Ao Abrir da Manhã – Filhos desta Terra

Publicado no Jornal Incentivo de 14 de Abril de 2026

Nunca entendi bem o chavão “rota deficitária”. Repete-se como uma verdade absoluta, quase incontestável, mas raramente se explica a quem mais importa: às pessoas que dependem dessas rotas para algo tão simples e tão essencial como chegar a casa ou sair da sua ilha. E talvez porque, no fundo, o problema não esteja onde dizem. Esta rota pode até ser chamada de “deficitária”, mas não é para a empresa. É para os faialenses.

Porque, no fim, é disso que falamos: de casa, de mobilidade, de acesso à saúde e de economia.

Hoje, voltar ao Faial tornou-se, para muitos, um luxo. Não um direito nem uma facilidade. Um luxo. Um filho da terra que vive no continente, ou um açoriano da diáspora, olha para os preços e percebe que a distância não se mede apenas em quilómetros, mas em euros. E esses são, muitas vezes, demasiado altos.

Fala-se de rotas deficitárias, mas não se fala do verdadeiro défice: o de um serviço que não responde às necessidades reais de quem dele depende. Preços incomportáveis, falta de lugares e ligações insuficientes definem uma realidade que, mais do que inevitável, parece construída. Durante anos, o argumento do “défice” serviu para justificar a redução de voos. Hoje, começa a parecer cada vez mais uma forma conveniente de desviar atenções.

E então surge a pergunta inevitável: para quem é este serviço?

A SATA e a TAP concorreram a um serviço de obrigações públicas e têm, por isso, responsabilidades claras. Uma missão que deveria garantir acessibilidade, proximidade e ligação entre ilhas, continente e diáspora. Mas a percepção que cresce, e que dói, é a de que esse serviço público chega a alguns, mas não a todos.

Há aqui uma desigualdade silenciosa, mas profunda. Um português no continente pode atravessar o país com relativa facilidade. Um açoriano, para fazer o mesmo e regressar à sua terra, tem de planear, poupar e abdicar. Como se estivesse a organizar uma viagem internacional, e não um regresso a casa.

E isso fere. Fere porque mexe com o essencial: o direito à pertença.

Os filhos da terra continuam a partir, porque precisam. Continuam a construir vidas fora, porque não encontram cá as oportunidades que merecem. Mas nunca deixam de querer voltar. Nunca deixam de sentir que é aqui o seu lugar.

E, no entanto, tantas vezes são travados. Pelo preço, pela falta de lugares e por um sistema que parece esquecer que mobilidade, nos Açores, não é um luxo. É uma necessidade básica.

Talvez seja tempo de repensar o que significa, na prática, uma “rota deficitária”. Não no papel nem nas contas, mas na vida real. Porque o verdadeiro défice está na resposta que falha. Falha às famílias, falha a quem precisa de cuidados de saúde e falha a quem quer simplesmente voltar a casa.

Há défices que não cabem nas contas.

Mas o que mais preocupa é ouvir o próprio Presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, dizer que deve ser a economia, e não o Governo, a determinar o aumento das ligações aéreas para a Horta. Como se a mobilidade de um povo pudesse ficar refém da lógica pura do mercado. Como se garantir ligações regulares, acessíveis e dignas não fosse uma responsabilidade política, mas apenas uma consequência económica. E depois fala-se em promover o destino, mas para quê, se quem quer sair ou entrar encontra voos praticamente esgotados e preços absolutamente incomportáveis? Promove-se para fora aquilo que, na prática, se dificulta a quem cá pertence.

O resultado está à vista: ligações limitadas, respostas curtas e soluções adiadas. E, enquanto isso, acumulam-se promessas. Estradas, porto e património surgem sempre com horizonte em 2027. Sempre depois. Sempre fora do tempo de quem vive cá e de quem quer voltar.

E é impossível não apontar responsabilidades políticas locais. O PSD Faial e o CDS-PP Faial, que em tempos estiveram, e bem, na linha da frente da luta por melhores acessibilidades, não podem agora conformar-se com uma realidade que penaliza precisamente aqueles que diziam defender. Fazer comunicados não chega. E, se não têm capacidade de influenciar, então devem assumir essa limitação e fazer mea culpa pelas promessas de mudança que foram feitas. A verdade é simples: não melhorámos, piorámos. E os métodos, a postura e a ausência de resultados começam a pesar mais do que qualquer discurso.

Não vale dizer que o Faial está primeiro. Não vale repetir slogans quando, na prática, sentimos que estamos cada vez mais longe.

E enquanto continuarmos a aceitar isto como inevitável, estaremos, todos os dias, a afastar esta ilha de quem a sente como casa, de quem quer cá vir, estar, ficar e continuar ligado às suas raízes. Não por falta de amor, mas por falta de condições.

Porque chegar a casa não devia ser um privilégio. Devia ser um direito dos legítimos filhos desta terra.

A saudade não chega depois — vai connosco desde o primeiro passo.
E o regresso… o regresso começa no mesmo instante em que partimos.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

One thought on “Ao Abrir da Manhã – Filhos desta Terra

  1. É isso mesmo! 👏👏👏 Não sei é porque é que ainda estamos sentados à espera de ir para fora da ALRAA quando já esteve a funcionar esta semana com toda a “malta”.

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