador: foi referência, memória e exemplo. Para muitos, foi mestre; para outros, companheiro e amigo; para todos, um rosto que se confunde com a história viva destes portos e da sua gente.

Partiu a 25 de março de 1999, mas permanece presente nas histórias contadas à beira do cais, nas recordações de quem com ele aprendeu e no mar que tão bem conhecia e através do legado deixado aos seus filhos. Hoje recordamo-lo com respeito e gratidão, pelo homem que foi e pelo legado que nos deixou no Porto do Varadouro, ao Porto do Comprido e a todos nós.

Mestre Américo e uma das suas pescaria na zona do Porto Velho no Varadouro

Olhar o Faial – Pico de Peito Ruivo, conhecida no Faial como Papinha (pelo menos em nossa casa)

Cria de uma papinha – Foto: João Garcia

Estas fotografias registam a presença discreta mas muito característica da “papinha”, nome pelo qual é reconhecida nos Açores ou pisco-de-peito-ruivo. Pequena ave facilmente reconhecida pelo peito de tonalidade alaranjada, destaca-se pela serenidade com que ocupa jardins, zonas agrícolas e áreas arborizadas.

De comportamento atento e curioso, aproxima-se frequentemente da presença humana, tornando-se uma das aves mais familiares da paisagem açoriana. O seu canto suave e melodioso acompanha os ambientes tranquilos, sobretudo nas primeiras horas do dia. Nidifica em locais baixos e resguardados, como muros de pedra, cavidades naturais, raízes de árvores ou entre vegetação densa, onde constrói cuidadosamente o ninho com musgo, folhas secas e pequenas fibras vegetais. A sua presença constante continua a ser um dos sinais mais delicados da vida natural que nos rodeia

Fotos: João Garcia

Ao Abrir da Manhã – Apontamentos para iluminar caminhos, opções e escolhas

Publicado no Jornal Incentivo de 13 de Março de 2026

Sata Azores Airlines – Faial – Foto: João Garcia

Retrocesso — Apresentar este novo modelo de Obrigações de Serviço Público como modernização é politicamente enganador. No Faial, desaparece a garantia do teto máximo nas ligações a Lisboa, ficando os faialenses, na prática, dependentes do preço que a Azores Airlines decidir praticar. Isto significa pagar mais, sem previsibilidade, o que é inaceitável. Em São Miguel e na Terceira existe concorrência real e maior oferta; no Faial, não. Retirar proteção tarifária aqui é aumentar fragilidades. Critica-se o tratamento periférico dado às autonomias pela República e há uma pergunta que se impõe: estaremos a reproduzir internamente a mesma lógica? Se a autonomia no Faial significa mais custos, menos previsibilidade e desigualdade no acesso à mobilidade, então isto não é modernização; é um retrocesso económico e social.

Observatório Príncipe Alberto do Mónaco – Março de 2026 – Foto: João Garcia

Cabeço das Moças — Continua a ser um dos pontos patrimoniais e paisagísticos mais marcantes da cidade da Horta, mas permanece insuficientemente valorizado. A vista privilegiada sobre o porto e sobre a cidade contrasta com sinais evidentes de degradação, desde pavimento danificado a zonas sem proteção adequada. A presença do Observatório Príncipe Alberto do Mónaco, marco histórico e científico da ilha, reforça a necessidade de intervenção. Com investimentos relativamente modestos, nomeadamente na recuperação do moinho, na limpeza dos acessos e na criação de um miradouro qualificado, este espaço poderia afirmar-se como verdadeira referência patrimonial e turística.

Miradouro do Pináculo – Março 2026 – Foto: João Garcia

Um bom projecto — O novo Miradouro do Pináculo representa um contributo relevante para a valorização do espaço público na Freguesia de Pedro Miguel, reforçando a atratividade de um local de elevado valor paisagístico. Esta iniciativa da Junta de Freguesia demonstra capacidade de concretizar projetos úteis, com impacto direto na qualificação do território. Mais do que uma infraestrutura, afirma-se como espaço de contemplação e encontro, integrado numa lógica de valorização local. É um exemplo claro de como intervenções simples podem gerar benefícios duradouros.

Subsídio Social de Mobilidade — A nova exigência imposta na plataforma eletrónica volta a evidenciar a dificuldade do Governo da República em compreender a realidade insular e os constrangimentos concretos das Regiões Autónomas. Criar entraves burocráticos num apoio destinado a compensar os custos da insularidade contraria a função essencial do Estado de garantir igualdade de direitos. Ao exigir documentos não claramente previstos, transfere-se para os cidadãos um ónus injustificado, atrasando apoios e dificultando deslocações. Os Açores devem ser tratados com igual respeito, dignidade e sentido de justiça.

Casa Asseada — Nos primeiros seis meses deste mandato autárquico torna-se visível uma preocupação em comunicar o trabalho desenvolvido nas 13 freguesias do Faial, aproximando a ação pública das populações. Destaca-se o cuidado com limpezas, manutenção dos espaços públicos e valorização do ambiente urbano e rural, numa lógica de responsabilidade que recorda a antiga ideia de manter a “casa asseada”. Merece igualmente relevo a utilização de meios digitais e de novos instrumentos de comunicação, permitindo maior proximidade, transparência e regularidade informativa. Esta forma de comunicar reforça a confiança e evidencia uma governação presente, organizada e atenta.

Freguesia de Pedro Miguel – Março 2026 – Foto: João Garcia

Ruas Escuras — É verdade que, na generalidade, a iluminação pública na ilha aparenta ser suficiente, mas continua a ser necessário verificar com atenção várias artérias onde a luz se revela manifestamente insuficiente ou irregular. Existem zonas em que a fraca iluminação compromete a circulação pedonal, reduz a percepção de segurança e dificulta a utilização do espaço público em horário noturno. A eficiência energética e a sustentabilidade são objetivos legítimos, mas não podem colocar a segurança em plano secundário. Se se pretende incentivar hábitos de mobilidade pedonal e uma vivência mais ativa do espaço urbano, torna-se indispensável garantir condições adequadas de iluminação. Pequenas correções, substituição de pontos deficientes e avaliação regular das necessidades reais podem melhorar significativamente a segurança, o conforto e a qualidade de vida.

Igreja das Angustias – Dezembro de 2021 – Foto: João Garcia

Olhar o Faial – Pintassilgo

Olhar o Ilha do Faial é algo que fui cultivando ao longo do tempo, muito por incentivo do meu irmão José Manuel, que me levou a apreciar as belezas da nossa terra de forma mais calma, observando melhor cada detalhe.

Estas fotografias, captadas no relvão de casa neste início de março, registam a presença delicada do pintassilgo, ave facilmente reconhecida pela máscara vermelha na face, pelo branco da cabeça e pelas intensas faixas amarelas nas asas, que se revelam com especial beleza em voo. A plumagem castanha do corpo harmoniza-se com estes contrastes vivos, conferindo-lhe uma elegância singular.

Para além da sua beleza, destaca-se pelo canto melodioso e vivo, que anima os espaços abertos com um chilrear característico. Este ano, a sua presença parece notar-se em maior número do que em anos anteriores, facto que desperta a esperança de que possa representar um sinal positivo de recuperação desta espécie nos Açores.

Fotos: João Garcia

Retratos do Faial – Nota da Semana

“Semana Grande para o porto da Horta foi esta que hoje terminou.

Um barco-apoio da Navy americana — o “Currituck” — está ancorado na ampla baía há já 15 dias.

Cinco hidroaviões também da Navy permaneceram 24 horas no aeroporto que Deus nos deu. O piloto de um deles até nos fez lembrar o capitão Sullivan ao amarar dentro da Doca e muito antes do «redondo».

Dois navios da Marinha Nacional — a fragata “Nuno Tristão”, e o draga-minas “Pico”, chegados no princípio da Semana, ainda se encontram atracados ao molhe, em visita de soberania e cortesia.

O cargueiro finlandês “Hermes” que deu entrada no último sábado continua em reparação de avarias.

O abandonado alemão “Helga Bolten”, arrastado a custo para o Faial, pelo grande amigo “Zwart-Zee” e pelo seu irmão-gémeo “Ocean”, desde 3.ª feira que se acha dentro do porto, mas com pouca vontade de se mostrar.

E a completar chegou ontem o “Carvalho Araújo” na sua viagem da carreira, não falando no “Arnel”, e nas lanchas e barcos do Pico.

Em resumo, o porto da Horta matou, assim, saudades daquele tempo áureo que há muito se foi e parece não querer voltar.

E os homens da baía matarão também saudades de poderem levar aos seus lares (se alguns não o deixarem nas tabernas) o salário de uma semana completa de trabalho.”

A. O.

Foto: João Garcia Jr.

Ao Abrir da Manhã -Assinalar 150 anos de uma decisão histórica

Publicado no Jornal Incentivo de 5 de Março de 2026

O Porto da Horta é muito mais do que uma infraestrutura portuária: faz parte da forma de viver dos faialenses, da relação profunda que mantemos com o mar e dessa ligação quotidiana a um espaço que sentimos como próximo, familiar e nosso. Desde o início da sua construção, a 20 de março de 1876, com base no projeto do engenheiro Tibério Augusto Blanc, viria a assumir um papel decisivo no desenvolvimento social, económico e político da ilha, projetando os Açores muito para além da sua condição insular.

Muito antes da baleeação americana, a baía da Horta já desempenhava papel central nas rotas atlânticas. Abrigo natural desde o século XVI, serviu de escala a navegadores, mercadores e armadas que cruzavam entre a Europa, África e Américas. Pela sua enseada passaram navios, mercadorias e pessoas que fizeram do Faial um espaço de circulação e encontro. A baleeação reforçou, mas não iniciou, essa vocação atlântica. O nosso porto afirmou-se como ponto de passagem entre mundos, onde o Atlântico funcionava como via de mobilidade e não como barreira.

Ao longo deste século e meio, manteve-se como porta de entrada e saída de pessoas, bens e ideias. Por ele passaram emigrantes, marinheiros, comerciantes e viajantes de múltiplas nacionalidades, contribuindo para uma vivência urbana singular. A cidade cresceu em estreita ligação com o seu porto, que estruturou profissões, dinâmicas económicas e uma memória coletiva profundamente ligada ao mar.

Do ponto de vista económico, foi motor essencial do desenvolvimento dos Açores. Garantiu abastecimento, escoamento da produção e integração nas rotas atlânticas. A sua relevância ampliou-se com a navegação a vapor, a cabotagem interinsular, a dinamização da pesca e, de forma particularmente decisiva, com a instalação das comunicações submarinas, que transformaram a Horta num nó estratégico das ligações transatlânticas. Posteriormente, o iatismo internacional consolidou essa projeção externa, tornando o porto referência mundial na navegação oceânica de recreio e sustentando comércio, turismo, hotelaria e serviços.

Também a aviação marcou profundamente a sua história. A partir de 1930, a baía tornou-se escala regular dos hidroaviões da Pan American World Airways, os célebres “Clippers”, integrando as rotas aéreas transatlânticas e reforçando a centralidade estratégica dos Açores.

Contudo, decisões estratégicas erradas e investimentos desequilibrados comprometeram esse percurso. Canalizaram-se elevadíssimos recursos para outras infraestruturas portuárias nos Açores, negligenciando uma estrutura historicamente funcional. O progressivo esvaziamento do porto não resultou de incapacidade própria ou dos faialenses, mas de opções deliberadas que lhe retiraram protagonismo face ao seu potencial.

No plano político e geopolítico, o Porto da Horta ultrapassou largamente a escala local. A sua posição no Atlântico conferiu-lhe importância em períodos de conflito e reorganização das comunicações globais. Foi ativo estratégico do Estado português e, em contexto autonómico, símbolo de investimento público, afirmação regional e ligação ao exterior.

Assinalar, no próximo 20 de março, os 150 anos do início da sua construção não pode ser mero gesto simbólico. Significa reconhecer a visão de quem, em 1876, compreendeu a importância estratégica de dotar os Açores de uma infraestrutura portuária capaz de responder às exigências do seu tempo e de projetar o Faial no Atlântico. Essa decisão revelou sentido de futuro e capacidade de planeamento, cujos efeitos se prolongaram por gerações. Trata-se, por isso, de valorizar uma obra que moldou a nossa história arquipelágica e que permanece determinante para o presente e o futuro, apesar da crescente desvalorização a que tem sido deliberadamente sujeita.

Até ao momento, desconhece-se qualquer programa público destinado a assinalar esta data por parte das entidades competentes. A confirmar-se essa ausência, ficará demonstrada uma preocupante desatenção à memória coletiva e ao papel estratégico que o Porto da Horta desempenhou ao longo de século e meio. Não surpreenderá, mas confirmará uma tendência recorrente de secundarização, essa sim reconhecida infelizmente.

Uma efeméride como esta exige, no mínimo, reflexão, envolvimento comunitário e compromisso institucional, pois ignorar ou deixar passar esta data é desperdiçar uma oportunidade de reafirmar a identidade atlântica da ilha e reconhecer uma infraestrutura que sempre foi ponte e não fronteira. Não pode passar em silêncio, nem diluída em formalidades vazias. Não se trata apenas de uma data histórica, mas de um momento de consciência coletiva. O porto moldou a nossa identidade, sustentou gerações e projetou o Faial no mundo. Se hoje enfrenta incertezas, isso diz respeito a todos nós.

Mais do que aguardar por estratégias que tardam ou não existem, cabe também aos faialenses não deixarem que esta efeméride seja ignorada ou tratada como detalhe menor. A memória não é apenas evocação do passado, é exigência de futuro. E quem recebe a confiança do voto recebe igualmente a responsabilidade de agir, planear e responder.

Celebrar os 150 anos do início da construção do Porto da Horta é afirmar que o Faial não abdica da sua centralidade atlântica, nem aceita a resignação como destino. mar sempre foi ponte. Que hoje também a voz dos faialenses o seja.

Ao Abrir da Manhã – Azores Trail Run: quando o sucesso se torna inconveniente

Publicado no Jornal Incentivo de 27 de Fevereiro de 2026 

O trail running nos Açores não começou por acaso nem nasceu disperso. Teve um início claro, uma geografia definida e uma estratégia implícita que, durante vários anos, gerou resultados evidentes. O seu ponto de partida foi a ilha do Faial, com o Azores Trail Run, criado em 2014, então a única prova do género na Região. Mais do que uma corrida, afirmou-se como um eficaz veículo de promoção do destino Açores, sustentado por forte cobertura mediática e alinhado com a imagem de território de natureza, sustentabilidade e autenticidade que a Região procurava projetar.

Ao longo de uma década, o Azores Trail Run construiu um percurso raro no contexto regional. Reuniu milhares de participantes de mais de 60 países, um dado público e verificável que demonstra a dimensão internacional atingida. Não se tratava apenas de números, mas de reputação, notoriedade externa e posicionamento estratégico. Aquilo que tantas políticas públicas tentam alcançar sem sucesso.

Desde cedo, o projeto assentou numa parceria sólida entre o Clube Independente de Atletismo Ilha Azul, o Governo Regional dos Açores e a Câmara Municipal da Horta. Essa articulação garantiu estabilidade organizativa, continuidade e crescimento sustentado. Os resultados foram claros: a prova contribuiu para a extensão da época alta turística, ao realizar-se em maio, e demonstrou que o desporto podia ser um instrumento sério e eficaz de política turística e territorial. Esse percurso foi reconhecido em 2023, quando o Azores Trail Run recebeu o Prémio Nacional de Turismo, na categoria Turismo Inovador.

Foi precisamente esse sucesso que levou o Governo Regional a apostar na expansão do trail running a outras ilhas. Até aqui, nada de errado. O problema surgiu quando essa expansão deixou de ser complementar e passou a ser concorrencial. Em vez de reforçar o Azores Trail Run como prova rainha e principal referência do trail nos Açores, optou-se por uma lógica de dispersão. Os apoios fragmentaram-se, a atenção mediática dividiu-se e a centralidade estratégica perdeu-se.

A prova original foi forçada a mudar de nome, passando a chamar-se Ultra Blue Island. Quando uma marca consolidada precisa de ser rebatizada para continuar a existir, não estamos perante uma simples falha estratégica, mas perante uma decisão imposta, ainda que raramente assumida.

A multiplicação de eventos, sem hierarquia clara, acabou por diluir impacto, identidade e retorno promocional. Hoje realizam-se provas de trail running em quase todas as ilhas. À primeira vista, isto pode parecer vitalidade, mas a questão essencial mantém-se: onde está o evento estruturante? Onde está a prova que agrega notoriedade, cria massa crítica, atrai atletas de elite e projeta a Região de forma consistente?

O contraste torna-se ainda mais evidente quando se analisa a acessibilidade aérea, fator que hoje determina, de forma direta, a competitividade entre provas. No caso de eventos como o Azores Bravos Trail, recentemente apresentado, a Ilha Terceira apresenta condições claramente mais favoráveis: os voos diretos desde Lisboa rondam os 200 euros e, a partir do Porto, situam-se pouco acima desse valor, permitindo deslocações rápidas, previsíveis e financeiramente acessíveis para atletas nacionais e estrangeiros.

No Faial, para o início do mês de maio, o cenário é radicalmente diferente. Uma viagem de ida e volta desde Lisboa custa entre 500 e 610 euros, quase sempre com escala. A partir do Porto, os valores variam entre 490 e 720 euros, com escala obrigatória e tempos de viagem que podem chegar ao triplo dos registados para a Terceira. Em termos simples, voar para o Faial custa entre 2,5 e 3 vezes mais. Em muitos casos, a poucas semanas da prova, nem sequer existem voos disponíveis em datas compatíveis com o evento.

Perante uma diferença de preços tão colossal, a decisão torna-se óbvia. Quem tem de escolher onde competir, investindo tempo e dinheiro próprios, opta naturalmente pelo destino mais barato, mais acessível e logisticamente mais simples. A competitividade entre provas não se escreve apenas nos trilhos — escreve-se, antes de tudo, nas acessibilidades aéreas. Como se tudo isto não bastasse, em 2025 o Governo Regional retirou o apoio à mais antiga e consolidada prova de trail running dos Açores. Continuamos a afirmar que nada mudou? Mudou e só não vê quem não quer.

No Faial, a perda de centralidade foi sendo normalizada quando se escolheu defender partidos em vez de colocar a ilha em primeiro lugar. A erosão de uma marca construída ao longo de uma década passou a ser tratada como dano colateral inevitável. Não o é. Resulta de opções políticas concretas, com impactos mensuráveis.

O trail running nos Açores precisava de crescer, sim. Mas crescer não é espalhar recursos até nada sobrar, nem apagar o que já provou funcionar. Isso não é estratégia.

É esquecimento seletivo.

E quando a memória falha, a Região perde coerência, perde visão e perde a capacidade de aprender com o seu próprio sucesso.

Rostos do Porto do Varadouro

A rubrica “Rostos do Porto do Varadouro” recorda pessoas que marcaram a minha vida e outras que deixaram a sua marca naquele lugar. São histórias, memórias e vivências ligadas ao Porto do Varadouro e à sua gente. Ao recordar estes rostos, preserva-se a memória de uma comunidade, porque um porto não é feito apenas de pedra e mar, mas também das pessoas que lhe deram vida.

Manuel Leonardo Faria — “Manuel do Júlio”
(1942–2003)

Manuel Leonardo Faria, conhecido como Manuel do Júlio, foi um daqueles homens que deixam marca onde passam. Nascido a 10 de novembro de 1942, encontrou no Porto do Varadouro não apenas o seu trabalho, mas a sua vida inteira. Conhecia cada detalhe da nossa costa, cada pedra e cada mudança do maré como poucos. Era essa relação profunda com o mar que o tornava um pescador único, respeitado por todos os que partilhavam com ele as lides da pesca.

No Varadouro, o Manuel era mais do que uma presença habitual, era uma referência. A sua experiência, a sua palavra certa e a sua forma simples de estar fizeram dele um homem admirado por todos nós. Para muitos, foi mestre, companheiro, amigo para outros, inspiração. Para todos, foi um rosto que se confunde com a própria história da pesca do Porto do Varadouro.

Partiu a 15 de agosto de 2003, mas permanece vivo na memória dos que o conheceram e nos lugares que tantas vezes percorreu. O mar, que moldou a sua vida, guarda ainda o eco do seu nome. Hoje recordamo-lo com respeito e gratidão, pelo pescador que foi, pelo homem que continua a ser para este porto e para todos nós.