Relíquias de Família – Florêncio Terra


“Para falar dêste homem de letras é preciso ter competência — precisamente o que me falta. Fazer a história do seu talento, traduzir em palavras concertadas os relâmpagos do seu espírito, esse talento e esse espírito que, como sangue nas veias, correm em tôda a sua obra, não é tarefa fácil e impõe recursos de análise que eu não tenho. E, como assim seja, reduzirei o daguerreótipo a proporções de mera notícia sôbre uma das figuras de maior relêvo literário dos Açores e uma das mentalidades de artista mais distintas de Portugal.

Florêncio Terra, descendente de uma velha família patrícia, é natural da ilha do Faial, onde lhe tem decorrido a maior parte da sua já longa vida. E porque não tem ambições e porque é de uma modéstia quasi inverosímil, satisfaz-se em empregar a actividade no árduo e obscuro labor, embora honroso, do professorado liceal e em encher a alma, sempre insaciada, das belezas paradisíacas dêstes rochedos e dêste mar que ele idolatradamente adora e de tantas maneiras belas tem descrito.

Não é bacharel, não tem assento na Academia das Sciências e não é condecorado. Como Antero, Ramalho, Queirós… vultos, apenas o seu talento e a sua obra lhe dão lustre e renome.

Florêncio José Terra – Ilustração José Manuel Garcia

Florêncio Terra não guarda os seus trabalhos em volume. Andam aí dispersos em gazetas e revistas, onde fizeram o deleite dos seus leitores. Um dos jornais que com maior assiduidade e amor redigiu foi o “Açoriano”, hebdomadário dos mais brilhantes que se publicaram no arquipélago. Também escreveu uma esplêndida comédia em 2 actos, Helena de Savignac, evidenciando raras faculdades de comediógrafo. Mas o seu feito atinge máxima posição de equilíbrio no conto — nesses admiráveis contos que ele publicou na antiga revista do “Século”. Aqui é ele verdadeiramente grande. A sua linguagem é viva e colorida, elástica e florida, simples e perfumada. A sua pena é música e palêta, quando canta o som ou pinta a côr — quer nos dê ondas de luz ou de nuvens espessas, frescuras de arvoredos ou labaredas de sóis, lagos a dormir ou regatos a chorar, cicios de brisas ou estalar de tempestades… enquadramentos de deliciosos romancinhos que a sua fecúndia concebe e a sua facúndia desenvolve. E a sua visão do exterior tem o mesmo poder quando penetra a alma das coisas e dos seres viventes, numa rigorosa observação de psicólogo, porém delicada como a linguagem do seu descritivo — misto de graça poética e de realismo humano. Através da nebrina dourada e trémula da Fantasia, como diria Queirós, mostra-nos a Verdade, dentro da forma mais rápida, mais leve e mais elegante — o Conto.

Pena é que, há alguns anos já, êste ilustre escritor atravessa uma fase de inactividade literária. Inopinadamente, não se sabe bem porquê, nem êle próprio o saberá, decidiu depor a pena que deixou de lampejar em qualquer género de publicação. Quanto tempo ainda durará esta fase? Certo é que, até agora, não tem sido possível demovê-lo de pressuposto, inibindo êste magazine de adornar-se com a prosa cintilante do Mestre. Tomei então uma resolução: transcrever, com a devida vénia, um dos seus contos, aquele intitulado Vida Simples, que encontrei na interessante revista ilustrada “O Arauto”. Assim, do mesmo passo que honro as páginas dêste mensário, proporciono ao leitor um autêntico lapso de prazer espiritual.

Concluindo:

Florêncio Terra, como burocrata, é professor dos mais altamente cotados — pelo saber e pelo método superior de ensinar. Como cidadão é um gentleman e um homem de bem.

Bela figura e nobre coração… tão bondoso como talentoso.

Quantos dêle se acercam são outros tantos amigos e admiradores a juntar aos muitos que conta. Por mim… estimo-o tanto quanto o admiro.

Manuel da Câmara

Os Açores – Revista Ilustrada foi uma publicação periódica açoriana iniciada em 1924, em Ponta Delgada (São Miguel), com caráter cultural e informativo, dedicada à divulgação da identidade, história e costumes do arquipélago. Teve como diretor artístico Domingos Rebello, sendo diretor-gerente José Barbosa, e contou com delegados em outras ilhas, nomeadamente Armando C. Rodrigues (Angra) e Manuel da C. V. M. Cabral (Horta). A revista refletiu as dificuldades típicas da imprensa regional da época, nomeadamente limitações financeiras e logísticas, tendo tido uma existência breve, estimando-se a sua circulação entre 1924 e cerca de 1925.

Manuel da Câmara Vasconcelos e Meneses Cabral foi um colaborador ligado ao meio cultural açoriano no início do século XX, sobretudo à ilha do Faial (Horta). Pertencia à família Câmara Cabral, destacou-se pela sua participação no meio cultural e intelectual local. Surge como delegado da revista Os Açores – Revista Ilustrada na Horta, indicando o seu envolvimento na dinamização e divulgação de iniciativas culturais e editoriais em várias publicações dos Açores

Retratos da Memória – Aeroporto do Fayal

O transporte «Gil Eanes» é esperado no domingo próximo neste porto. Traz uma importante carga de material de construção, destinado à Estação Rádio-Naval — Courelas. Também traz mala postal. Destina-se aos bancos da Terra Nova.

Foi removido para a enseada em frente do Largo do Infante o ancoradouro das embarcações de recreio e de banhos que estava em frente do cais velho. A mudança é em obediência às instruções do governo, concedendo facilidades aos aviões neste aeroporto.

Cerca de 19 do corrente sai de Montreal, Canadá, para o Fayal, o «Mercury», no voo hidro do Imperial Airways, que aguarda neste porto a chegada do «Mayo».

Está pronto a funcionar o Posto Rádio-Naval das Lajes das Flores, destinado à manobra da aviação para oeste.

A Deutsche Lufthansa está a empregar novos voos entre a Horta e Nova York os aviões «Nordwind» (Mar do Norte) «Nordvind» (Vento do Norte) e «Nordstern» (Estrela do Norte).

Entre Lisboa e a Horta serviço aéreo será feito com um avião tipo Do 18, das construções Dornier. Foi um aparelho Do 18 que a 27 de Março deste ano realizou um voo directo de 48 horas, vencendo, num voo ininterrupto a distância de 8500 quilómetros da costa inglesa até o Brasil, o que representa o record internacional a larga distância para aviões marítimos. Nesse voo-record encontravam-se a bordo os capitães von Gablenz e Gundermann, o telegrafista Stein e o maquinista Roesch, já nossos conhecidos.

Do tipo “Do 18” já estiveram na Horta os aparelhos «Aeolus» e «Zephir».

Nos 150 anos da Aventura da Barca Catalpa

Hoje assinalam-se 150 anos de uma das fugas mais audazes do século XIX, uma história real de coragem, estratégia e uma épica travessia entre oceanos.

Em 1876, a bordo do Catalpa, uma barca de três mastros comandada pelo capitão George Smith Anthony, desenrolou-se uma operação secreta que desafiou o Império Britânico. Disfarçado de simples baleeiro, o navio tinha uma missão muito diferente: resgatar prisioneiros irlandeses da Prisão de Fremantle, situada na costa oeste da Austrália.

Entre 17 e 19 de abril de 1876, seis fenianos (seis nacionalistas irlandeses) conseguiram fugir e alcançar o navio ao largo da Austrália, numa fuga dramática feita de corridas contra o tempo, tempestades e perseguições navais. Já em águas internacionais, sob a proteção da bandeira dos Estados Unidos, conquistaram finalmente a liberdade.

Com cerca de 202 toneladas, aproximadamente 27,4 metros de comprimento, 7,6 metros de boca e 3,7 metros de pontal, o Catalpa começou por ser um baleeiro de New Bedford, tendo mais tarde sido adaptado para serviço mercante com porão aberto. Sob o comando do Capitão George Smith Anthony, foi cuidadosamente reapetrechado como baleeiro, uma aparência convincente para uma longa viagem no Atlântico Norte e Sul, que escondia um propósito bem mais ousado.

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Com cerca de 202 toneladas, aproximadamente 27,4 metros de comprimento, 7,6 metros de boca e 3,7 metros de pontal, o Catalpa começou por ser um baleeiro de New Bedford, tendo mais tarde sido adaptado para serviço mercante com porão aberto. Sob o comando do Capitão Anthony, foi cuidadosamente reapetrechado como baleeiro — uma aparência convincente para uma longa viagem no Atlântico Norte e Sul… que escondia um propósito bem mais ousado.

Mas esta não foi apenas uma história de coragem irlandesa; foi também uma história atlântica.

No centro desse mundo estava o Porto da Horta, na Ilha do Faial, um verdadeiro nó de rotas, onde destinos se cruzavam. Foi ali que o Catalpa parou, descarregou barris de óleo de baleia, perdeu homens e ganhou outros. Marinheiros desertaram, como tantas vezes acontecia, mas novos foram recrutados (não sabemos se faialenses), permitindo que a missão seguisse. Sem esse momento no Faial, a viagem poderia ter terminado ali mesmo.

A ilha, já marcada por episódios como a Batalha do Brigue General Armstrong (1814), ocorrida no contexto da Guerra de 1812 (1812–1815), já após a independência dos Estados Unidos (1776, ano de que se assinalam agora 250 anos), reafirmou o seu papel: não como palco principal, mas como ponto estratégico onde a história ganha impulso.

Assinalar hoje os 150 anos do resgate do Catalpa é lembrar que grandes feitos não nascem apenas nos lugares mais óbvios. Por vezes, começam ou tornam-se possíveis em pontos estratégicos, como no meio do Atlântico, nesta pequena ilha, onde pessoas comuns tomaram decisões que mudaram destinos.

A centralidade da Ilha do Faial continua silenciosa, mas decisiva, como sempre esteve, no coração das grandes rotas e das odisseias atlânticas, apesar de, demasiadas vezes, nos Açores, se insistir em não reconhecer plenamente o alcance do seu papel na história e no futuro do arquipélago. Hoje, no presente, ignoram-na, reduzindo-a a chavões vazios, desprovidos de realismo prático e, neste caso, de decisão.

Fonte: http://www.irishecho.com – Catalpa’s Legacy In Full Sail 150 Years On

Ao Abrir da Manhã – Filhos desta Terra

Publicado no Jornal Incentivo de 14 de Abril de 2026

Nunca entendi bem o chavão “rota deficitária”. Repete-se como uma verdade absoluta, quase incontestável, mas raramente se explica a quem mais importa: às pessoas que dependem dessas rotas para algo tão simples e tão essencial como chegar a casa ou sair da sua ilha. E talvez porque, no fundo, o problema não esteja onde dizem. Esta rota pode até ser chamada de “deficitária”, mas não é para a empresa. É para os faialenses.

Porque, no fim, é disso que falamos: de casa, de mobilidade, de acesso à saúde e de economia.

Hoje, voltar ao Faial tornou-se, para muitos, um luxo. Não um direito nem uma facilidade. Um luxo. Um filho da terra que vive no continente, ou um açoriano da diáspora, olha para os preços e percebe que a distância não se mede apenas em quilómetros, mas em euros. E esses são, muitas vezes, demasiado altos.

Fala-se de rotas deficitárias, mas não se fala do verdadeiro défice: o de um serviço que não responde às necessidades reais de quem dele depende. Preços incomportáveis, falta de lugares e ligações insuficientes definem uma realidade que, mais do que inevitável, parece construída. Durante anos, o argumento do “défice” serviu para justificar a redução de voos. Hoje, começa a parecer cada vez mais uma forma conveniente de desviar atenções.

E então surge a pergunta inevitável: para quem é este serviço?

A SATA e a TAP concorreram a um serviço de obrigações públicas e têm, por isso, responsabilidades claras. Uma missão que deveria garantir acessibilidade, proximidade e ligação entre ilhas, continente e diáspora. Mas a percepção que cresce, e que dói, é a de que esse serviço público chega a alguns, mas não a todos.

Há aqui uma desigualdade silenciosa, mas profunda. Um português no continente pode atravessar o país com relativa facilidade. Um açoriano, para fazer o mesmo e regressar à sua terra, tem de planear, poupar e abdicar. Como se estivesse a organizar uma viagem internacional, e não um regresso a casa.

E isso fere. Fere porque mexe com o essencial: o direito à pertença.

Os filhos da terra continuam a partir, porque precisam. Continuam a construir vidas fora, porque não encontram cá as oportunidades que merecem. Mas nunca deixam de querer voltar. Nunca deixam de sentir que é aqui o seu lugar.

E, no entanto, tantas vezes são travados. Pelo preço, pela falta de lugares e por um sistema que parece esquecer que mobilidade, nos Açores, não é um luxo. É uma necessidade básica.

Talvez seja tempo de repensar o que significa, na prática, uma “rota deficitária”. Não no papel nem nas contas, mas na vida real. Porque o verdadeiro défice está na resposta que falha. Falha às famílias, falha a quem precisa de cuidados de saúde e falha a quem quer simplesmente voltar a casa.

Há défices que não cabem nas contas.

Mas o que mais preocupa é ouvir o próprio Presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, dizer que deve ser a economia, e não o Governo, a determinar o aumento das ligações aéreas para a Horta. Como se a mobilidade de um povo pudesse ficar refém da lógica pura do mercado. Como se garantir ligações regulares, acessíveis e dignas não fosse uma responsabilidade política, mas apenas uma consequência económica. E depois fala-se em promover o destino, mas para quê, se quem quer sair ou entrar encontra voos praticamente esgotados e preços absolutamente incomportáveis? Promove-se para fora aquilo que, na prática, se dificulta a quem cá pertence.

O resultado está à vista: ligações limitadas, respostas curtas e soluções adiadas. E, enquanto isso, acumulam-se promessas. Estradas, porto e património surgem sempre com horizonte em 2027. Sempre depois. Sempre fora do tempo de quem vive cá e de quem quer voltar.

E é impossível não apontar responsabilidades políticas locais. O PSD Faial e o CDS-PP Faial, que em tempos estiveram, e bem, na linha da frente da luta por melhores acessibilidades, não podem agora conformar-se com uma realidade que penaliza precisamente aqueles que diziam defender. Fazer comunicados não chega. E, se não têm capacidade de influenciar, então devem assumir essa limitação e fazer mea culpa pelas promessas de mudança que foram feitas. A verdade é simples: não melhorámos, piorámos. E os métodos, a postura e a ausência de resultados começam a pesar mais do que qualquer discurso.

Não vale dizer que o Faial está primeiro. Não vale repetir slogans quando, na prática, sentimos que estamos cada vez mais longe.

E enquanto continuarmos a aceitar isto como inevitável, estaremos, todos os dias, a afastar esta ilha de quem a sente como casa, de quem quer cá vir, estar, ficar e continuar ligado às suas raízes. Não por falta de amor, mas por falta de condições.

Porque chegar a casa não devia ser um privilégio. Devia ser um direito dos legítimos filhos desta terra.

A saudade não chega depois — vai connosco desde o primeiro passo.
E o regresso… o regresso começa no mesmo instante em que partimos.

Olhar o Faial – Canário da Terra

Quem não se lembra de “malhar canários”? Houve um tempo em que quase todas as casas tinham uma gaiola à porta ou à janela, e o cantar do canário fazia parte do dia-a-dia. Era companhia certa, desde manhã cedo.

O nosso canário-da-terra, o Serinus canaria, é uma ave bem nossa, presente no Faial ao longo de todo o ano. Anda pelos campos, pelos quintais, sempre irrequieto, à procura de alimento, mas é na Primavera que se ouve o seu canto com encanto.

Não tem aquele amarelo vivo dos canários de gaiola mais cuidados, mas apresenta antes um tom amarelo-limão, muitas vezes misturado com esverdeado e com riscas nas asas e no dorso.

O canário-da-terra é mais do que um simples pássaro é parte da nossa memória de infância, um símbolo de tempos mais tranquilos, em que bastava abrir a janela para ouvir a natureza.

Fotos: João Garcia

Relíquia de Família

Retrato da Bisavó Teresa Amélia Ribeiro Guerra Terra

Teresa Amélia Ribeiro Guerra Terra, nascida a 10 de março de 1860 na freguesia de São Sebastião, em Ponta Delgada, pertenceu a uma geração de mulheres que, embora inseridas em meios sociais privilegiados, viviam sob os valores e responsabilidades próprias do seu tempo. Filha de Rodrigo Alves Guerra, 2.º Barão da Alagoa, e de Teresa Amélia Ribeiro Alves Guerra, cresceu num ambiente marcado pela distinção social, mas também por uma educação cuidada, refletida no domínio fluente das línguas inglesa e francesa.

Em 1889, ao casar com Florêncio José Terra, fixou residência na freguesia da Matriz, onde passou a desenvolver o seu papel enquanto esposa e mãe. Como tantas mulheres da sua época, a sua vida decorreu num equilíbrio discreto entre os afazeres domésticos e a formação do lar, assumindo a gestão da casa e a orientação da vida familiar com dedicação e sentido de dever.

A maternidade trouxe-lhe um papel ainda mais determinante. Mãe de Florêncio Terra Júnior, acompanhou de perto a sua educação, transmitindo-lhe não apenas valores morais, mas também o gosto pelo saber. O seu domínio de línguas estrangeiras, invulgar no contexto da época, terá contribuído para despertar no filho uma vocação que o levaria a distinguir-se como professor de línguas e tradutor. Assim, no silêncio do quotidiano, exerceu uma influência duradoura, moldando o percurso intelectual da geração seguinte.

Teresa Amélia representa, deste modo, o exemplo de muitas mulheres do século XIX, cuja ação, embora frequentemente discreta e circunscrita ao espaço doméstico, foi essencial na construção das bases culturais e educativas das suas famílias. Entre a administração do lar e a educação dos filhos, estas mulheres desempenharam um papel silencioso, mas profundamente estruturante na sociedade do seu tempo.

Faleceu a 29 de agosto de 1945, aos 85 anos, deixando a memória de uma vida pautada pela dedicação, cultura e influência serena no seio familiar.

Olhar o Faial – Garça-Real

Embora de forma ocasional e relativamente rara, sobretudo durante o inverno e no início da primavera, é possível observar a garça-real na ilha do Faial. A sua presença, muitas vezes associada a condições meteorológicas adversas no Atlântico, traz a esta ilha uma das aves mais elegantes das zonas húmidas europeias.

De grande porte, com plumagem cinzenta, pescoço longo e bico afiado, a garça-real destaca-se pela sua postura calma e vigilante. No Faial, é frequentemente avistada em zonas costeiras de águas pouco profundas, como Porto Pim, a Poça da Rainha (Feteira) ou a Marina da Horta, onde encontra condições ideais para se alimentar.

Embora a sua dieta seja predominantemente composta por peixe, que captura com movimentos rápidos e precisos, esta espécie revela também uma notável capacidade de adaptação, alimentando-se de pequenos lagartos que abundam na ilha, bem como de outros pequenos animais disponíveis.

Parcialmente migradora, a garça-real desloca-se em resposta às condições sazonais, sendo a sua presença nos Açores geralmente passageira e irregular. Ainda assim, cada observação no Faial representa um momento especial de ligação entre a ilha e os movimentos mais vastos da avifauna atlântica.

Foto tirada na costa da Lajinha – Feteira – Fevereiro de 2026
Foto tirada no Portão de Porto Pim – Angústias – Março de 2026

Fotos: João Garcia

Ao Abrir da Manhã – Não basta reconhecer, é preciso agir

Publicado no Jornal Incentivo de 26 de Março de 2026

Mercadorias

Quando surgiu o novo modelo de transporte marítimo, a lógica parecia simples: mais barcos, melhor serviço. O elogio foi, talvez, precipitado da minha parte. Hoje, a realidade é outra e importa reconhecê-lo. Foi o presidente da Câmara do Comércio e Indústria da Horta, Francisco Rosa, quem expôs com clareza o problema: falta de previsibilidade e impacto direto nos empresários. Não se trata de opinião, mas de factos. O Faial volta a sair prejudicado. Mais navios trouxeram mais escalas, maior complexidade e menor eficiência. O resultado traduz-se em atrasos, tempos de espera mais longos e incerteza na receção de mercadorias. Numa ilha, isto não é um detalhe é estrutural.

Azáleas

Este ano apresentam-se particularmente vistosas, conferindo um colorido marcante às nossas estradas e evidenciando o potencial do espaço público quando há cuidado e atenção. Este cenário demonstra que a valorização da paisagem não depende apenas da natureza, mas também de manutenção contínua, como podas atempadas, limpeza regular e acompanhamento das espécies ao longo do ano. Só assim se preserva e valoriza verdadeiramente a imagem da ilha. Talvez seja oportuno recuperar uma lógica semelhante à dos antigos cantoneiros, dividindo o território em zonas com responsáveis definidos. Com organização e planeamento a médio prazo, seria possível, de forma relativamente simples, devolver dignidade às vias, melhorar a imagem do território e preservar uma paisagem que é também identidade e cartão de visita do Faial.

Ribeira da Conceição

Foz da Ribeira da Conceição – 19 de Março de 2026 – Foto: Maria José Ferreira

O problema na foz da Ribeira da Conceição mantém-se e repete-se: assoreamento, águas estagnadas, maus cheiros e uma praia sem areia nem limpeza adequada. A falta de circulação da água agrava a situação e evidencia a ausência de intervenção atempada. Continuar a apontar o molhe norte como única causa já não é credível. O desassoreamento regular permitiria melhorar o escoamento, reduzir odores e criar condições para recuperar o areal. A recarga de areia deve ser assumida como solução natural, tal como acontece noutras ilhas. O problema agravou-se nos últimos anos e, tudo permanece inalterado. Sem limpeza eficaz da foz da ribeira, a praia perde-se, a freguesia perde, o espaço degrada-se e a resposta continua por surgir, quando o verão se aproxima a passos largos.

Semana Sustentável

Numa cidade onde o espaço público nem sempre reflete o cuidado que merece, importa sublinhar que a degradação não se resume ao lixo, mas também à forma como se preserva o que é comum. Numa ilha, essa responsabilidade ganha ainda maior relevância: a coisa pública deve ser exemplo. Persistem situações preocupantes, como a acumulação de resíduos junto a contentores, onde a responsabilidade é necessariamente partilhada. Não se pode esperar que tudo dependa de uma única entidade. A Semana Sustentável promovida pela Câmara Municipal da Horta merece, por isso, reconhecimento. Mais do que um programa, é um alerta para a importância dos gestos individuais. A participação na limpeza da orla costeira, mesmo em condições adversas, demonstrou sentido cívico. Mas revelou também um problema crescente: o aumento de resíduos plásticos no mar. Cuidar da ilha é uma responsabilidade coletiva.

Farol da Ribeirinha

O farol da Ribeirinha entrou em funcionamento em 1 de novembro de 1919. Tinha uma torre com 20 metros de altura e 147 metros de altitude. Inicialmente foi equipado com um aparelho lenticular de 2ª ordem (700mm distância focal), sendo a fonte luminosa um candeeiro a petróleo de nível constante que lhe proporciona um alcance luminoso de 28 milhas. A rotação da ótica fazia-se através da máquina de relojoaria. – Fonte: Marinha

Passados quase 28 anos sobre o sismo de 9 de julho de 1998, é difícil aceitar que o Farol da Ribeirinha continue ao abandono. Volto ao tema que abordei aqui em 2024, pois a situação mantém-se inalterada. Décadas de promessas, estudos e intenções, incluindo propostas para consolidação das ruínas e criação de um espaço museológico, as quais não tiveram tradução em ações concretas. A lanterna instalada em 1999 assegura a função marítima, mas não substitui o valor patrimonial do edifício original. Nem a mobilização da comunidade, expressa no abaixo-assinado de 2001, foi suficiente para alterar o rumo dos acontecimentos. Persistem as mesmas dúvidas: falta vontade política, prioridade ou sentido de responsabilidade? O tempo passa e o património degrada-se. Cada ano sem intervenção representa mais um passo na perda de um símbolo histórico.

Castelo da Rocha Negra

Também conhecido como Casa dos Lacerdas, na freguesia dos Cedros, é um raro exemplar de arquitetura solarenga dos séculos XVII–XVIII, reconhecido pelo seu valor histórico e cultural. Classificado como Imóvel de Interesse Público em 2020, continua, no entanto, em avançado estado de degradação, situação já anteriormente denunciada. Passados cinco anos, impõe-se uma questão essencial: que medidas concretas foram implementadas para a sua preservação? Entre intenções, estudos e processos administrativos, a realidade no terreno pouco ou nada foi alterada. Mais do que um testemunho do passado, este imóvel representa um teste à capacidade de proteger o património dos Açores. A inação prolongada compromete a memória coletiva e aumenta o risco de perda irreversível. Torna-se urgente passar das intenções à ação.

Castelo da Rocha Negra – Foto: Heitor Silva 14/11/2021

Fonte: https://ecocedrense.blogspot.com/2013/01/castelo-da-rocha-negra_13.html

Retratos do Faial – Mirante – Poço da Carrasca

Está redito que os faialenses não são atreitos a vénias. Nem ao presente nem ao passado. É jeito que trazem de longe!

Ao invés, o Poço da Carrasca, por imperativo d’alvitre da ilha toda, desfrutou há muito o título honorífico de imóvel de interesse público: como paga de relevância dos seus intrínsecos serviços à Terra da Coisa Rara!

Lancemos um olhar retrospectivo.

A Dona Maria Carrascosa, Senhora de sua casa e feitio inflexível, porventura moldado à estreita viela, não agradaria a crescente romaria ao «poço das freiras», aberto no fronteiro Convento da Glória.

Nada justificava a preferência dada, uma vez que eles, de água igualmente fresca, abundavam no plano interior da cidade, como nos dá largo testemunho os poucos sobreviventes às arrasantes urbanizações.

No entanto, a regra de vida contemplativa não contrariava a predilecção. E a mente popular, em fantasias tanto a seu gosto, já ia entretecendo lendas, repassando a cubicada água de virtudes extraordinárias!

Estreitando-se no gostoso cumprir: uma das Obras da Misericórdia ou mal rebuçando certa pontinha de vaidade ante a generalizada preferência do «seu poço», a verdade é de que as boas Madres franqueavam a Cerca sem restrições.

E a quem não era permitido saborear as afamadas doçarias (regalias extensivas apenas a famílias vinculadas) ao menos se deleitasse à beira do privilegiado poço…

Dona Maria Carrascosa (retorcia-se o fio) é que não se rendia às circunstâncias.

Apalavrou «cobouqueiros» experimentados e logo pôs mãos à projectada reivindicta. Nasceu, então, o «Poço da Carrasca», de avantajadas dimensões e lavrado até ao alicerce. Uma obra acabada, aquela tremenda réplica ao envelhecido vizinho da ilharga, ajoelhado a poéticas e ocas tradições.

A dona aperfeiçoou-o ao seu carácter de rija têmpera, imprimindo-lhe ar próprio e circunspecto.

Beber água ali seria concessão limitada, significando um acto de devoção à Terra; o seu benefício incluso teria sido mais proveitoso a quem, de novo, passasse a Terra.

Faltando assim o novo poço, envelheceram gerações e gerações nesta crença!

Depois, já em nossos dias, acreditou-se novamente que as nascentes escorriam do alto da ilha saciar todas as sedes. E, da antiga levada (ainda estremecemos), o charco funcional imaculado e comunitário local se escondera ao precioso poço numa noite luminosa, por detrás dum muro sem história.

Resultou o inevitável: os faialenses experimentaram dolorosamente a ausência daquela água miraculosa.

Os anos rolaram serenos, emudecendo o conceito. Em falta do precioso líquido, abrem-se outros furos que minimizam, ainda que pouco, a dispendiosa escassez e volta-se a desfazer o defeso. E volta-se a processos, e colher água nas horas de calma.

Agora, como solução de prolongada estiagem, reabilita-se o velho Poço da Carrasca. Bombeiam-lhe a água e espalham-na aos tonéis da cidade.

É lição do tempo, indiferente a efémeros caprichos humanos.

Saudemos as renascenças. E, hoje, também o Poço da Carrasca (ensina-o o passado) é uma prestigiosa e indispensável instituição faialense.

HORTENSE

Pesquisa e fotos: José Manuel Garcia

Olhar o Faial Submerso

O Faial submerso faz parte desta ligação ao mar que o nosso Pai nos transmitiu. Sendo um dos pioneiros da pesca submarina nesta ilha, foi inevitável crescermos desde muito cedo em estreita proximidade com a costa que nos rodeia. Uma relação que o lugar do Varadouro, no Capelo, cimentou ao longo de décadas.

Da pesca apeada à submarina, passando pela atividade profissional até ao papel de empresário na fileira da pesca, o mar foi sempre presença constante no nosso percurso. Nos últimos anos, porém, tenho vindo a apreciar de forma mais simples e contemplativa as riquezas e belezas que a nossa costa tem para oferecer.

De forma amadora, como deve ser, nasce esta rubrica, que é um convite a descobrir o Faial debaixo de água.

Salmonete-legítimo (Mullus surmuletus)

É um peixe costeiro e reconhece-se facilmente pela sua coloração alaranjada e pelas duas barbatanas dorsais bem definidas, além dos característicos “bigodes” sob o queixo, que utiliza para remexer o fundo arenoso em busca de alimento. Vive geralmente em fundos mistos, sobretudo em zonas de areia, onde se alimenta de pequenos invertebrados. Pode ser observado em maior abundância na costa sul do Faial, entre o Monte da Guia e o Morro de Castelo Branco.

Foto captada em Praia de Porto Pim, a 22 de março de 2026. Na imagem é possível observar, além do salmonete-legítimo, alguns exemplares de peixe-rainha, bem como a presença de alga invasora, que tem transformado a paisagem subaquáticas da nossa ilha