História do “Sete Orelhas”

Faialenses andaram e andam pelo Mundo


Januário Garcia Leal foi fazendeiro na região de Alpinópolis, no sul de Minas Gerais, tendo vivido uma vida tranquila até que a morte brutal do seu irmão João alterou tudo. Desprezando a justiça colonial que falhou em punir os culpados, Januário juntou-se ao seu irmão Salvador e ao primo Mateus, procurando fazer a vingança por conta própria. Recebendo autorização real, eles iniciaram uma perseguição implacável aos assassinos, adotando a “lei do talião” ou “olho por olho, dente por dente”. Originária de antigas civilizações, essa lei era aplicada como forma de punição, em que a penalidade imposta a um infrator seria equivalente ao dano causado por ele. Neste caso, os criminosos eram mortos e as suas orelhas exibidas como troféus. A intervenção do Príncipe Regente de Portugal foi necessária para conter a ação de Januário que ficou conhecido como o “Sete Orelhas”.

A história do “Sete Orelhas” foi contada de diversas formas ao longo dos anos. Uma versão relata que Januário teria sido motivado pela morte de seu irmão João em uma disputa de terras. Outra versão menciona um contexto diferente, onde a vingança é atribuída à morte de um filho de Januário, havendo muitas outras versões ficcionadas em livro e até em filme. No entanto, estas narrativas foram reforçadas e contestadas ao longo do século XIX, em várias obras, sempre retratando o personagem de maneiras diferentes.

O nome Garcia Leal, atribuído ao “Sete Orelhas”, remete à existência de um colono real com esse nome, nascido em Minas Gerais no século XVIII. A pesquisa genealógica mostra que o sobrenome Garcia estava ligado a uma extensa rede de famílias descendentes de colonos açorianos que se estabeleceram no Brasil. A identidade cultural dessas famílias foi alvo de manipulação durante as perseguições políticas, com o objetivo de enfraquecer sua coesão social.

Detalhes biográficos revelam a origem familiar de Januário Garcia Leal e sua conexão com outras figuras importantes da época. Seu casamento com D. Mariana Lourença de Oliveira também é mencionado, assim como seus numerosos irmãos e descendentes. A história do “Sete Orelhas” emerge como uma narrativa complexa que entrelaça eventos históricos, questões de identidade cultural e manipulação política.

Januário Garcia Leal nasceu numa família com raízes profundas e vasta descendência. Seu pai, Pedro Garcia Leal, de ascendência açoriana, era filho de João Garcia Pinheiro e Maria Leal e cresceu numa família numerosa, sendo um dos nove irmãos: José, Joaquim, João, Manuel, Antônio, Ana, Maria e Salvador.

Além disso, Januário Garcia faz parte de uma extensa genealogia familiar. O sobrenome Garcia é identificado como o único nome de família atribuído ao “Sete Orelhas” em todas as publicações sobre a sua vida. Descendentes de cinco colonos provenientes da Ilha do Faial, estabeleceram-se principalmente na região das nascentes do Rio Grande, em Minas Gerais, antes de se espalharem por outras regiões do Brasil, como São Paulo, Mato Grosso e Goiás. Esta genealogia revela não apenas a conexão familiar de Januário à nossa ilha, mas também a disseminação e influência cultural dessas famílias ao longo do tempo no território brasileiro.

Os “Garcias” faialenses (a nossa família) poderão afirmar que são parentes do “Sete Orelhas”? É provável, mas a história não termina aqui.

Posto Baleeiro do Varadouro

Existem referências ao Porto Velho do Varadouro (praia de calhau rolado, por baixo da encosta da Ribeira do Cabo), situado na freguesia do Capelo, na atividade baleeira no século XIX. No jornal “O Fayalense” de 23 de Junho de 1872, menciona-se que as canoas da Casa Bensaude estavam no Varadouro e apanharam uma baleia pequena. O Inquérito Industrial de 1890 refere que naquela freguesia estacionavam duas canoas baleeiras que pertenciam a Manuel Costa Nunes.

Já no início da década de 20 do século passado e conforme se verifica no excerto da ata a seguir a este texto, estabeleceu-se no Varadouro a armação de Manuel Silveira Leal.

Em 1927, esta armação estava preparada para a extração de óleo de baleia mas um temporal acabou por destruir a Casa de Laboração. Estes prejuízos provocaram a falência da armação, “levando o seu proprietário ao suicídio, que por sua vez provocou a demência da sua filha”.

Em 1936, a sua viúva, Maria Garcia Neves da Silveira, preparava-se para reorganizar a armação, mas um ciclone acabou por causar novos prejuízos.

Mais tarde, em 1948, Maria Neves requereu ao Ministro da Marinha a reabertura da armação do seu marido. Tinha como intuito varar as embarcações no Porto da Lapa, que possuía um cais e uma rampa. Este Porto foi cavado nas rochas e caía verticalmente sobre o mar, era estreito e muito inclinado, apresentando, por isso, condições muito más para a prática da atividade. A rampa tinha uma entrada complicada com a maré vazia e só com “mar chão” ou mais obras permitiria o estacionamento regular de canoas baleeiras.

A requerente, caso fosse autorizada a reabertura da armação do seu marido, propunha-se fazer sociedade ou uma cooperativa, integrando os respectivos pescadores; a sua frota seria constituída por embarcações de grande tonelagem que possibilitava o exercício da caça a uma distância da costa que não era ainda abrangida na época, e, desta forma, evitava a concorrência.

No entanto, o Grémio dos Armadores da Pesca da Baleia deu parecer negativo, como se pode observar no excerto do parecer abaixo. Neste sentido, a reabertura da armação não se tornou realidade.

O Posto Baleeiro do Varadouro, no Porto da Lapa, agora chamado Porto Novo, só foi utilizado regularmente na caça à baleia, depois de obras de melhoria e a partir de 1959, depois da erupção do Vulcão dos Capelinhos, com encerramento do Posto Baleeiro do Comprido.

Em 31 de Maio de 1948, dirigiu-se Maria Garcia Neves da Silveira, S. Exª o Ministro da Marinha, em requerimento, a solicitar a reabertura da armação baleeira de seu falecido marido.

Fundamentava a sua pretensão no seguinte:

1.º – que em 1927, quando a armação do seu marido estava preparada para o máximo da sua produção, surgiram temporais que destruíram a sua casa de laboração;

2.º – que estes prejuízos conduziram o marido a uma péssima situação financeira, tendo mesmo levado à sua morte e outras consequências familiares;

3. º – que em 1936 quando pensou em reorganizar a sua frota, um novo ciclone causou prejuízos.

Visitamos o local onde a Senhora pretende varrar as suas embarcações, no caso de lhe ser dada autorização, tratava-se do Varadouro da Lapa. Este é escavado na rocha e cai verticalmente sobre o mar. É estreito e muito inclinado. Não vimos local para construção de barracão arrumar as embarcações ou de uma plataforma.

Informou-nos um representante da requerente que, no caso de ser autorizada a reabertura da armação do seu marido, terá com vista os seguintes pontos:

1.º – que faria uma sociedade ou cooperativa, que integrava nesta os respetivos pescadores;

2.º – a frota seria constituída de embarcações de uma tonelagem tal, que seria possível exercer a pesca a uma distância da costa não abrangida pelas atuais embarcações. Não haveria para o caso qualquer tipo de concorrência;

3.º – que as pessoas que entrassem nesta sociedade são idóneas e com capacidade financeira – Como se poderia verificar.

Parece-nos que não deverá ser autorizada a exploração de mais armações no Faial em condições análogas das existentes, tanto mais que estes laboram com determinado desenvolvimento técnico e de produção.

Por outro lado, parece-nos que os Cetáceos naquelas águas, devido à quantidade de armações que se dedicam à caça, não são em número suficiente para justificarem a existência de outra mais.

Ao mesmo tempo, que já, no Verão, as armações do Norte do Pico, em vista do pouco pescado no Canal de São Jorge, trabalham em coligação com as empresas do Faial.

Para reabertura da sua armação, a requerente tem de possuir instalações industriais exigidas pelo Decreto n.º 11.011. Nestas condições, julga-se que não deve ser autorizada abertura desta armação, pois, além da concorrência que contrabalançaria, a licença para exploração caducou, definitivamente, em virtude de não ser utilizada por mais de 8 anos.

No caso de a exploração ser solicitada em outras condições, deixa-se a quem de direito a faculdade de resolver.

Ainda há outra pretensão existente. É pretendente o Senhor José Maria Vasconcelos Melo, que, em 18 de Março de 1946, pediu a S. Ex.ª o Ministro da Marinha autorização para montagem no Porto dos Cedros de uma armação baleeira composta por 4 embarcações a remos e seis lanchas a motor. Pelas razões já apontadas, é nossa opinião que não deve ser permitida, por enquanto, mais armações naquela ilha.”

Foto: Coleção particular de José Manuel Garcia

“Vou ao Botequim”

Capelo: Tradição e Memórias

A freguesia do Capelo, na ilha do Faial, mantém-se hoje dividida em seis núcleos populacionais: Ribeira do Cabo, Areeiro, Varadouro, Capelo, Canto e Norte Pequeno. Até 1957, no Porto do Comprido, durante os meses de primavera/verão, existia uma comunidade de locais e das ilhas do Pico e São Jorge a residir ali.

Antes da erupção do vulcão dos Capelinhos, a freguesia contava com uma população estável de 1.500 habitantes. Contudo, após a erupção, muitos residentes foram obrigados a emigrar, resultando numa redução significativa da população local, que atualmente é de 528 habitantes (Censos 2021).

A palavra “Botequim”, deriva do termo, “botica”, e do espanhol da Espanha, “bodega”, ambos originados do grego “apothéke”, que significa depósito. No entanto, durante a expansão do Império Romano, as palavras “apotheca” e “apotheké” também passaram a designar farmácia, o que influenciou o surgimento do termo “Botequim”. Mesmo ao longo do tempo, quando esses locais se transformaram em Mercearias, onde os clientes podiam comprar produtos alimentares, incluindo alguns a granel (quando era possível), era comum ouvir-se na ilha do Faial a expressão “Vou ao Botequim”.

Os Botequins foram importantes nas nossas comunidades, servindo como locais de encontro onde as pessoas partilhavam histórias, experiências, onde tinham lugar debates abertos, sobre política e futebol, mas também onde se contavam as novidades, os “mexericos” quotidianos. No entanto, é importante salientar que historicamente esses estabelecimentos eram frequentados essencialmente por homens, refletindo as normas sociais da época.

Na segunda metade do século passado, os “Botequins” passaram em determinadas classes sociais a ter uma conectividade negativa, muito associada ao alcoolismo, renegando, na minha opinião, o papel que esses estabelecimentos comerciais tiveram ao longo de décadas.

No Capelo, havia muitos botequins, devido à sua dispersão geográfica. O Botequim do Pacheco, situado na Rua da Igreja, foi um dos pioneiros, abrindo na segunda metade do século XIX. Era conhecido por vender de tudo um pouco, destacando-se as famosas “agulhas Pacheco”.

Outro estabelecimento notável era a “Chica do Botequim”, localizado no Areeiro, inaugurado no final do século XIX e em funcionamento até ao início da década de 1940. Além de ser uma taberna, possuía uma mercearia e até mesmo uma área onde os médicos faziam consultas.

O Botequim do Óscar iniciou a sua atividade por volta de 1930, localizado onde hoje se encontra o Café do Arreiro. Foi um local onde passei muitos momentos agradáveis, conhecendo muitos antigos pescadores e ouvindo diversas histórias sobre baleação e pesca. Tornou-se um dos principais pontos de encontro da freguesia, servindo como posto dos correios, telefone público, paragem de autocarros, entre outras coisas, além de desempenhar uma espécie de função de assistência social, graças à generosidade do Senhor Óscar Lemos e depois dos seus descendentes, que dava “fiado” e até concedia empréstimos a muitas famílias de recursos limitados.

Outros estabelecimentos merecem menção especial, como o Botequim da Gilda Mota, situado no Varadouro, e o Botequim do Artur, localizado no Lugar do Canto, que também tinha um no Porto do Comprido, onde também se encontravam o Botequim António do Sábado e o Botequim do Patrício. Seguindo essa linha, também se destacavam os Botequins da Maria Paula, da Guinchona, do João da Margarida e da Ana do Alfredo, todos no Capelo. No Lugar do Cruzeiro, eram notáveis o Botequim do Tomás Matos e o do Silveira, enquanto no Norte Pequeno encontrava-se o Botequim do António Alves.

Além desses, inúmeros outros estabelecimentos existiram, sem que haja registos ou memórias específicas sobre eles. No entanto, é inegável o importante papel económico e social que todos esses botequins desempenharam na freguesia do Capelo.

Ao Abrir da Manhã – Aeroporto da Horta: Descolagem Comprometida

Publicado no Jornal “Incentivo” a 19 de Fevereiro de 2024

Felizmente, a expansão do Aeroporto da Horta é um tema que muitos faialenses reconhecem como importante para o nosso desenvolvimento. Houve uma união de vontades e foi criado um grupo para defender este projeto, bem como para melhorar as acessibilidades aéreas na nossa ilha.

No entanto, surgem as antigas e confusas desculpas partidárias: A direita lembra constantemente a promessa feita por Carlos César num comício em Flamengos, onde afirmou “…se a república não fizer, nós faremos…”, e critica repetidamente a falta de compromisso dos governos socialistas com este projeto ao longo dos anos.

Por sua vez, a esquerda não esquece as declarações do então Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho, no Salão Nobre do Município da Horta, em 27 de outubro de 2014: “Se, por parte da ICAO, vier uma deliberação estrita no sentido de que, por razões de segurança, o prolongamento da pista tem mesmo de ser feito, evidentemente que o concessionário não deixará de o fazer. Mas, se não for nessa circunstância, isto é, se resultar apenas da nossa opção, parece-nos que o retorno que é esperado face ao investimento torna muito difícil que nós o possamos concretizar, na medida em que teríamos nós de o suportar, face ao compromisso tomado pela concessionária”.

A esquerda também tem críticas em relação à forma como o Governo da República, liderado pelo PSD/CDS entre 2012 e 2013, conduziu a privatização da ANA-Aeroportos, que incluía a gestão do nosso Aeroporto. Uma das críticas é que esse processo não acautelou adequadamente a expansão e desenvolvimento do Aeroporto da Horta, tendo o deixado condenado aos caprichos e desejos da empresa francesa VINCI.

Em última análise, todos nós nos agarramos às boias de salvação que mais nos convêm, perpetuando um ciclo de retórica vazia que não nos leva a lugar algum. As disputas partidárias e os cronogramas para a divulgação de notícias com objetivos políticos apenas adicionam confusão e mal-entendidos.

Recentemente, foi anunciado que a empresa concessionária do Aeroporto da Horta está a preparar-se para efetuar obras nas áreas de segurança da pista, “uma obrigação que terá de cumprir ao longo do ano de 2024”. Estas obras, a serem concretizadas irão reduzir o comprimento útil da pista para 1400 metros, o que impedirá a aterragem dos aviões A320.

Curiosamente este tema não recebeu nenhum destaque durante a campanha para as eleições regionais, realizadas no passado dia 4 de Fevereiro. Terá havido esquecimento ou desconhecimento? O Grupo de Trabalho da CMH, o Governo Regional e o Governo da República estarão desinformados sobre o andamento deste processo ou fizeram diligências sobre este assunto?

Cabe a quem de direito falar com clareza aos faialenses, salvaguardando os nossos interesses, pois já chega de criar a ilusão. A disseminação de notícias não confirmadas e prejudiciais à economia local tem efeitos devastadores. Os empresários, responsáveis por impulsionar o investimento e o crescimento económico, enfrentam um dilema sério ao considerarem a realização de novos investimentos na ilha do Faial. Como se investe numa terra constantemente bombardeada por notícias negativas, que minam a confiança e afetam a estabilidade financeira?

As incertezas geradas por estas notícias criam um ambiente de hesitação e desconfiança, desencorajando potenciais investidores e prejudicando o nosso desenvolvimento. É por isso fundamental reconhecer a importância de verificar a consistência das informações antes de divulgá-las publicamente.

O Grupo do Aeroporto da Horta está a agir bem ao expressar preocupação e mobilizar esforços. Não podemos é permanecer constantemente nas notícias negativas e a olhar para o passado; é crucial avançar e não ficar sempre entre as “RESAs” e descolagens comprometidas.

No entanto, como mencionado anteriormente, cabe aos responsáveis políticos encerrar esta possível especulação, antes das próximas eleições do dia 10 de Março e elucidar se estamos ou não diante de um problema sério a curto prazo. Sem essa clareza, permanecerá a incerteza sobre se estamos novamente confrontados com mais um episódio em que os interesses político-partidários prevalecem sobre o interesse coletivo.

Capelinhos CUX 56 – O Porto Baleeiro dos Capelinhos

O Porto do Comprido, situado na ponta oeste da ilha do Faial, destacou-se como uma das estações baleeiras mais significativas dos Açores devido à sua posição estratégica e história rica. Localizado junto a uma pequena Calheta formada há centenas de anos por uma escoada lávica, este porto oferecia um abrigo natural essencial para a pesca costeira, sendo referido em literatura desde os primeiros tempos do povoamento da ilha.

Descrito nas cartografias do século XVIII como a Ponta Comprida, este local isolado entre as falésias e o mar era ideal tanto para a partida como para a chegada das embarcações.

As altas falésias do Costado da Nau forneciam um amplo alcance visual aos vigias da baleia, estabelecendo uma comunicação crucial com as vigias localizadas na Costa Norte da Ilha, nos Cedros e no Salão, conectando-se à vigia do Alto das Concheiras.

Conhecido na época como “Capelinhos CUX 56” ou “Terror das Baleias”, o Porto do Comprido chegou a abrigar de uma só vez 21 botes e 7 lanchas, estas ficavam fundeadas fora da baía natural. As tripulações eram provenientes das ilhas do Faial, Pico e São Jorge, sendo 147 homens das companhias baleeiras, além das tripulações das lanchas e suas famílias, a pequena colónia construída ali abrigava mais de duzentas pessoas, especialmente durante os meses de Primavera e Verão, até julho. A partir de Agosto e com as “lavadias” era hora de partir, pois o ditado antigo era muito respeitado: “Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno”.

Esta pequena colónia construída junto ao do porto incluía 12 casas de palha de trigo, 11 casas de telha, uma casa de ajuntamento para fins de cozinha coletiva e outra para armazenamento de equipamentos. Além disso, o local contava com um botequim/mercearia do senhor Artur Alves.

Colónia do Posto Baleeiro dos Capelinhos

A atmosfera do Porto do Comprido era impregnada de atividade incessante, marcada por momentos de camaradagem, rivalidade, discussões e tristeza pelas perdas de baleeiros, mas também por histórias e aventuras típicas das gentes do mar açoriano.

Durante 77 anos, entre 1884 e 1957, a Estação Baleeira dos Capelinhos foi vital na subsistência de inúmeras famílias açorianas, contudo, em setembro de 1957, quando o Vulcão dos Capelinhos entrou em erupção, o Porto do Comprido foi abruptamente abandonado. Em questão de meses, décadas de histórias deste posto baleeiro foram escondidas pelas cinzas, deixando para trás uma paisagem obscurecida pela devastação do vulcão.

Hoje, há já marcos edificados da história da estação “Capelinhos CUX 56”, como é Casa dos Botes, mas não podemos ignorar que aquele o portinho baleeiro é um dos marcos mais importantes da baleação costeira dos Açores e há um legado a preservar. A sua condição de isolamento e em comunhão com a Reserva Natural do Vulcão, exige maior cuidado na sua limpeza e a salvaguarda da sua naturalidade. Há quem pense em construir naquele local uma Zona Balnear, nunca o deixará de ser, já tem essa função, mas importa perceber o contexto histórico, promover intervenções minimalistas e evitar uma pressão humana exagerada.

Os Dabneys na Baleação Açoriana

Originária dos Estados Unidos da América, mais concretamente de Massachusetts, a família Dabney instalou-se no Faial em 1804 (alguns sugerem que tenha sido em 1806), após a nomeação de John Bass Dabney como Cônsul Geral dos EUA nos Açores pelo Presidente Thomas Jefferson. Dois descendentes de John Bass Dabney sucederam-no nas funções consulares após a sua morte: o seu filho, Charles William Dabney, e posteriormente, o neto, Samuel Willis Dabney, até janeiro de 1892, quando a família deixou a nossa ilha. 

Vale a pena mencionar que a despedida desta família, após 88 anos de notável presença nos domínios empresarial, social e cultural, em 1891, ficou marcada pela realização de um festival náutico, que inclui uma regata de botes baleeiros. Será legitimo afirmar que temos regatas deste tipo no Faial há 133 anos.

A atividade empresarial da família, teve um papel muito importante no contexto local e internacional, influenciando um dos períodos mais prósperos da economia do Faial. 

Os Dabney comercialmente dedicaram-se à produção e exportação da laranja e do vinho, mas também no comércio associado à Baleação, em três vertentes principais: fornecimento logístico à frota de embarcações norte-americanas no Atlântico, aquisição e subsequente exportação dos óleos de baleia processados.

Esta atividade foi crucial na época, pois permitia que os navios baleeiros americanos escoassem os seus produtos com lucro, sem terem que regressar aos portos de origem, sendo sem dúvida um dos pontos mais importantes na relação comercial entre a Horta e New Bedford, cimentando o nosso Porto e nossa cidade como a Capital Baleeira do Atlântico Norte. Além disso, estabeleceram uma frota de botes baleeiros dedicadas à baleação costeira. Onde hoje se situam os balneários da Praia de Porto Pim, terá sido o ponto de partida e arrumação de botes Baleeiros Costeiros da Empresa Dabneys & Sons, tendo sido daquele local que se iniciou a caça à baleia costeira nos Açores.

No entanto, a atividade empresarial da família entrou em declinio no final do século XIX, devido à diminuição da produção de vinho e laranja, ao declínio progressivo da baleação pelágica nos moldes até então conhecidos, bem como ao surgimento de outras empresas prósperas nos mesmos setores, como a Bensaúde. Paralelamente, o governo norte-americano começou a orientar o seu corpo consular no sentido de evitar a acumulação de funções consulares e empresariais pelos respetivos membros.

Central Hidroelétrica do Varadouro

Em 1953, foi realizado um estudo preliminar para viabilizar o aproveitamento hidroelétrico da Ilha do Faial, de modo a encontrar uma solução ambientalmente sustentável de aproveitamento da água. A Direção-Geral dos Serviços Hidráulicos, com o apoio do Gabinete de Estudos Hidráulicos (APAGE), em colaboração com a então Direção de Obras Públicas da Horta, elaborou e justificou a solução mais adequada para essa infraestrutura.

Em 1958, a empresa SOFOMIL iniciou a análise para a seleção dos equipamentos a serem instalados, enquanto a empresa “Teófilo Ferreira Garcia” assumiu a responsabilidade pela construção civil e a EFACEC pela instalação dos equipamentos. Em agosto de 1960, o projeto para a implantação da conduta foi concluído. Posteriormente, deu-se início à construção da caleira , reservatório, conduta e linha de transporte para a cidade da Horta.

É importante salientar que a Central aproveita a água recolhida na borda da Caldeira, através das denominadas “Levadas”, considerada uma das maiores obras de engenharia dos Açores. Situada a 680 metros de altitude, a água é recolhida em vários pontos ao longo do percurso, sendo posteriormente encaminhada para a Central Hidroelétrica do Varadouro.

Em 1964, após a conclusão das obras, a infraestrutura foi finalmente inaugurada pelo Ministro das Obras Públicas, Arantes de Oliveira. A produção e a exploração da central foram inicialmente supervisionadas pela Câmara Municipal da Horta, por meio dos Serviços Municipalizados de Eletricidade da Horta. Posteriormente, com a formação da Empresa de Eletricidade dos Açores em 1982, a Central Hidroelétrica do Varadouro passou para a responsabilidade desta empresa.

Esta Central com uma potência instalada de 320 kW, contribui, ainda hoje, para o fornecimento de energia elétrica ao Faial, mas também representa um marco ambientalmente consciente, podendo ser explorada pedagogicamente e até mesmo museologicamente, especialmente no ano em que marca o 60º aniversário da sua inauguração.

O Naufrágio do Navio “Main”

Nesta fotografia está documentado o naufrágio do vapor inglês “Main“, com 101 metros de comprimento, construído em 1868 pela Caird & Company Greenock, que afundou na ilha do Faial em 1892. A família Dabney, pioneira na arte da fotografia, capturou o momento em que o navio ardia, perdido na baía de Porto Pim, transportando uma carga de algodão e gado provenientes da cidade americana de Nova Orleães e destinados a Liverpool. O incêndio teve início no setor de alimentação do gado, resultando no naufrágio do vapor a uma profundidade de cerca de cinco metros, entre a Fábrica da Baleia e o atual Aquário de Porto Pim.

Apesar dos esforços empreendidos para salvar o navio, o fogo acabou por consumi-lo por completo. Os destroços do vapor permanecem ali, a cinco metros de profundidade na baía. O semanário faialense “O Açoriano”, de 27 de março de 1892, relata a tragédia, descrevendo os esforços realizados para evitar a perda do vapor e mencionando que apenas se conseguiram salvar 122 fardos de algodão e 680 sacas de semente. Além disso, os bois que escaparam causaram vários estragos, chegando alguns deles a cair sobre uma casa pertencente ao Sr. Manuel da Costa Nunes, onde estavam guardadas canoas baleeiras.

Esta fotografia, como tantas outras, foi colorida por meu irmão José Manuel Garcia e publicada no Jornal “Tribuna das Ilhas” – na rubrica “Faial Antigamente -Colorindo o Preto e Branco”

Vapor “Main” em chamas em Porto Pim – Ilha do Faial
Gado a “dar à costa” – Praia de Porto Pim – Ilha do Faial

Clarificação

Publicado no Jornal “Incentivo” de 12 de Fevereiro de 2023

Em 1996, o primeiro Governo Regional liderado por Carlos César teve o seu Programa de Governo aprovado graças aos votos favoráveis dos três deputados do Centro Democrático Social (CDS) e à abstenção do Partido Comunista Português (PCP). O PSD Açores votou contra a investidura do governo com uma maioria relativa em 1996, opondo-se ao Programa de Governo e, posteriormente, à Proposta de Plano e Orçamento. Portanto, não viabilizando um governo de maioria relativa do PS Açores.

A 25 de Outubro de 2020, o PS Açores venceu as Eleições Legislativas Regionais, com maioria relativa. Não me recordo de se ter colocado a hipótese do PSD-Açores viabilizar um Governo dos Açores, liderado por Vasco Cordeiro, remetendo o CHEGA para a oposição. Preferiu o PSD-Açores, a 6 de Novembro de 2020, celebrar uma série de acordos de coligação e de incidência parlamentar, retirando a maioria relativa do PS e formando um Governo com os resultados que todos conhecemos, adicionando o CHEGA a esta equação, demonstrando, claramente, que nos Açores a extrema-direita conta.

Ora, a autonomia partidária, frequentemente invocada pelo líder do PSD Açores, não pode ser usada como desculpa para se esconder atrás de António Costa ou da geringonça formada na República, pois o que é dito é: “Uma coisa é a República e outra são os Açores”.

O PSD-Açores absteve-se no Plano e Orçamento da RAA para 1998, mas a intenção nunca foi essa, apenas a perspetiva real de novas eleições, comunicada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, levou a que o PSD e o CDS Açores se abstivessem. É necessário admitir que o PSD Açores nunca teve qualquer intenção de viabilizar um Governo de maioria relativa do PS e teve duas oportunidades para o fazer. Não o fez!

Então o que se alterou no panorama político regional para que o PSD abandonasse o CHEGA e quisesse associar o PS Açores à extrema direita, depois de ter sido o primeiro partido em Portugal a fazer um acordo de incidência parlamentar com a extrema direita?

Apenas um facto: Temos Eleições Legislativas Nacionais marcadas para o próximo dia 10 de Março e Luís Montenegro (e não a AD) diz que não governa se não ganhar as eleições e, também, não governa com acordos com a extrema-direita, mas a AD pode fazê-lo.

O Partido Socialista comunicou, atempadamente, a sua decisão de ocupar o lugar que lhe foi reservado na oposição, após ter recebido o voto de mais de 41 mil açorianos e de ter perdido as Eleições Regionais. Na minha opinião, esta foi uma boa decisão, atempada e coerente, que fortalece a autonomia e que, ao contrário do que querem fazer transparecer, é um exercício de humildade política. Aliás, em 2020 foram necessários 15 dias para a Coligação apresentar uma solução de Governo nos Açores, por isso não se entende o incomodo o PS ter clarificado a sua posição com tempo.

Temos assistido nos últimos dias a um desfile de opiniões que merecem todo o meu respeito, mas que não respondem às seguintes questões:

Seria benéfico deixar a extrema-direita sozinha na oposição no Parlamento Açoriano?

O líder do PS Açores não foi suficientemente claro na campanha eleitoral relativamente a esta matéria?

A AD nos Açores irá ou não celebrar um acordo com a extrema direita?

Vai a AD viabilizar um Governo minoritário do PS no Parlamento Nacional?

Todas estas questões, que são de fácil resposta, deverão ser esclarecidas e fundamentadas antes do dia 10 de março, para o cabal esclarecimento dos eleitores. Cumpre e urge, nesta medida e pelos respetivos papéis, ao PSD, ao CDS, ao PPM e ao CHEGA, a clarificação de todos os Açorianos sobre a sua posição, ainda antes do próximo ato eleitoral.

Ao Abrir da Manhã – A Crise dos Três Governos

Publicado no Jornal “Incentivo” de 6 de Fevereiro de 2024

Terminadas as Eleições Legislativas Regionais dos Açores é, desde já, possível constatar uma inversão dos resultados por comparação com os determinados pelo anterior ato eleitoral, em 2020, com a Aliança Democrática a emergir como vencedora e o Partido Socialista a enfrentar uma perda significativa de deputados.

Esta mudança de cenário revela um novo panorama político na região. A Aliança Democrática (AD) manteve o mesmo número de deputados e o Partido Socialista (PS) perdeu dois deputados, resultando numa maioria relativa no Parlamento Regional. O cenário atual levanta incertezas sobre quem desempenhará o papel crucial de fiel da balança, sendo fundamental observar, nos tempos mais próximos, de que forma as negociações políticas se desenrolarão.

No entanto, é interessante notar a possibilidade de repetirmos a “Geringonça Nacional” ou “Caranguejola Açoriana”. Estes modelos, que resultaram em falhanço das soluções governativas decorrentes, conduziram, em boa medida, à instabilidade governativa e ao consequente aumento da extrema-direita.

Foi defendido por José Manuel Bolieiro, na noite da vitória, que, dada a personalização da campanha eleitoral nos líderes dos principais partidos, a “vontade do povo açoriano” deveria ser respeitada e que existia um sinal inequívoco dessa vontade, expresso nas urnas. Ora, esta afirmação contraria a anterior opção do PSD Açores e do seu líder que, apenas há três anos, optou por formar uma coligação de partidos e um conjunto de acordos de incidência parlamentar para, perante uma inequívoca vitória do partido liderado por Vasco Cordeiro, afastar a existência de condições para que o PS governasse em maioria relativa, como aconteceu em 1996.

Há três anos as eleições não foram personalizadas nos respetivos líderes de partido? Nessa eleição não existiu um partido com uma vitória clara e inclusive mais robustas em relação aos restantes candidatos? A vontade popular não foi clara e livremente expressa nas urnas?

Compreende-se que a complexidade da política implica a necessidade de os líderes se adaptarem rapidamente a mudanças de contexto e puxarem a “brasa à sua sardinha”, mesmo que isso implique ignorar a razão pela qual chegamos até aqui, mas haja um mínimo de consciência.

Perante a perspetiva de um Governo fragilizado, a possibilidade de uma coligação mais ampla, envolvendo o partido CHEGA, poderá fazer pender a solução para a ilusão de uma maioria estável. No entanto, conhecemos o modus operandi da extrema-direita e essa estabilidade nunca será linear, pois dependerá, sempre, dos humores dos seus líderes.

Continuo a entender que quem ganha deve governar, mas terá de ser a AD a encontrar as pontes para realizar o seu caminho, em detrimento de esperar que outros o façam por si, pois a responsabilidade de dar estabilidade e garantir governabilidade é de quem venceu. Tal como materializado pelo PS em 1996, terá de ser a Coligação a procurar, agora, aquilo que entende ser a melhor solução para governar os Açores.

Aguardaremos os desenvolvimentos dos próximos dias, na esperança de que José Manuel Bolieiro tenha a capacidade de encontrar uma solução estável e que não necessite da extrema-direita pois, garantidamente, o passado dos Açores e das suas gentes, não sairá honrado com o regresso do fascismo a um Governo em Portugal.

Em última análise, a responsabilidade recai sobre o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem cumprirá desvendar o desenlace da solução para o Governo dos Açores.

Em 2024 comemora-se os 50 anos da democracia em Portugal, mas ficará marcado na história como o ano da “crise dos três Governos”, processos marcados pelo envolvimento direto do Presidente da República pois, importa lembrar, em 2020, aquando da constituição do Governo dos Açores, não ponderou devidamente o cenário pós-eleitoral, e em 2023 não avaliou adequadamente a fragilidade da solução na Madeira. Além disso, não explorou, tão pouco, a opção de Mário Centeno para liderar, com estabilidade, os desígnios do Governo da República, promovendo, também por tudo isto, o crescimento da extrema-direita.