
Está redito que os faialenses não são atreitos a vénias. Nem ao presente nem ao passado. É jeito que trazem de longe!
Ao invés, o Poço da Carrasca, por imperativo d’alvitre da ilha toda, desfrutou há muito o título honorífico de imóvel de interesse público: como paga de relevância dos seus intrínsecos serviços à Terra da Coisa Rara!
Lancemos um olhar retrospectivo.
A Dona Maria Carrascosa, Senhora de sua casa e feitio inflexível, porventura moldado à estreita viela, não agradaria a crescente romaria ao «poço das freiras», aberto no fronteiro Convento da Glória.

Nada justificava a preferência dada, uma vez que eles, de água igualmente fresca, abundavam no plano interior da cidade, como nos dá largo testemunho os poucos sobreviventes às arrasantes urbanizações.
No entanto, a regra de vida contemplativa não contrariava a predilecção. E a mente popular, em fantasias tanto a seu gosto, já ia entretecendo lendas, repassando a cubicada água de virtudes extraordinárias!
Estreitando-se no gostoso cumprir: uma das Obras da Misericórdia ou mal rebuçando certa pontinha de vaidade ante a generalizada preferência do «seu poço», a verdade é de que as boas Madres franqueavam a Cerca sem restrições.

E a quem não era permitido saborear as afamadas doçarias (regalias extensivas apenas a famílias vinculadas) ao menos se deleitasse à beira do privilegiado poço…
Dona Maria Carrascosa (retorcia-se o fio) é que não se rendia às circunstâncias.
Apalavrou «cobouqueiros» experimentados e logo pôs mãos à projectada reivindicta. Nasceu, então, o «Poço da Carrasca», de avantajadas dimensões e lavrado até ao alicerce. Uma obra acabada, aquela tremenda réplica ao envelhecido vizinho da ilharga, ajoelhado a poéticas e ocas tradições.
A dona aperfeiçoou-o ao seu carácter de rija têmpera, imprimindo-lhe ar próprio e circunspecto.
Beber água ali seria concessão limitada, significando um acto de devoção à Terra; o seu benefício incluso teria sido mais proveitoso a quem, de novo, passasse a Terra.
Faltando assim o novo poço, envelheceram gerações e gerações nesta crença!

Depois, já em nossos dias, acreditou-se novamente que as nascentes escorriam do alto da ilha saciar todas as sedes. E, da antiga levada (ainda estremecemos), o charco funcional imaculado e comunitário local se escondera ao precioso poço numa noite luminosa, por detrás dum muro sem história.
Resultou o inevitável: os faialenses experimentaram dolorosamente a ausência daquela água miraculosa.
Os anos rolaram serenos, emudecendo o conceito. Em falta do precioso líquido, abrem-se outros furos que minimizam, ainda que pouco, a dispendiosa escassez e volta-se a desfazer o defeso. E volta-se a processos, e colher água nas horas de calma.
Agora, como solução de prolongada estiagem, reabilita-se o velho Poço da Carrasca. Bombeiam-lhe a água e espalham-na aos tonéis da cidade.
É lição do tempo, indiferente a efémeros caprichos humanos.
Saudemos as renascenças. E, hoje, também o Poço da Carrasca (ensina-o o passado) é uma prestigiosa e indispensável instituição faialense.
HORTENSE
Pesquisa e fotos: José Manuel Garcia