Hoje assinalam-se 150 anos de uma das fugas mais audazes do século XIX, uma história real de coragem, estratégia e uma épica travessia entre oceanos.
Em 1876, a bordo do Catalpa, uma barca de três mastros comandada pelo capitão George Smith Anthony, desenrolou-se uma operação secreta que desafiou o Império Britânico. Disfarçado de simples baleeiro, o navio tinha uma missão muito diferente: resgatar prisioneiros irlandeses da Prisão de Fremantle, situada na costa oeste da Austrália.
Entre 17 e 19 de abril de 1876, seis fenianos (seis nacionalistas irlandeses) conseguiram fugir e alcançar o navio ao largo da Austrália, numa fuga dramática feita de corridas contra o tempo, tempestades e perseguições navais. Já em águas internacionais, sob a proteção da bandeira dos Estados Unidos, conquistaram finalmente a liberdade.
Com cerca de 202 toneladas, aproximadamente 27,4 metros de comprimento, 7,6 metros de boca e 3,7 metros de pontal, o Catalpa começou por ser um baleeiro de New Bedford, tendo mais tarde sido adaptado para serviço mercante com porão aberto. Sob o comando do Capitão George Smith Anthony, foi cuidadosamente reapetrechado como baleeiro, uma aparência convincente para uma longa viagem no Atlântico Norte e Sul, que escondia um propósito bem mais ousado.
Mas esta não foi apenas uma história de coragem irlandesa; foi também uma história atlântica.
No centro desse mundo estava o Porto da Horta, na Ilha do Faial, um verdadeiro nó de rotas, onde destinos se cruzavam. Foi ali que o Catalpa parou, descarregou barris de óleo de baleia, perdeu homens e ganhou outros. Marinheiros desertaram, como tantas vezes acontecia, mas novos foram recrutados (não sabemos se faialenses), permitindo que a missão seguisse. Sem esse momento no Faial, a viagem poderia ter terminado ali mesmo.
A ilha, já marcada por episódios como a Batalha do Brigue General Armstrong (1814), ocorrida no contexto da Guerra de 1812 (1812–1815), já após a independência dos Estados Unidos (1776, ano de que se assinalam agora 250 anos), reafirmou o seu papel: não como palco principal, mas como ponto estratégico onde a história ganha impulso.
Assinalar hoje os 150 anos do resgate do Catalpa é lembrar que grandes feitos não nascem apenas nos lugares mais óbvios. Por vezes, começam ou tornam-se possíveis em pontos estratégicos, como no meio do Atlântico, nesta pequena ilha, onde pessoas comuns tomaram decisões que mudaram destinos.
A centralidade da Ilha do Faial continua silenciosa, mas decisiva, como sempre esteve, no coração das grandes rotas e das odisseias atlânticas, apesar de, demasiadas vezes, nos Açores, se insistir em não reconhecer plenamente o alcance do seu papel na história e no futuro do arquipélago. Hoje, no presente, ignoram-na, reduzindo-a a chavões vazios, desprovidos de realismo prático e, neste caso, de decisão.
Fonte: http://www.irishecho.com – Catalpa’s Legacy In Full Sail 150 Years On