Ao Abrir da Manhã – A fadiga do extraordinário

Publicado no Jornal Incentivo de 18 de Março de 2026

Vivemos num tempo em que quase nada se permite existir com a serenidade do que é apenas real. Tudo parece precisar de nascer envolto em grandeza, como se o simples já não bastasse para captar atenção nem o mérito discreto fosse suficiente para justificar reconhecimento. Uma ação corrente surge como marco, uma iniciativa previsível adquire contornos de feito excecional, uma repetição é apresentada como novidade e, pouco a pouco, a linguagem vai-se afastando da realidade que pretende descrever.

O extraordinário deixou de ser categoria rara para se tornar fórmula corrente. Multiplicam-se expressões definitivas, superlativos absolutos, anúncios de pioneirismo, referências constantes ao inédito, ao maior, ao melhor, ao nunca alcançado. Mas quando tudo se apresenta nesse registo, o próprio significado dessas palavras começa a dissolver-se. O excesso deixa de impressionar e passa apenas a produzir ruído.

Também no nosso quotidiano esta lógica se instalou com naturalidade inquietante. Mostra-se repetidamente o mesmo facto com molduras diferentes, altera-se o tom, muda-se a ordem das palavras, acrescenta-se solenidade, e a sucessão de anúncios cria a ilusão de movimento onde muitas vezes há apenas repetição. À força de ser dito muitas vezes, o que é comum adquire aparência de exceção, à força de ser exposto, o que é modesto ganha dimensão artificial.

Imagem criada por IA – Contrastes entre a fama e a simplicidade

Nem sempre se questiona se aquilo que se proclama pode realmente ser medido, comparado ou sequer avaliado na dimensão em que é apresentado. Muitas vezes basta o selo, o título, a designação sonora, a fotografia certa e a construção de uma narrativa suficientemente enfática para que o anúncio se imponha como evidência. O prestígio passou a depender menos da substância do que da forma como é comunicado.

Talvez por isso se tenha tornado tão difícil distinguir reconhecimento de promoção, mérito de formalidade, relevância de mera circulação de linguagem. E não deixa de ser revelador que tantas vezes a notícia surja já acompanhada da palavra que a pretende validar: excelência, distinção, referência, liderança. Como se a designação dispensasse a necessidade de prova.

O problema não está apenas no discurso, está no hábito coletivo de o aceitar sem distância crítica. De tanto convivermos com esta inflação verbal, habituámo-nos a ela. Já não estranha que tudo seja anunciado como singular, nem causa desconforto que quase tudo procure apresentar-se acima da sua própria escala. A insistência tornou-se argumento, e a repetição passou a valer como confirmação.

Entretanto, aquilo que verdadeiramente sustenta uma comunidade continua quase sempre fora deste foco: o trabalho regular, a responsabilidade silenciosa, a competência sem aparato, o cumprimento sem proclamação. Talvez porque a normalidade, hoje, se tenha tornado estranhamente rara.

E talvez seja precisamente isso que mais falta: pessoas normais no sentido mais exigente da palavra, capazes de agir sem dramatização, de produzir sem permanente necessidade de validação pública, de compreender que nem tudo precisa de ser excecional para ter valor.

Num tempo em que quase tudo procura parecer maior do que é, talvez a lucidez consista apenas em recuperar a medida: chamar às coisas pelo seu nome, devolver peso às palavras e recordar que uma sociedade madura não se engrandece pelo número de superlativos que usa, mas pela clareza com que distingue o essencial do acessório.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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