
“Para falar dêste homem de letras é preciso ter competência — precisamente o que me falta. Fazer a história do seu talento, traduzir em palavras concertadas os relâmpagos do seu espírito, esse talento e esse espírito que, como sangue nas veias, correm em tôda a sua obra, não é tarefa fácil e impõe recursos de análise que eu não tenho. E, como assim seja, reduzirei o daguerreótipo a proporções de mera notícia sôbre uma das figuras de maior relêvo literário dos Açores e uma das mentalidades de artista mais distintas de Portugal.
Florêncio Terra, descendente de uma velha família patrícia, é natural da ilha do Faial, onde lhe tem decorrido a maior parte da sua já longa vida. E porque não tem ambições e porque é de uma modéstia quasi inverosímil, satisfaz-se em empregar a actividade no árduo e obscuro labor, embora honroso, do professorado liceal e em encher a alma, sempre insaciada, das belezas paradisíacas dêstes rochedos e dêste mar que ele idolatradamente adora e de tantas maneiras belas tem descrito.
Não é bacharel, não tem assento na Academia das Sciências e não é condecorado. Como Antero, Ramalho, Queirós… vultos, apenas o seu talento e a sua obra lhe dão lustre e renome.

Florêncio Terra não guarda os seus trabalhos em volume. Andam aí dispersos em gazetas e revistas, onde fizeram o deleite dos seus leitores. Um dos jornais que com maior assiduidade e amor redigiu foi o “Açoriano”, hebdomadário dos mais brilhantes que se publicaram no arquipélago. Também escreveu uma esplêndida comédia em 2 actos, Helena de Savignac, evidenciando raras faculdades de comediógrafo. Mas o seu feito atinge máxima posição de equilíbrio no conto — nesses admiráveis contos que ele publicou na antiga revista do “Século”. Aqui é ele verdadeiramente grande. A sua linguagem é viva e colorida, elástica e florida, simples e perfumada. A sua pena é música e palêta, quando canta o som ou pinta a côr — quer nos dê ondas de luz ou de nuvens espessas, frescuras de arvoredos ou labaredas de sóis, lagos a dormir ou regatos a chorar, cicios de brisas ou estalar de tempestades… enquadramentos de deliciosos romancinhos que a sua fecúndia concebe e a sua facúndia desenvolve. E a sua visão do exterior tem o mesmo poder quando penetra a alma das coisas e dos seres viventes, numa rigorosa observação de psicólogo, porém delicada como a linguagem do seu descritivo — misto de graça poética e de realismo humano. Através da nebrina dourada e trémula da Fantasia, como diria Queirós, mostra-nos a Verdade, dentro da forma mais rápida, mais leve e mais elegante — o Conto.
Pena é que, há alguns anos já, êste ilustre escritor atravessa uma fase de inactividade literária. Inopinadamente, não se sabe bem porquê, nem êle próprio o saberá, decidiu depor a pena que deixou de lampejar em qualquer género de publicação. Quanto tempo ainda durará esta fase? Certo é que, até agora, não tem sido possível demovê-lo de pressuposto, inibindo êste magazine de adornar-se com a prosa cintilante do Mestre. Tomei então uma resolução: transcrever, com a devida vénia, um dos seus contos, aquele intitulado Vida Simples, que encontrei na interessante revista ilustrada “O Arauto”. Assim, do mesmo passo que honro as páginas dêste mensário, proporciono ao leitor um autêntico lapso de prazer espiritual.
Concluindo:
Florêncio Terra, como burocrata, é professor dos mais altamente cotados — pelo saber e pelo método superior de ensinar. Como cidadão é um gentleman e um homem de bem.
Bela figura e nobre coração… tão bondoso como talentoso.
Quantos dêle se acercam são outros tantos amigos e admiradores a juntar aos muitos que conta. Por mim… estimo-o tanto quanto o admiro.
Manuel da Câmara
Os Açores – Revista Ilustrada foi uma publicação periódica açoriana iniciada em 1924, em Ponta Delgada (São Miguel), com caráter cultural e informativo, dedicada à divulgação da identidade, história e costumes do arquipélago. Teve como diretor artístico Domingos Rebello, sendo diretor-gerente José Barbosa, e contou com delegados em outras ilhas, nomeadamente Armando C. Rodrigues (Angra) e Manuel da C. V. M. Cabral (Horta). A revista refletiu as dificuldades típicas da imprensa regional da época, nomeadamente limitações financeiras e logísticas, tendo tido uma existência breve, estimando-se a sua circulação entre 1924 e cerca de 1925.
Manuel da Câmara Vasconcelos e Meneses Cabral foi um colaborador ligado ao meio cultural açoriano no início do século XX, sobretudo à ilha do Faial (Horta). Pertencia à família Câmara Cabral, destacou-se pela sua participação no meio cultural e intelectual local. Surge como delegado da revista Os Açores – Revista Ilustrada na Horta, indicando o seu envolvimento na dinamização e divulgação de iniciativas culturais e editoriais em várias publicações dos Açores






















