Memórias do Porto da Horta

O voo de Italo Balbo e os Açores na aviação transatlântica

Aviadores voando entre o Velho e o Novo Mundo usaram o Faial como ponto de escala.


Seis dos 24 hidroaviões italianos, liderados pelo Marechal do Ar Italo Balbo, no notável voo coletivo de Roma a Chicago em 1933, sobrevoam a esplêndida baía da Horta, ilha do Faial, na viagem de regresso.O vapor engalanado com bandeiras é o navio de apoio Città di Catania.
Ao fundo, acima das nuvens, eleva-se o cume da ilha do Pico – Foto: Norberto Amaral

Em julho de 1933, a baía da Horta integrou-se simbolicamente numa das maiores operações aéreas do período entre guerras: o voo coletivo transatlântico liderado pelo Marechal do Ar Italo Balbo. Seis dos vinte e quatro hidroaviões italianos sobrevoaram a cidade no percurso de regresso da célebre Crociera Aerea del Decennale, organizada para assinalar os dez anos do regime fascista italiano e demonstrar a capacidade técnica da aviação nacional.

A esquadrilha utilizava hidroaviões Savoia-Marchetti S.55X, aeronaves de casco duplo concebidas para longas travessias oceânicas. O voo Roma–Chicago, realizado em formação e com apoio naval permanente, constituiu um feito sem precedentes, tanto pela distância percorrida como pela complexidade logística envolvida. A chegada a Chicago coincidiu com a Exposição Universal Century of Progress, onde os aviões foram recebidos como símbolo do avanço tecnológico europeu.

A presença nos Açores inscreveu-se numa lógica estratégica clara. Desde o século XIX, o arquipélago afirmara-se como plataforma fundamental nas comunicações transatlânticas, papel que a aviação emergente viria a reforçar. O navio de apoio Città di Catania, visível engalanado na baía da Horta, fazia parte de uma frota destinada a garantir reabastecimento, comunicações e salvamento, evidenciando a estreita articulação entre meios aéreos e navais.

Embora breve, o episódio reforçou a projeção internacional dos Açores e antecipou a sua importância futura na aviação atlântica. Nas décadas seguintes, essa centralidade consolidar-se-ia com a aviação comercial e militar, transformando o arquipélago num ponto-chave das ligações entre a Europa e a América.

Savoia-Marchetti-Historical-Group-Unveils-S.55-Replica

Città di Catania
Piroscafo italiano de passageiros, construído nos estaleiros Ansaldo de Sestri Ponente e lançado à água em 1910, o Città di Catania foi a primeira embarcação italiana movida por turbinas a vapor, atingindo velocidades de cruzeiro elevadas para a época. Projetado para o serviço estatal entre o continente e a Sicília, destacou-se pela modernidade técnica e pelo conforto, tendo sido descrito pelo pintor Paul Klee como um «magnífico piroscafo».

Durante a Primeira Guerra Mundial foi requisitado pela Marina e convertido em cruzador auxiliar, participando em operações navais no Mediterrâneo, no Adriático e na costa da Líbia. No pós-guerra regressou ao serviço civil, integrando mais tarde a frota da Tirrenia (companhia de transporte de passageiros estatal).

Em Agosto de 1933, desempenhou funções de navio de apoio à Crociera Aerea del Decennale, acolhendo nos Açores os tripulantes dos hidroaviões comandados por Italo Balbo e prestando apoio logístico à travessia aérea transatlântica.

Manteve actividade durante a Segunda Guerra Mundial, sobretudo como transporte de passageiros e de tropas. Em 3 de Agosto de 1943, navegando sem escolta entre Durazzo e Brindisi, foi afundado por um submarino britânico, causando a morte de mais de duas centenas de pessoas. O seu naufrágio constitui um dos episódios mais trágicos da marinha mercante italiana.

Fontes

  • Balbo, Italo — La Crociera Aerea del Decennale (Roma, 1933)
  • Ferrara, G. — Gli S.55 e le grandi trasvolate atlantiche (Ufficio Storico Aeronautica Militare)
  • Gunston, Bill — The History of Aviation (Crescent Books, 1986)
  • Ribeiro, João — Os Açores e a Aviação Atlântica (Instituto Açoriano de Cultura)
  • Arquivo Histórico da Aeronautica Militare Italiana
  • Imprensa portuguesa da época (Diário de Notícias, O Século, julho de 1933)

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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