“Vou ao Botequim”

Capelo: Tradição e Memórias

A freguesia do Capelo, na ilha do Faial, mantém-se hoje dividida em seis núcleos populacionais: Ribeira do Cabo, Areeiro, Varadouro, Capelo, Canto e Norte Pequeno. Até 1957, no Porto do Comprido, durante os meses de primavera/verão, existia uma comunidade de locais e das ilhas do Pico e São Jorge a residir ali.

Antes da erupção do vulcão dos Capelinhos, a freguesia contava com uma população estável de 1.500 habitantes. Contudo, após a erupção, muitos residentes foram obrigados a emigrar, resultando numa redução significativa da população local, que atualmente é de 528 habitantes (Censos 2021).

A palavra “Botequim”, deriva do termo, “botica”, e do espanhol da Espanha, “bodega”, ambos originados do grego “apothéke”, que significa depósito. No entanto, durante a expansão do Império Romano, as palavras “apotheca” e “apotheké” também passaram a designar farmácia, o que influenciou o surgimento do termo “Botequim”. Mesmo ao longo do tempo, quando esses locais se transformaram em Mercearias, onde os clientes podiam comprar produtos alimentares, incluindo alguns a granel (quando era possível), era comum ouvir-se na ilha do Faial a expressão “Vou ao Botequim”.

Os Botequins foram importantes nas nossas comunidades, servindo como locais de encontro onde as pessoas partilhavam histórias, experiências, onde tinham lugar debates abertos, sobre política e futebol, mas também onde se contavam as novidades, os “mexericos” quotidianos. No entanto, é importante salientar que historicamente esses estabelecimentos eram frequentados essencialmente por homens, refletindo as normas sociais da época.

Na segunda metade do século passado, os “Botequins” passaram em determinadas classes sociais a ter uma conectividade negativa, muito associada ao alcoolismo, renegando, na minha opinião, o papel que esses estabelecimentos comerciais tiveram ao longo de décadas.

No Capelo, havia muitos botequins, devido à sua dispersão geográfica. O Botequim do Pacheco, situado na Rua da Igreja, foi um dos pioneiros, abrindo na segunda metade do século XIX. Era conhecido por vender de tudo um pouco, destacando-se as famosas “agulhas Pacheco”.

Outro estabelecimento notável era a “Chica do Botequim”, localizado no Areeiro, inaugurado no final do século XIX e em funcionamento até ao início da década de 1940. Além de ser uma taberna, possuía uma mercearia e até mesmo uma área onde os médicos faziam consultas.

O Botequim do Óscar iniciou a sua atividade por volta de 1930, localizado onde hoje se encontra o Café do Arreiro. Foi um local onde passei muitos momentos agradáveis, conhecendo muitos antigos pescadores e ouvindo diversas histórias sobre baleação e pesca. Tornou-se um dos principais pontos de encontro da freguesia, servindo como posto dos correios, telefone público, paragem de autocarros, entre outras coisas, além de desempenhar uma espécie de função de assistência social, graças à generosidade do Senhor Óscar Lemos e depois dos seus descendentes, que dava “fiado” e até concedia empréstimos a muitas famílias de recursos limitados.

Outros estabelecimentos merecem menção especial, como o Botequim da Gilda Mota, situado no Varadouro, e o Botequim do Artur, localizado no Lugar do Canto, que também tinha um no Porto do Comprido, onde também se encontravam o Botequim António do Sábado e o Botequim do Patrício. Seguindo essa linha, também se destacavam os Botequins da Maria Paula, da Guinchona, do João da Margarida e da Ana do Alfredo, todos no Capelo. No Lugar do Cruzeiro, eram notáveis o Botequim do Tomás Matos e o do Silveira, enquanto no Norte Pequeno encontrava-se o Botequim do António Alves.

Além desses, inúmeros outros estabelecimentos existiram, sem que haja registos ou memórias específicas sobre eles. No entanto, é inegável o importante papel económico e social que todos esses botequins desempenharam na freguesia do Capelo.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

4 thoughts on ““Vou ao Botequim”

  1. Ao Amigo e Snr. João Garcia.

    Adorei ler a sua crónica: “Vou ao Botequim”!

    Muito bem escrita, – qual documento histórico, – porquanto através da sua leitura, consegue fazer com que vivenciemos a “VIDA” na então freguesia do Capelo, bem como todas as outras freguesias dos Açores e não só, por esse Pais fora…

    No caso, a do Capelo, – território que muito bem conheceu, pois não obstante não ser de lá natural – deu aos Capelenses todo o seu Apoio como Autarca, nos vários mandatos, em que muito bem pontificou, o que eu próprio pude apreciar!

    Cheguei ao Faial nos primeiros dias de 1960, mas pela atividade que desenvolvi durante muitos anos, pude contactar e conhecer, muitos dos proprietários desses esplêndidos estabelecimentos, autênticos “Centros Comunitários”; onde de tudo se falava, se discutia e buscava, como dizes na tua crónica, e até se faziam Grandes Amizades!

    Obrigado pela crónica: É bom “vivermos” o passado, quando ele é tão rico de boas recordações!

    1. Senhor João,
      Muito obrigado pelas suas palavras tão amáveis! Fico contente por saber que a crónica “Vou ao Botequim” lhe trouxe boas recordações e conseguiu transmitir a vida da nossa terra, como eu a vejo.
      É um privilégio saber que, através da sua experiência no Faial, também teve a oportunidade de conhecer esses espaços tão especiais, que sempre foram pontos de encontro e amizade.
      Agradeço novamente pelo seu comentário e por partilhar conosco a sua visão sobre o Capelo e do Faial. É sempre bom poder revisitar o passado e celebrar as boas memórias.
      Com amizade e votos de um feliz ano novo.
      João Garcia

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