Ao Abrir da Manhã -Assinalar 150 anos de uma decisão histórica

Publicado no Jornal Incentivo de 5 de Março de 2026

O Porto da Horta é muito mais do que uma infraestrutura portuária: faz parte da forma de viver dos faialenses, da relação profunda que mantemos com o mar e dessa ligação quotidiana a um espaço que sentimos como próximo, familiar e nosso. Desde o início da sua construção, a 20 de março de 1876, com base no projeto do engenheiro Tibério Augusto Blanc, viria a assumir um papel decisivo no desenvolvimento social, económico e político da ilha, projetando os Açores muito para além da sua condição insular.

Muito antes da baleeação americana, a baía da Horta já desempenhava papel central nas rotas atlânticas. Abrigo natural desde o século XVI, serviu de escala a navegadores, mercadores e armadas que cruzavam entre a Europa, África e Américas. Pela sua enseada passaram navios, mercadorias e pessoas que fizeram do Faial um espaço de circulação e encontro. A baleeação reforçou, mas não iniciou, essa vocação atlântica. O nosso porto afirmou-se como ponto de passagem entre mundos, onde o Atlântico funcionava como via de mobilidade e não como barreira.

Ao longo deste século e meio, manteve-se como porta de entrada e saída de pessoas, bens e ideias. Por ele passaram emigrantes, marinheiros, comerciantes e viajantes de múltiplas nacionalidades, contribuindo para uma vivência urbana singular. A cidade cresceu em estreita ligação com o seu porto, que estruturou profissões, dinâmicas económicas e uma memória coletiva profundamente ligada ao mar.

Do ponto de vista económico, foi motor essencial do desenvolvimento dos Açores. Garantiu abastecimento, escoamento da produção e integração nas rotas atlânticas. A sua relevância ampliou-se com a navegação a vapor, a cabotagem interinsular, a dinamização da pesca e, de forma particularmente decisiva, com a instalação das comunicações submarinas, que transformaram a Horta num nó estratégico das ligações transatlânticas. Posteriormente, o iatismo internacional consolidou essa projeção externa, tornando o porto referência mundial na navegação oceânica de recreio e sustentando comércio, turismo, hotelaria e serviços.

Também a aviação marcou profundamente a sua história. A partir de 1930, a baía tornou-se escala regular dos hidroaviões da Pan American World Airways, os célebres “Clippers”, integrando as rotas aéreas transatlânticas e reforçando a centralidade estratégica dos Açores.

Contudo, decisões estratégicas erradas e investimentos desequilibrados comprometeram esse percurso. Canalizaram-se elevadíssimos recursos para outras infraestruturas portuárias nos Açores, negligenciando uma estrutura historicamente funcional. O progressivo esvaziamento do porto não resultou de incapacidade própria ou dos faialenses, mas de opções deliberadas que lhe retiraram protagonismo face ao seu potencial.

No plano político e geopolítico, o Porto da Horta ultrapassou largamente a escala local. A sua posição no Atlântico conferiu-lhe importância em períodos de conflito e reorganização das comunicações globais. Foi ativo estratégico do Estado português e, em contexto autonómico, símbolo de investimento público, afirmação regional e ligação ao exterior.

Assinalar, no próximo 20 de março, os 150 anos do início da sua construção não pode ser mero gesto simbólico. Significa reconhecer a visão de quem, em 1876, compreendeu a importância estratégica de dotar os Açores de uma infraestrutura portuária capaz de responder às exigências do seu tempo e de projetar o Faial no Atlântico. Essa decisão revelou sentido de futuro e capacidade de planeamento, cujos efeitos se prolongaram por gerações. Trata-se, por isso, de valorizar uma obra que moldou a nossa história arquipelágica e que permanece determinante para o presente e o futuro, apesar da crescente desvalorização a que tem sido deliberadamente sujeita.

Até ao momento, desconhece-se qualquer programa público destinado a assinalar esta data por parte das entidades competentes. A confirmar-se essa ausência, ficará demonstrada uma preocupante desatenção à memória coletiva e ao papel estratégico que o Porto da Horta desempenhou ao longo de século e meio. Não surpreenderá, mas confirmará uma tendência recorrente de secundarização, essa sim reconhecida infelizmente.

Uma efeméride como esta exige, no mínimo, reflexão, envolvimento comunitário e compromisso institucional, pois ignorar ou deixar passar esta data é desperdiçar uma oportunidade de reafirmar a identidade atlântica da ilha e reconhecer uma infraestrutura que sempre foi ponte e não fronteira. Não pode passar em silêncio, nem diluída em formalidades vazias. Não se trata apenas de uma data histórica, mas de um momento de consciência coletiva. O porto moldou a nossa identidade, sustentou gerações e projetou o Faial no mundo. Se hoje enfrenta incertezas, isso diz respeito a todos nós.

Mais do que aguardar por estratégias que tardam ou não existem, cabe também aos faialenses não deixarem que esta efeméride seja ignorada ou tratada como detalhe menor. A memória não é apenas evocação do passado, é exigência de futuro. E quem recebe a confiança do voto recebe igualmente a responsabilidade de agir, planear e responder.

Celebrar os 150 anos do início da construção do Porto da Horta é afirmar que o Faial não abdica da sua centralidade atlântica, nem aceita a resignação como destino. mar sempre foi ponte. Que hoje também a voz dos faialenses o seja.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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