Ermidas da Ilha do Faial

A palavra “ermida” tem origem na expressão latina “eremita”, que significa “eremita”, ou seja, uma pessoa que vivia em reclusão, afastada da sociedade. As ermidas eram, assim, locais onde eremitas ou religiosos viviam em isolamento, geralmente para se dedicarem à oração, meditação ou contemplação espiritual. 

Com o tempo, a palavra “ermida” passou a ser associada às pequenas capelas ou locais de culto religioso localizados em áreas isoladas ou com características especiais. 

Na ilha do Faial, ainda existem pelo menos 13 ermidas, assim ordenadas por data de construção: 

Ermida de Santa Bárbara (1500); Ermida de Santo Amaro (1575); Ermida de Nossa Senhora do Pilar (1701); Ermida de Santo António do Castelo (1714); Ermida de Nossa Senhora da Guia (1714 e 1943); Ermida de Nossa Senhora da Saúde (1720); Ermida de São Lourenço (1785); Ermida de Nossa Senhora da Penha de França (1787); Ermida de Sant’Ana (meados Sec. XIX); Ermida de São João (1944); Ermida de Santo António (1964); Ermida de N. S. das Dores (2002); Ermida de Santa Isabel (2010).

Muitos destes templos necessitam de obras de manutenção e até de enriquecimento do seu património. Torna-se assim necessário encontrar, com os seus proprietários, soluções a curto prazo. Esta é mais uma oportunidade para criar um roteiro temático nesta ilha.

Publicado Jornal “Incentivo” – 26 de Outubro de 2023

Resgatar as Termas do Varadouro

Publicado no Jornal “Incentivo” de 9 de Novembro de 2023

As Termas do Varadouro representavam, sem dúvida, uma atração de destaque, devido à qualidade singular das suas águas minerais. Com propriedades terapêuticas comprovadas, estas águas atraíam visitantes em busca de alívio para uma variedade de condições de saúde, como problemas de pele, doenças reumáticas e distúrbios respiratórios. O calor e a mineralização destas águas oferecem benefícios palpáveis, proporcionando alívio para dores, desconfortos e condições dermatológicas. Pessoas de todas as idades dirigiam-se à freguesia do Capelo para desfrutar dos efeitos revitalizantes destas águas curativas.

Para além dos benefícios terapêuticos e de lazer proporcionados pelas Termas do Varadouro, a sua existência desempenhava, e pode voltar a desempenhar, um papel vital no turismo na Ilha do Faial, atraindo visitantes em busca não apenas das propriedades curativas das águas, mas também da beleza natural e da cultura local. Estas termas podem contribuir para o desenvolvimento da economia regional, para diversificação da oferta turística e para a criação de oportunidades de emprego qualificado.

O edifício das Termas do Varadouro, inaugurado em 1954, dotou a Ilha do Faial de instalações termais de destaque, mas o seu encerramento nos anos 90 do século passado marcou o início de um processo de incertezas e justificações. Alegações sobre o desaparecimento da fonte termal, dificuldades na recuperação do furo e a necessidade de encontrar um novo local para perfuração, tornaram-se desculpas recorrentes.

Apesar do potencial inigualável das Termas do Varadouro, a história da sua reabilitação tem sido marcada por desafios e compromissos esquecidos. Iniciativas para revitalizar estas termas foram anunciadas ao longo dos anos, mas obstáculos diversos e falta de ação efetiva terão ditado sucessivos insucessos para este projeto.

Os projetos de reabilitação anunciados sofreram atrasos e reviravoltas, levando a uma série de promessas não cumpridas ao longo dos anos. A mudança de governos e ciclos eleitorais adicionou um elemento lamentável:

Na Ilha do Faial, a estratégia de recuperação será diferente daquela implementada nas restantes zonas do arquipélago. Neste contexto, os responsáveis do passado e do presente, ligados à área do Turismo, concordam que o Governo não irá investir na sua reabilitação, permanecendo à espera indefinidamente de um investidor privado. Em resumo, no Faial, o problema está a ser abordado de forma distinta. Nas Ilhas Graciosa e São Miguel, foi o Governo que se encarregou da recuperação das Termas do Carapacho e das Termas da Ferraria.

É desanimador, até dói olhar para aquele belo edifício a degradar-se irremediavelmente, devido à negligência e desleixo. As casas circundantes, adquiridas para fazer parte do processo de recuperação, conjuntamente com as antigas casas das termas, são uma imagem degradante. Deverá haver uma justificação para, sistematicamente, o património sob a alçada das entidades públicas nesta ilha estar quase todo num estado deplorável, e será importante perceber a razão pela qual encolhemos os ombros perante estas situações.

É essencial que a comunidade local, as instituições e os líderes políticos locais trabalhem em conjunto para resgatar este tesouro natural que não deve ser relegado ao esquecimento, mas sim desenvolvido para proporcionar benefícios significativos à saúde, ao turismo e à economia da Ilha do Faial.

Em síntese, as Termas do Varadouro não são apenas um edifício, mas uma oportunidade que há quase 30 anos aguarda a concretização de ações que cumpram os compromissos assumidos com os faialenses.

Miradouro da Costa Brava

Este maravilhoso miradouro ficava localizado na freguesia da Praia do Norte, sobre uma das costas mais deslumbrantes dos Açores. Foi completamente destruído pelo terremoto de 1998 e, naquela época, era considerado irrecuperável do ponto de vista técnico. No entanto, felizmente, houve avanços significativos nos últimos 25 anos no campo da construção civil e nas técnicas utilizadas. Em todo o mundo, vemos soluções inovadoras sendo aplicadas em pontes, miradouros e locais remotos e inóspitos. Por esse motivo, deveriam as entidades competentes reconsiderar a possibilidade de recuperar o Miradouro da Costa Brava, aproveitando as melhorias nas técnicas que agora permitem abordar novas soluções arquitetônicas. 

Publicado no Jornal “Incentivo” – 26.10.2023

Vista do Miradouro – 1970 – Parte virada para a Ponta da Freguesia dos Cedros
Vista do Miradouro – 1970 – Parte virada da Praia do Norte
Miradouro da Conta Brava – 1970 – Freguesia da Praia do Norte (Cecilia Terra, Luís Andrade e Elvira Terra)

Tempo dos Baleeiros – “The Western Islands”

Os primeiros relatos de captura de baleias no mar dos Açores remontam ao século XVI, embora apenas no início do século XVIII, com a chegada dos navios baleeiros americanos, possamos afirmar que o tempo dos baleeiros açorianos teve início. Não podemos, com base no relato de Gaspar Frutuoso, assegurar que a baleação nos Açores tenha começado na nossa ilha, mas podemos afirmar com toda a certeza que o Faial foi o berço dessa atividade no arquipélago (e, aliás, em todo o território nacional) até o início do século XX, mantendo uma atividade intensa e regular até 1984, o fim do segundo período de caça à baleia. É esta história que necessita de ser relatada e colocada no seu devido lugar. A ilha do Faial tem uma relação muito própria, no contexto açoriano, com o mar, e, por isso, é de grande importância recuperar esta memória relevante para que a possamos compreender e transmitir às futuras gerações, incluindo nossos filhos e netos. É essencial que as gerações vindouras saibam o esforço de muitos para construir cada pedaço desta terra.

Porto da Horta – Final do XIX

A notável Flying Sharks


Desde 2013, a Flying Sharks e o Aquário de Porto Pim têm estado em estreita colaboração com a Direção Regional de Políticas Marítimas, a entidade responsável pela Rede de Arrojamentos de Cetáceos dos Açores (RACA), o Parque Natural, o Okeanos e a clínica veterinária ValVet para realizar um programa de reabilitação de tartarugas marinhas.

Até à data de hoje, foram acolhidas 39 tartarugas provenientes de várias ilhas, sendo que 29 foram libertadas com sucesso. Trata-se, na maioria dos casos, de tartarugas-bobas (Caretta caretta) e algumas tartarugas-verdes (Chelonia mydas). Este programa também colabora com o projeto COSTA (COnsolidating Sea Turtle Conservation in the Azores), cuja missão é garantir a conservação das tartarugas marinhas nos Açores e do seu habitat oceânico no Atlântico, através da monitorização, investigação, educação ambiental, formação técnica e apoio à tomada de decisões.

No início de 2022, foi encontrada, nas águas frias do norte da Escócia, uma pequena tartaruga-boba extremamente debilitada, provavelmente arrastada por correntes até uma latitude onde dificilmente sobreviveria. Após quase 2 anos de recuperação nos aquários Sea Life de Loch Lomond e Sea Life de Scarborough, a tartaruga foi transportada, em parceria com a Flying Sharks, para a ilha do Faial, onde foi finalmente libertada a 2 de setembro deste ano.

É notável o trabalho realizado por esta empresa e a visibilidade que dá a esta ilha. Talvez a antiga fábrica de secagem de bacalhau, onde estava prevista a construção de um aquário virtual com um investimento de um milhão e meio de euros, tenha sido uma melhor aposta ao criar um centro de apoio ao salvamento de espécies marinhas, que agora serve como sede da empresa e um centro didático – o Aquário de Porto Pim.

Fonte: Rui Guedes (Flying Sharks)

Este trabalho (libertação da tartaruga Iona) teve uma grande visibilidade como por exemplo BBC, The Independent, etc…

https://www.bbc.com/news/uk-england-york-north-yorkshire-67021532

https://www.noticiasaominuto.com/pais/2414946/tartaruga-libertada-nos-acores-20-meses-apos-ser-resgatada-na-escocia

“Villa Italiana”

Localizada na Rua Vasco da Gama, próximo da entrada do antigo Liceu da Horta, na ilha do Faial, encontra-se um edifício construído no século XIX pela empresa “Casa Dabney & Sons”, que nele manteve os seus escritórios. Ao longo de muitos anos, pertencendo à Santa Casa da Misericórdia da Horta, serviu como a Alfândega da Horta. Atualmente, encontra-se desocupado e disponível para venda. 

Estou de acordo com a ideia de que devemos esperar para ver se há investidores privados interessados em adquirir essa propriedade. No entanto, as autoridades públicas não devem negligenciar este processo, tendo como princípio a preservação de um imóvel histórico na nossa cidade, evitando que este se degrade, à semelhança de alguns maus exemplos que temos, com destaque para a Trinity House. 

Em frente à entrada da Marina da Horta encontramos os edifícios, conhecidos como armazéns da “Relva dos Dabney”. Foram usados também pela “Casa Dabney & Sons” para armazenamento dos produtos comerciais, em particular, os vinhos, a laranja e os barris de óleo de baleia. Hoje, este espaço, de propriedade privada, encontra-se o “Oceanic Café”.

Artigo: Publicado no Jornal Incentivo de 26 de Outubro

Villa Italiana – Escritório da antiga companhia “Casa Dabney & Sons”

O Castelo de S. Sebastião

Lisboa, 2 de janeiro de 1820

Da ilha do Faial escrevem o seguinte:

“No dia 4 de novembro, em aplauso e celebridade ao faustíssimo aniversário do sereníssimo Infante, o Senhor D. Sebastião, prezadíssimo neto dos nossos augustos reinantes, fez o ilustríssimo governador desta ilha do Faial ajuntar no seu quartel do governo toda a oficialidade das três linhas, vestida toda de uniforme rico, para dali o acompanharem a um castelo recentemente reedificado, ou para melhor dizer de novo feito, ao lado sul da ilha, o qual defende a entrada duma baía excelente denominada de Porto Pim, onde o dito ilustríssimo governador ás horas costumadas tinha mandado içar o Real Estandarte, e pôr uma guarda de oficial. Depois de feitas as continências do estilo, mandou formar em linha todos os oficiais com distinção de corpos e graduações, juntos ao real estandarte, ficando ele e os oficiais superiores e oficiais de ordens um pouco mais próximos ao dito estandarte, e então saindo com toda a dignidade e respeito à frente dos oficiais, depois de uma enérgica e breve oração que foi escutada com toda a devida atenção, fez saber, que a denominação daquele Castelo ficava sendo de – Castelo de S. Sebastião– em atenção a tão plausível dia. O que muito louvaram todos os oficiais e muitas pessoas da primeira distinção, que quizeram ter a honra de assistir a este acto.

Foi depois, o ilustríssimo governador com todo o acompanhamento ao Castelo de Santa Cruz, e ali mandou soltar todos os presos, passando depois ao seu quartel do governo, onde recebeu alguns oficiais, que quizeram aceitar o seu convite, e nessa noite deu uma regular partida, a que concorreram espontaneamente a maior parte da nobreza desta ilha. O castelo ficou guarnecido pela guarda de oficial nesse dia e agora continua com uma guarda menor. Todas as fortalezas se conservaram embandeiradas, assim como os navios que se achavam fundeados, tanto na grande baía defronte da Vila da Horta, como na de Porto Pim.”

In; Gazeta de Lisboa, nº 2, ano 1820

Forte da Greta

Também conhecido como Forte de Nossa Senhora da Guia ou Castelo da Greta, encontra-se na ponta da Greta, na freguesia das Angústias, na cidade e concelho da Horta, na ilha do Faial, nos Açores. Foi construído a partir de 1666, nas encostas do Monte da Guia, numa posição estratégica que dominava a Baía da Horta, fazendo parte do sistema defensivo da ilha contra os frequentes ataques de piratas e corsários que ocorriam nessa região do Oceano Atlântico.

No contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1702-1714), é mencionado como “O Forte de Nossa Senhora da Guia na ponta da Greta” no registo das “Fortificações nos Açores existentes em 1710”.

Na década de 1950, nas suas proximidades, foram construídas duas plataformas elevadas destinadas à instalação de radares de vigilância marítima, hoje desativadas. Uma delas caiu recentemente, devido ao vento, e prevê-se que a outra também colapse se não for demolida rapidamente, constituindo um perigo para quem desconhece a situação daquela torre.

Em meados do século XX, com a abertura da estrada do Monte da Guia, partes da antiga edificação foram demolidas. Os remanescentes encontram-se atualmente em ruínas. Ano após ano, a infraestrutura do Forte degrada-se, resultando na perda de mais um marco histórico do Faial e dos Açores. Não se pretende a recuperação da fortificação, mas sim a implementação de um plano de preservação para o que resta, como esteve previsto em 2012, embora os trabalhos de levantamento aparentemente tenham sido abandonados.

É lamentável que o património histórico seja frequentemente mencionado pelas piores razões, mas infelizmente, ainda não se reconhece o seu potencial turístico. Estamos atrasados, mas ainda a tempo de salvar o que resta.

Fotos: Hugo Duarte – copyright: “todos os direitos reservados

Foto: Coleção de José Manuel Garcia – Fotografias Forte da Greta

Foto: Carlos Sousa – “Queda da torre norte monte da guia com o vento forte que se fez sentir no domingo.16-10-2023”

Capitão Florêncio Terra

O meu Trisavô Florêncio José Terra Brum nasceu na Horta, na ilha do Faial, em 1825. Filho de José Francisco da Terra Brum, o primeiro barão de Alagoa, e de Olinda Mariana Santos, casou-se com Maria dos Anjos da Silva Sarmento, com quem teve três filhos: Elvira dos Anjos Terra, Florêncio José Terra e Júlia Terra.

Florêncio Terra foi Capitão da Marinha Mercante, tendo comandado o primeiro paquete da Empresa Insulana de Navegação (E.I.N), chamado “Atlântico”, entre 1871 e 1877. Este navio tinha 1032 toneladas e foi o primeiro navio a vapor/velas da companhia. Media 67,60 metros de comprimento por 8,10 metros de largura. Foi construído nos estaleiros J. Key, em Kinghorn, na Grã-Bretanha, sendo lançado ao mar em 28 de junho de 1866. Originalmente, pertencia à Union Steam Ship Company e foi registado pela primeira vez na capitania do porto de Southampton com o nome original de “Dane”. Quando passou a hastear a bandeira azul e branca do Reino de Portugal, o navio estava preparado para acomodar 110 passageiros em condições relativamente confortáveis. O sistema de propulsão do “Atlântico” consistia em uma máquina a vapor e uma hélice, além das velas redonda e latina içadas nos seus dois mastros. Com esta aquisição, a E.I.N passou a operar rotas regulares com Lisboa e a Madeira.

O Capitão Florêncio Terra também comandou o brigue “Nytheroy”, com 145 toneladas, e o “Neptuno”, onde veio a falecer aos 52 anos, no dia 27 de dezembro de 1877, numa viagem entre a ilha Terceira e a Ilha de São Miguel.

Durante a sua vida, ele navegou dos Açores aos portos de Lisboa, Rio de Janeiro, Madeira e Cabo Verde sem a assistência de faróis, uma vez que estes ainda não existiam na maioria das ilhas dos Açores. O Capitão Florêncio Terra desempenhou um papel crucial na implementação de faróis em várias ilhas, contribuindo com sua vasta experiência e conhecimento para a colocação estratégica destes em vários pontos da costa dos Açores.

Capitão Florêncio José Terra Brum
Navio “Atlântico”
Navio “Neptuno”