Existem referências ao Porto Velho do Varadouro (praia de calhau rolado, por baixo da encosta da Ribeira do Cabo), situado na freguesia do Capelo, na atividade baleeira no século XIX. No jornal “O Fayalense” de 23 de Junho de 1872, menciona-se que as canoas da Casa Bensaude estavam no Varadouro e apanharam uma baleia pequena. O Inquérito Industrial de 1890 refere que naquela freguesia estacionavam duas canoas baleeiras que pertenciam a Manuel Costa Nunes.
Já no início da década de 20 do século passado e conforme se verifica no excerto da ata a seguir a este texto, estabeleceu-se no Varadouro a armação de Manuel Silveira Leal.
Em 1927, esta armação estava preparada para a extração de óleo de baleia mas um temporal acabou por destruir a Casa de Laboração. Estes prejuízos provocaram a falência da armação, “levando o seu proprietário ao suicídio, que por sua vez provocou a demência da sua filha”.
Em 1936, a sua viúva, Maria Garcia Neves da Silveira, preparava-se para reorganizar a armação, mas um ciclone acabou por causar novos prejuízos.
Mais tarde, em 1948, Maria Neves requereu ao Ministro da Marinha a reabertura da armação do seu marido. Tinha como intuito varar as embarcações no Porto da Lapa, que possuía um cais e uma rampa. Este Porto foi cavado nas rochas e caía verticalmente sobre o mar, era estreito e muito inclinado, apresentando, por isso, condições muito más para a prática da atividade. A rampa tinha uma entrada complicada com a maré vazia e só com “mar chão” ou mais obras permitiria o estacionamento regular de canoas baleeiras.
A requerente, caso fosse autorizada a reabertura da armação do seu marido, propunha-se fazer sociedade ou uma cooperativa, integrando os respectivos pescadores; a sua frota seria constituída por embarcações de grande tonelagem que possibilitava o exercício da caça a uma distância da costa que não era ainda abrangida na época, e, desta forma, evitava a concorrência.
No entanto, o Grémio dos Armadores da Pesca da Baleia deu parecer negativo, como se pode observar no excerto do parecer abaixo. Neste sentido, a reabertura da armação não se tornou realidade.
O Posto Baleeiro do Varadouro, no Porto da Lapa, agora chamado Porto Novo, só foi utilizado regularmente na caça à baleia, depois de obras de melhoria e a partir de 1959, depois da erupção do Vulcão dos Capelinhos, com encerramento do Posto Baleeiro do Comprido.
PERTENSAS ARMAÇÕES PARA O FAIAL
“Em 31 de Maio de 1948, dirigiu-se Maria Garcia Neves da Silveira, S. Exª o Ministro da Marinha, em requerimento, a solicitar a reabertura da armação baleeira de seu falecido marido.
Fundamentava a sua pretensão no seguinte:
1.º – que em 1927, quando a armação do seu marido estava preparada para o máximo da sua produção, surgiram temporais que destruíram a sua casa de laboração;
2.º – que estes prejuízos conduziram o marido a uma péssima situação financeira, tendo mesmo levado à sua morte e outras consequências familiares;
3. º – que em 1936 quando pensou em reorganizar a sua frota, um novo ciclone causou prejuízos.
Visitamos o local onde a Senhora pretende varrar as suas embarcações, no caso de lhe ser dada autorização, tratava-se do Varadouro da Lapa. Este é escavado na rocha e cai verticalmente sobre o mar. É estreito e muito inclinado. Não vimos local para construção de barracão arrumar as embarcações ou de uma plataforma.
Informou-nos um representante da requerente que, no caso de ser autorizada a reabertura da armação do seu marido, terá com vista os seguintes pontos:
1.º – que faria uma sociedade ou cooperativa, que integrava nesta os respetivos pescadores;
2.º – a frota seria constituída de embarcações de uma tonelagem tal, que seria possível exercer a pesca a uma distância da costa não abrangida pelas atuais embarcações. Não haveria para o caso qualquer tipo de concorrência;
3.º – que as pessoas que entrassem nesta sociedade são idóneas e com capacidade financeira – Como se poderia verificar.
Parece-nos que não deverá ser autorizada a exploração de mais armações no Faial em condições análogas das existentes, tanto mais que estes laboram com determinado desenvolvimento técnico e de produção.
Por outro lado, parece-nos que os Cetáceos naquelas águas, devido à quantidade de armações que se dedicam à caça, não são em número suficiente para justificarem a existência de outra mais.
Ao mesmo tempo, que já, no Verão, as armações do Norte do Pico, em vista do pouco pescado no Canal de São Jorge, trabalham em coligação com as empresas do Faial.
Para reabertura da sua armação, a requerente tem de possuir instalações industriais exigidas pelo Decreto n.º 11.011. Nestas condições, julga-se que não deve ser autorizada abertura desta armação, pois, além da concorrência que contrabalançaria, a licença para exploração caducou, definitivamente, em virtude de não ser utilizada por mais de 8 anos.
No caso de a exploração ser solicitada em outras condições, deixa-se a quem de direito a faculdade de resolver.
Ainda há outra pretensão existente. É pretendente o Senhor José Maria Vasconcelos Melo, que, em 18 de Março de 1946, pediu a S. Ex.ª o Ministro da Marinha autorização para montagem no Porto dos Cedros de uma armação baleeira composta por 4 embarcações a remos e seis lanchas a motor. Pelas razões já apontadas, é nossa opinião que não deve ser permitida, por enquanto, mais armações naquela ilha.”

Foto: Coleção particular de José Manuel Garcia