Publicado o Jornal “Incentivo” de 12 de Março de 2023
Vivemos um momento sem precedentes na história política recente de Portugal, onde crises políticas simultâneas no Governo da República e nos Governos das Regiões Autónomas nos conduziram a duas eleições, sem que destas resultasse um incremento da estabilidade política, económica e social, aliás bem pelo contrário. O presente cenário é um dos mais desafiadores momentos dos 50 anos da democracia portuguesa, num ano em que deveria ser, apenas, de celebração. Assim não o entendeu o Presidente da República que, mais uma vez, decidiu ser protagonista, motivando e sendo o principal responsável pela situação instabilidade que vivemos.
É inegável que esta situação também resulta de uma conjuntura global, transversal, onde todos nós contribuímos, de alguma forma, ainda que por omissão, para o processo de degradação da democracia. Deixámos que ocorressem divisões, em alguns casos perfeitamente desnecessárias, no seio da sociedade e vivemos em constante depressão mediática, criando condições vantajosas para o avanço dos que fazem da superficialidade e da propaganda a arma para nos iludir.
Não podemos, em nome da liberdade e dos valores democráticos, continuar no conforto do sofá, assimilando, por vezes sem qualquer filtro crítico, as opiniões de um conjunto de comentadores, frequentemente com “agendas” pessoais que até são, mais ou menos, conhecidas.
As mais recentes campanhas eleitorais foram marcadas pela ausência de projetos e ideias para o futuro. As estratégias utilizadas nestas campanhas remontam há duas décadas, relegando o debate estratégico para as próximas décadas e o que verdadeiramente interessa às pessoas para segundo plano.
Em paralelo verificamos uma crescente tendência de “certas pessoas” migrarem de um partido para outro, conforme a sua conveniência pessoal de poder, escolhendo sempre o lado que lhes pode garantir vantagens. A situação e credibilidades dos agentes e estruturas políticas não melhora quando políticos e membros da sociedade mudam de posição, abandonando os seus passados e posições que publicamente assumiam, em prol do que lhes é individualmente mais conveniente, num fenómeno conhecido como “sobrevivência da palhinha”. Infelizmente, os partidos políticos continuam a acolher este tipo de indivíduos, carentes de integridade para se manterem fiéis e leais a si próprios. Chega de recorrer a táticas ultrapassadas, que minam a confiança e degradam a nossa democracia.
Indivíduos anteriormente desconsiderados politicamente encontram, de repente, espaço num cenário político marcado por extremos, onde uma minoria de votos garante um lugar no governo. A memória é breve e seletiva, mas aqueles que mantêm a lucidez não vão ignorar ou aceitar como coincidência outros que, num passado bem recente e publicamente, os rotulavam como um problema ou incapazes de liderar e que agora aparecem como os amigos de uma vida.
O desafio reside em encontrar líderes capazes, comprometidos com o bem comum e motivados para unir diferentes partes da sociedade em torno de um objetivo comum. Devemos priorizar políticos com visão, integridade e habilidades de liderança sólidas. A verdadeira liderança vai além da retórica e das aparências; ela exige um compromisso genuíno com os interesses da sociedade e a capacidade de tomar decisões difíceis em tempos de incerteza e desafio.
Neste momento crucial para o regime em que vivemos, é essencial que olhemos para além das figuras políticas individuais e nos concentremos nos princípios e ideais que sustentam uma sociedade livre, justa e próspera. Apesar deste ser um momento difícil para a democracia, deverá ser encarado por todos como um ponto de partida, uma oportunidade para a sociedade se autoavaliar e de se preparar para próximos atos eleitorais, sejam eles a curto ou a médio prazo. Não podemos permitir que aqueles que no passado lutaram pela defesa dos valores basilares de “Abril”, por nós e pelas gerações futuras, enfrentem retrocessos políticos e até mesmo civilizacionais.
Não é “tudo igual!”. Devemos aprender a separar as ideologias e o fanatismo partidário das boas ideias, concentrando-nos no objetivo de criar uma sociedade mais igualitária e justa. Este é o momento de exigir uma liderança que esteja verdadeiramente comprometida, responsável com o bem-estar coletivo e que trabalhe incansavelmente para alcançar esse desiderato, tendo a coragem de colocar as pessoas e a democracia acima dos interesses partidários.
A Horta, epicentro da caça à baleia no Atlântico Norte, representa uma era de vigor e tenacidade, onde homens e mulheres de fibra enfrentavam as barreiras das distâncias e as dificuldades impostas pela natureza através do trabalho manual. Dia após dia, contribuíam para a construção das ilhas, dando-lhes forma e uma narrativa que merece ser resgatada e partilhada.
O período da baleação traz consigo não apenas aromas, lendas, tristezas e alegrias, mas também um legado que se estende ao passado, presente e futuro. Os primeiros registos de capturas de baleias nos mares dos Açores remontam ao século XVI, mas foi apenas no início do século XVIII, com a chegada dos navios baleeiros, que se pode afirmar o início da era dos baleeiros açorianos.
Apesar de não se poder confirmar com precisão através dos relatos de Gaspar Frutuoso que a baleação nos Açores teve início na nossa ilha, podemos afirmar com toda a certeza que o Faial foi o berço desta atividade no nosso arquipélago, mantendo uma atividade intensa e regular ao fim do 2.º período da caça à baleia.
O Porto da Horta, onde tudo começava, fervilhava de atividade no século XIX. O comércio de laranjas, vinho e óleo de baleia misturava-se com o inglês nas ruas e tabernas, enquanto os açorianos eram recrutados para completar as tripulações baleeiras americanas, estabelecendo uma forte ligação entre a Horta e a Nova Inglaterra, especialmente com Nucketet e New Bedford.
“O desenvolvimento da caça da baleia traz à Horta, durante todo o séc. XIX, as frotas baleeiras, que se abrigam em Porto Pim para refrescar as tripulações e engajar arpoadores e remadores açorianos, famosos pela sua coragem e destreza. Nesse período as ruas eram percorridas por marinheiros que quebravam com os seus berros e cantigas avinhadas a tranquilidade noturna. A construção do cais, iniciada em 1876, atraiu à cidade os navios a vapor, que nele faziam o reabastecimento de carvão. A Horta fazia parte da gesta desses homens rudes que partiam de New Bedford para regressarem, anos depois, cansados, doentes e nem sempre ricos. A Horta figurava, por esse motivo, no ciclo rama pintado sobre pano que era exibido, de cidade em cidade dos Estados Unidos, para mostrar a vida dos baleeiros. Os seus portos de escala, a sua dura faina. Eram dezenas os baleeiros que, nos meses de Primavera e Verão, se abrigavam por detrás dos Montes Queimado e da Guia”.
Em 1765 terão começado a aportar ao Faial os primeiros navios baleeiros provenientes de New Bedford, os quais praticavam a designada “baleação pelágica”. Estes navios, para além de transportarem as pequenas canoas utilizadas para a caça propriamente dita, possuíam, também, a capacidade de processar os grandes cetáceos, derretendo e armazenando a gordura dos mesmos.
A partir do Porto da Horta, a baleação expandiu-se pelo arquipélago, enquanto tripulantes locais eram clandestinamente recrutados, destacando-se pela sua excelência como marinheiros e baleeiros, alguns tornando-se comandantes de navios baleeiros americanos durante o século XIX. Esse processo de recrutamento marcou o início de uma onda de emigração dos faialenses para os Estados Unidos, com New Bedford servindo como principal destino e ponto de fixação dessa comunidade.
A geminação entre a Horta e New Bedford, formalizada na década de 90 do século passado, foi o ponto culminante de uma série de conexões históricas, sociais, económicas e culturais que remontam ao século XVIII.
Deste modo, não podemos desconsiderar a história e limitá-la apenas ao passado mais recente. A Horta foi, efetivamente, a Capital Baleeira do Atlântico Norte, e é surpreendente que ainda não tenha sido criado um monumento que simbolize e dê a conhecer este período de prosperidade que o Faial viveu.
Arquivo dos Açores e Jornal “O Telégrapho” de 1895
“A título de curiosidade histórica, de valor bastante apreciável, vamos publicar uma memória do vulcão do Capelo em 1672, e que existiu inédita até 1884, época em que foi oferecida à redação do «Arquivo dos Açores» pelo Senhor capitão de caçadores 11 Henrique José das Neves, que mais uma vez esteve entre nós, comandando alguns destacamentos.
Em tempo foi-nos prometida uma cópia textual do autógrafo existente no respetivo arquivo paroquial, mas nunca a podemos obter.
Na freguesia do Capelo existem algumas cópias, duas ou três, quando muito.
Nesta narrativa, mandada arquivar em algumas visitas pastorais dos Exmos. Prelados Diocesanos, contam-se factos que não aparecem mencionados nos autos oficialmente lavrados e que tratam daquela calamidade.
No domingo passado cumpriu-se mais uma vez o voto feito ao Divino Espírito Santo por aquela triste ocasião, por isso achamos de atualidade publicar aquela narrativa, que entre nós é tão pouco conhecida ou quase totalmente ignorada.
Conserva-se-lhe a ortografia primitiva para nada se tirar do seu valor histórico.
Cabeço do Fogo (data da foto desconhecida)
“Santíssima Trindade do lugar do Capelo desta Ilha do Faial. Certifico, que pelo ano de 1820 a 1832 se achava no Arquivo desta mesma Paroquia um fragmento de um livro, que tinha por titulo «Memórias da Freguezia do Capello» do próprio punho do Reverendo Diogo Soares Sarrão, primeiro Vigário próprio, que foi desta mesma Igreja depois do fogo do ano de 1672, e eu abaixo assinado, vigário próprio da Igreja Paroquial que deixou de existir no dia 17 de Julho de 1700, contando de sua idade 80, pouco mais ou menos, e por esta razão julgo ter ele nascido pelo ano de 1626: 46 antes do dito fogo. Este fragmento foi por muitas vezes visto, e lido por mim, ainda que com muito custo, pelo mau estado em que se achava, e dele tirei algumas cópias, que uma d’elas é a seguinte:
Tiveram princípio os tremores de terra nesta a 20 por andar do mês de Setembro de 1671, sendo estes mais frequentes de noite. Foram aumentando com tão forte violência, que já em dezembro do mesmo ano horrorizavam os viventes, os animais em lugar de andarem pastando corriam para a parte oposta em que sentiam o tremor, ainda que a estação invernosa fosse a mais desabrida das que temos encontrado em nossos dias, as ribeiras não cansavam de dia e noite em levarem casas e ariarem frutíferos vales, parecia que a terra criava de dia novos alentos para seus amiudados e impetuosos movimentos.
Pelo mês de Fevereiro de 1672 achando-se o povo desta freguesia tanto horrorizado, que começaram a desemparar as suas casas e habitavam em pequenas barracas construídas tão-somente, umas de palha e outras de leivas.
Este horror não acompanhava a todos, porque entre eles havia alguns dos mais abastados, que apoiados por um certo capitão…se abalançavam a perseguir seu Pároco, para ser admitido em seu lugar um filho do mesmo Capitão, a quem o dito Pároco tinha instruído até ser ordenado.
Pelo meio d’Abril daquele ano, em um dos dias mais brilhantes daquela primavera, tendo precedido a noite mais tranquila que temos visto, ainda que a terra parecia a pendula de um relógio, que demasiadamente se adianta, antes que o sol doirasse o cimo das montanhas, saiu da sua barraca o Pároco e circulando a Igreja, o que fazia todas as madrugadas, para examinar alguma ruína; acha uma das portas aberta, entra e vê que o tesoureiro arrumava alguma lenha na loja do Camarim; increpou ao dito tesoureiro de praticar tal profanação, este encolerizado lhe responde «ainda esta não é a maior que há de haver hoje» e saiu apressadamente. Ficou o Pároco em conjeturas, mas logo lhe ocorre, que seria mais prudente para evitar males maiores, retirar-se para a vila da Horta, onde não faltaria uma casa religiosa, que o acolhesse até que seus inimigos se acalmassem.
Volta á sua casa e precipitadamente se põem em fuga com seu escravo, única pessoa da sua família. Retira-se da estrada para não ser encontrado, pelo medo que tinha de o seguirem, toma uma vereda, que lhe parecia que ia finalizar nas encostas da Ribeira Brava, mas engana-se, porque a vereda só chegava ao portão de um bosque que distava da povoação, 1/8 de légua, não lhe convém voltar, atravessa densos e copados arvoredos, sobe e desce altas paredes ajudado por seu escravo; com voltas e revoltas pelo meio-dia ainda se achava a oeste da Ribeira Brava, mas já na estrada, continua sua derrota, atravessa a Ribeira Brava, sobe parte da montanha, e tanto, que avista parte da Freguesia de Castelo Branco, considera-se livre de todo o perigo: senta-se a descansar e já familiarizado com os contínuos movimentos da terra, dava mais valor á sua desgraça em um país estranho sem socorros d’amigos e parentes. Assim se achava este aflito fugitivo, quando deu a terra um tão forte abalo, acompanhado de um urro que parecia um espantoso trovão e estando o tempo tão claro, logo apareceu o cabeço de Rilha-boicoberto de uma cinzenta nuvem e dentro dela saíam de, quando em quando urros espantosos. Seguiu o Pároco seu destino, e não tardou saírem-lhe ao encontro dois religiosos, a perguntarem onde tinha rebentado o fogo. O Pároco só satisfez em narrar o que tinha passado e visto naquele dia. Os religiosos ali o fazem deter até que voltando o acompanham até seu convento, que foi pela noite.
O fogo era tanto que arrebentou em uma concavidade no cimo de Rilha-Boi, lançou duas lavas, uma para o norte, e outra para sul, esta gastou menos tempo em chegar ao mar, destruindo toda a povoação da Ribeira Brava, junto com a Capela da Senhora da Esperança, onde havia um cura Pároco, subordinado à antiga Paroquia. A do norte gastando mais tempo parou no lugar chamado os Lameiros, mas depois de alguns tempos rebentou um dos tais Lameiros e foi este o fogo que destrui toda a freguesia, junto com Igreja Paroquial, convertendo em cantilados rochedos de pedra queimada as mais férteis terras de toda a ilha ficando os habitantes desta freguesia reduzidos a mais extrema pobreza. Os que puderam sair para a parte de Castelo Branco e Cedros, foram felizes, ainda que iam mendigar uma esmola, mas os que ficaram acantoados na Ponte dos Alfaiates, foram mais dignos de compaixão pelo desastre em que ao depois se viram. Vendo estes que a lava da parte do sul tinha parado logo que chegou ao mar e da parte do norte chegara até aos Lameiros, julgaram que o fogo por ali parava, e por isso se acolheram ao Canto dos Alfaiates, onde alguns deles tinham terras.
Passados alguns tempos vendo que o fogo novamente arrebentava e não podendo sair para um e outro lado, por ali ficaram, esperando o infeliz instante de serem vítimas da sua fatal destruição.
O fogo não passou da Fajã do Toiro ao este, nem da Ponta Ruiva do sul para sudoeste, contudo as fontes se quebraram e a terra não se podia pisar a pé nu, as plantações e as ervas secaram de modo que estes desgraçados não tinham coisa naquele espaço de campo tão curto, que lhe servisse de socorro para a vida. Deus que nunca se esquece daqueles que nele confiam, tocou vivamente os corações dos habitantes de toda a ilha mormente os habitantes da Horta para com suas esmolas socorrem estes desgraçados em número de 70, não entrando mulheres e crianças. As esmolas e até a água, eram conduzidas em pequenas embarcações ao Lagido dos Alfaiates, a quem o mar se mostrou grato em quanto durou esta necessidade. Em Março do ano seguinte começou a terra a brotar e animados com este convite obtiveram de seus benfeitores algumas sementes que lançadas à mesma terra, produziram em muito menos tempo do que em anos antecedentes.
Foi neste mesmo ano, que eles construíram uma Ermida no mesmo lugar, coberta de palha, dedicada á Senhora dos Milagres, que serviu de Paroquia até o ano de 1680, altura em que o vigário Diogo Soares Sarrão deu princípio á fatura da nova Igreja Paroquial….»
É o quanto pude colher do dito fragmento, deixando alguns por os não poder entender, em razão do papel estar tão desfeito que pouco ou nada se entende, ainda mesmo do que levo dito me custou a juntar, mas sem faltar ao sentido verdadeiro da história.
Ainda que o senhor Bispo D. Frei Clemente Vieira em sua visita de 4 de Setembro de 1690 mandasse fazer esta memória circunstanciadamente, contudo sempre se omitiu vários factos pelas ameaças dos parentes do tal capitão como se vê não só da tradição, se não também contentar-se o redator por este sinal…quando lhe é necessário declarar seu nome. Estes mesmos ameaços, ainda existiam pelo ano de 1762 como se vê da visita do senhor Bispo D. António Caetano da Rocha de 16 de Outubro, em que estranhou a falta de se cumprir o que ordenara o Bispo D. Frei Clemente Vieira…
Passando-se umas poucas de páginas do mesmo fragmento, sem que se possa conhecer uma só letra, se acha uma nota que parece ser do próprio punho do Reverendo António de Mello, vigário próprio que foi desta Paroquia pelo ano de 1757, em que diz o seguinte:- É tradição bem fundada, que com verdade posso afirmar, que o vigário fugitivo já tinha noticia, dias antes, que tencionavam lançar fogo à sua casa, mas como na madrugada daquele dia vira que o tesoureiro entulhava a loja do Camarim de lenhas, conjeturou que era a Igreja. Achou-se o Sacrário aberto, e examinado pelo Cura, não achou Sacramento. Julga-se que o dito Vigário o consumira, mas se disse ou não missa, isso se não pode afirmar. A dúvida que há é se foram os Franciscanos ou os dois religiosos Jesuítas que saíram ao encontro do Vigário fugitivo. É provável que fossem os Jesuítas, pelas razões seguintes – A pequena Imagem da Senhora dos Milagres, que levara o Reverendo Vigário fugitivo, foi restituída pelos Jesuítas, na ocasião que se edificou a Ermida dedicada à mesma Senhora, no Canto dos Alfaiates.
Quiseram os Jesuítas pôr suas armas no frontispício da nova Igreja; e foi tal a contenda, que eles tiveram com o Vigário Diogo Soares Sarrão e o povo, que o, não puderam fazer, mas sim as puseram na Sacristia dos Clérigos acima do Purificatório, (que ainda hoje se conservam). Quando o fogo arrebentou segunda vez da parte do norte no lugar chamado os Lameiros, fez um Morro a que lhe chamam Perguinito, (Picarito) este ficava na frente da casa do Capitão… onde se achava com sua família na cultura de suas terras naquela ocasião, este lugar ainda hoje se chama as Casas Velhas.
O sítio em que se achava a Igreja Paroquial, que o fogo consumiu, sem que escapasse cousa alguma, se chamava, Miga no Leite. O lugar onde está a Capella da Senhora da Esperança ao sul, hoje se chama a Cruz da Malha de lá. O cabeço do Rilha-boi se chama hoje Cabeço do Fogo, o que se acha a leste deste, que antigamente se chamava Cabeço do Espinheiro, hoje é o Cabeço Verde. ARibeira Brava, hoje Ribeira do Cabo. A Fajã do Toiro no norte, conserva o mesmo nome. A Ponta Ruiva ao sul, hoje se chama a Assada. A antiga freguesia tinha três estradas além d’outras veredas, a que ia para a parte dos Cedros se chamava o Caminho do Rosa, que hoje ainda se conserva o mesmo nome. A que vai para a vila, Caminho do Broto, hoje Canada dos Frades. A que ia para a povoação da Ribeira Bravacaminho das Camarinhas, hoje Caminho do Goularte, Trupes, Alto dos Cavacos, Raposaia ou Barreiro (?).
É tradição que a antiga Paroquia se compunha de cento e tantos fogos; e a Capela da Senhora da Esperança, isto é a povoação da Ribeira Brava com pouca diferença para menos…
Faltando algumas páginas no tal fragmento, a primeira que se encontra diz o seguinte:
Fundos, para o Divino Culto do Diviníssimo e Santíssimo Senhor Jesus Sacramentado nesta Paroquia da Beatíssima e Santíssima Trindade, freguesia do Capelo feito pelo ano de 1731».
O mais que na referida memoria se segue diz respeito a notas de foros d’uma Irmandade do Santíssimo, ereta naquela freguesia ao tempo em que a narrativa foi arquivada.”
Pesquisa e Fotografia: José Manuel Medina Garcia
Cabeço do Fogo (data da foto desconhecida)
Neste mapa do Parque Natural do Faial pode-se observar a localização do Cabeço do Fogo
Publicado no Jornal “Incentivo” de 5 de Março de 2024
Casas dos Florestais e dos Cantoneiros – No início do século XX, os Serviços do Estado realizaram grandes investimentos na plantação e conservação de florestas, na limpeza de trilhos e na regulação da caça, construindo as “casas dos Guardas-Florestais” para melhorar as condições de trabalho dos envolvidos. Algumas dessas infraestruturas serviam de habitação, enquanto outras funcionavam como locais de descanso ou abrigo para equipamentos, como as “casas dos cantoneiros”. Infelizmente, as casas recuperadas entre 2006 e 2009 no Parque Natural do Faial estão agora completamente abandonadas e a deteriorar-se, incluindo duas utilizadas pelos visitantes da Caldeira. É crucial evitar o seu desaparecimento e desenvolver planos de manutenção para preservar este património.
Fonte das Areias – Localizada na freguesia do Capelo, encontra-se num estado lamentável, após ter sido totalmente reabilitada em 2012, refletindo o abandono do património. Este importante legado da família Dabney foi a primeira fonte de água potável daquela freguesia, melhorando a qualidade de vida dos seus habitantes. Atualmente inserida no Trilho dos Dez Vulcões, atento o seu valor patrimonial e visibilidade, urge apelar à sua reabilitação.
Cinquentenário das Casas do Povo – Tem-se vindo a assinalar o 50.º aniversário das Casas do Povo na nossa ilha, instituições que merecem uma saudação especial pelo papel social, desportivo e cultural que desempenharam nas últimas cinco décadas. A minha proximidade à Casa do Povo do Capelo permitiu-me acompanhar de perto e testemunhar a sua importância. Esta instituição oferece uma variedade de serviços, incluindo apoio social a idosos, cuidados infantis, serviços de saúde, atividades culturais e desportivas. As Casas do Povo têm sido pilares essenciais nas comunidades locais, contribuindo significativamente para o bem-estar e desenvolvimento das mesmas. São Instituições Públicas de Solidariedade Social que devem merecer todo o apoio e carinho, onde assume particular destaque o papel voluntário de todos os dirigentes que mantém estas importantes entidades a funcionar.
Centenário – As celebrações do Sporting Club da Horta continuam em curso, com momentos de elevada qualidade, como é o caso da exposição que está patente na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça até ao dia 24 de maio, evidenciando a importância dos clubes no dia-a-dia da ilha do Faial. Destaca-se o excelente trabalho realizado pela equipa do Museu da Horta e pelos sócios que deram um contributo valioso, especialmente José Manuel Medina Garcia. Na inauguração, que teve lugar no passado dia 16 de janeiro, esteve presente a Diretora do Museu do Sporting Clube de Portugal, Isabel Vitor, que proferiu uma palestra. Recorda-se que o Clube da Rua Eduardo Bulcão é a 80ª filial do Clube de Lisboa. No dia 16 de fevereiro, o Teatro Faialense acolheu a celebração do centenário do 1.º Sarau Musico-Literário, um momento muito bem-sucedido, perante um grande número de pessoas, onde fomos transportados pela história do Teatro na nossa ilha.
Estas iniciativas merecem elogios, pois enriquecem a nossa cultura e promovem o espírito comunitário que tivemos e necessitamos de continuar a ter. O empenho demonstrado pelos organizadores e participantes reflete o amor pela preservação das nossas tradições desportivas e culturais locais.
Habitação – No âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência, a Câmara Municipal da Horta irá disponibilizar, a médio prazo, 80 habitações, uma medida excelente para fixar jovens e proporcionar habitação adequada a quem dela necessita. Esperamos que o Governo Regional, em colaboração com os Municípios, também desenvolva um programa eficaz para a aquisição e reabilitação de imóveis degradados nos centros urbanos. É um facto que a reabilitação de imóveis tem sido impulsionada pelo alojamento local e, consequentemente, pelos proprietários privados, o que contribui para a melhoria da reabilitação urbana e traz boas consequências para a comunidade. No entanto, há uma necessidade premente de intervir em numerosos imóveis na Cidade da Horta, muitos de propriedade privada, mas também muitos pertencentes a entidades públicas.
Fábrica do Peixe – O início da empreitada de requalificação do espaço da antiga Fábrica, localizado no lugar do Pasteleiro, e a sua transformação num Tecno-Polo, representam um marco significativo no avanço científico e económico da região. Com um investimento base considerável, o projeto abrange uma variedade de instalações, incluindo uma Incubadora Azul, um Centro de
Aquicultura e laboratórios para o Parque Marinho dos Açores, refletindo um compromisso abrangente com o desenvolvimento sustentável e inovador. Espera-se que, após a conclusão das obras, todos os procedimentos e valências estejam prontos para servir rapidamente a comunidade científica e os cidadãos dos Açores.
O “Vulcãozinho”, inaugurado a 7 de março de 1999, na freguesia do Capelo, na Escola da Ribeira do Cabo, assinalou um momento histórico ao tornar-se o primeiro Espaço de Ocupação de Tempos Livres dos Açores. Concebido com o objetivo de oferecer um ambiente de atividades para crianças e jovens da comunidade local, o projeto proporcionou uma base de apoio crucial após o término do horário escolar.
Este espaço pioneiro não só proporcionou oportunidades às crianças e jovens do Capelo, como também introduziu os primeiros computadores de acesso livre. Esta iniciativa não apenas promoveu a literacia digital entre os mais jovens, mas também serviu como uma ponte crucial para conectar as famílias locais com parentes nos EUA e no Canadá. Através de conexões remotas facilitadas pelos computadores do “Vulcãozinho”, familiares separados por longas distâncias puderam reunir-se virtualmente, proporcionando uma oportunidade única para reconectar com entes queridos que não viam há anos. Este projeto não apenas enriqueceu a vida das crianças e jovens locais, mas também fortaleceu os laços familiares.
A ludoteca, conhecida como “Vulcãozinho”, teve sua imagem criada pela empresa “Letraçor”, já extinta. Recordo que esta imagem, inicialmente, não correspondeu exatamente às expectativas, mas ao longo dos anos tornou-se um símbolo de boas lembranças para todos nós. O termo “Ludoteca” deriva do latim “ludus”, que significa “jogo”, refletindo a essência do espaço criado, como um local dedicado à diversão, mas também, aos desenvolvimento das crianças.
Este projeto foi idealizado na Junta de Freguesia do Capelo, da qual fazia parte e tive o prazer de ser o seu coordenador. Hoje, passam 25 anos sobre essa data, mas o mesmo não teria sobrevivido se não fosse o empenho e a dedicação da sua Animadora Social, Ana Paula Rodas, que desempenhou ao longo deste tempo um papel fundamental até hoje. Modernizado é certo, com abordagens diferentes, mas não deixa de ser o nosso “Vulcãozinho”, onde as inúmeras crianças e jovens que por ali passaram guardam memórias inesquecíveis.
Dia da Inauguração – 7 de Março de 1999 – DomingoJornal “Correio da Horta” de 5 de Março de 1999
“Pelo que nos consta promete ser interessantíssimo, sob todos, os pontos de vista, sarau músico-literário que o “Sporting Club” realiza amanhã no Teatro. Todos os números, quer recitativos, quer de canto, foram escrupulosamente selecionados e são do mais lindo efeito. A encantadora peça de Júlio Dantas. “Rosas de todo o ano”, que será apresentada com máximo rigor de senário e encenação, promete um desempenho satisfazer os mais exigentes. Tudo isto justifica o grande entusiasmo público despertado, e dai achar-se a casa passada por completa.”
Foi desta forma que o Jornal “Telegrafo” de 15 de Fevereiro de 1924, noticiou o 1.º Sarau Músico-Literário do clube na Rua Eduardo Bulcão, marcando o início de uma história rica, vasta e longa. Este evento cumpriu um dos propósitos idealizados pelos fundadores do Sporting Club da Horta para a instituição. O clube, com as suas secções de ciências, letras, arte e desporto, orientadas de forma metódica, racional e científica, visava promover o desenvolvimento da educação física e da cultura.
No contexto das celebrações do centenário, a Comissão Organizadora deste evento e a Direção do S.C.H. decidiram assinalar esta efeméride, no passado dia 16 de Fevereiro, no Teatro Fayalense, com um Sarau Músico-Literário, num momento muito bem sucedido, perante um grande número de pessoas, onde fomos transportados pela história do Teatro na nossa ilha.
A brilhante iniciativa a cargo do Professor Vitor Rui Dores recriou diversas personagens e momentos da rica história do Teatro na nossa ilha, dando a conhecer figuras marcantes da nossa terra e fazendo recordar aos mais antigos bons momentos vividos naquele Teatro, no Salão Eden e em outros locais da Cidade da Horta.
Estas iniciativas merecem elogios, pois enriquecem a nossa cultura e promovem o espírito comunitário que tivemos e necessitamos de continuar a ter. O empenho demonstrado pelos organizadores e participantes reflete o amor pela preservação das nossas tradições desportivas e culturais locais.
1º plano (esqª/dtª) Fernanda Costa, Gustavo Silva, Fernanda Fontes, Estela Serafim e Elvira Hipólito 2º—Maria Cristo, Laura Severim, Maria Dias, Luna Pinheiro, Branca Garcia, Lídia Hipólito, Elisa de Melo, Lúcia Freitas e Hortência Melo. 3º—Maria Lúcia Frayão, Beatriz Cardoso, e Maria Leandro Cardoso 4º—António Lacerda, Júlio Andrade, Abel Teixeira, Carlos Costa, Nestor Lobo, Dr. Garcia da Rosa (regente), José Nóbrega, Augusto Salema, João Ramos, Manuel Neves, Isauro Frayão, Raimundo Lemos e Manuel Lemos. Sofia Medeiros. Vitor Rui Dores, Nádia Sousa, Gonçalo Vieira, César Lima, Carla Capela, João Jonas, Diana Rabaça, Nuno Frayão e Filipe Fonseca – Foto: Carlos Amaral
As celebrações do Sporting Club da Horta continuam em curso, com momentos de elevada qualidade, como é o caso da exposição que está patente na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça até ao dia 28 de maio, evidenciando a importância dos clubes no dia-a-dia da ilha do Faial.
A exposição retrata a história do clube e de uma forma geral o desporto e a cultura nos últimos 100 anos na nossa ilha, salientando os momentos mais significativos, as modalidades e os eventos de maior expressão.
Esta é uma exposição participada, para a qual foi fundamental o apoio de todos, desde sócios, simpatizantes, atletas, antigos dirigentes que, de uma forma espontânea, corresponderam aos apelos feitos pelo o Museu da Horta. Destaca-se o empenho e excelente trabalho desenvolvido pela equipa do Museu da Horta e o contributo valioso do antigo atleta e sócio José Manuel Medina Garcia.
A escolha da data de inauguração, 26 de janeiro, não foi feita ao acaso, pois assinala a filiação do Sporting Club da Horta no Sporting Clube de Portugal. É importante recordar que o Clube da Rua Eduardo Bulcão é a 80ª filial do clube lisboeta, o que confere ainda mais significado a esta data.
Na inauguração, esteve presente a Diretora do Museu do Sporting Clube de Portugal, Doutora Isabel Vitor, que deixou uma mensagem importante: “Sem memória não há história nem futuro” e acrescentou sobre a exposição” Numa exposição, o processo é tão crucial quanto o resultado. O trabalho conjunto representa uma experiência gratificante e duradoura, envolvendo participação ativa, diálogo e pesquisa. A parceria entre o Museu da Horta e outras entidades, como o SCH, destaca-se pela sua vibrante colaboração e contribuição para a preservação da história local. Este evento não é apenas uma mostra, mas sim o resultado de um processo vital para a comunidade. A dinâmica gerada promete impulsionar futuros projetos culturais e patrimoniais. Como diretora do Museu Sporting, participar deste processo é uma honra e o resultado final é motivo de empolgação e gratidão.”
O Clube e o Museu da Horta estão de parabéns por esta excelente iniciativa. Vale a pena recordar que, por ocasião do 50º aniversário do S.CH., já haviam organizado uma exposição, o que demonstra uma ótima relação de vizinhança.
No século XVIII, durante a era da expansão colonial portuguesa, três mulheres partiram da Ilha do Faial em direção ao Brasil. Antónia da Graça (nascida em 1687), Júlia Maria da Caridade (nascida em 1707), e Helena Maria de Jesus (nascida em 1710), conhecidas como as Três Ilhoas, embarcaram numa jornada que viria a deixar uma marca indelével na história da emigração Açoriana para o Brasil.
Naturais da Freguesia das Angústias, as Três Ilhoas zarparam em 1722, desafiando as vastas águas do Oceano Atlântico em busca de novas oportunidades em terras desconhecidas. Aportaram inicialmente no Rio de Janeiro, um ponto crucial de entrada para os colonos portugueses naquela época. No entanto, a sua verdadeira odisseia estava apenas a começar.
Em busca de um lugar para se estabelecerem, as Três Ilhoas seguiram para São João Del Rey, uma cidade histórica localizada no estado de Minas Gerais, Brasil, onde se destaca a imponente Igreja de Nossa Senhora do Pilar. Ali, fundaram-se numa comunidade que viria a ser fundamental para o desenrolar da sua saga e para o futuro das suas famílias.
É de notar que, naquele tempo, as filhas não herdavam os apelidos dos pais, refletindo a peculiaridade dos sistemas de nomenclatura da época. No entanto, mesmo sem apelidos familiares, as Três Ilhoas deixaram um legado que transcendeu gerações.
Júlia Maria da Caridade, nascida em 8 de Fevereiro de 1707, era filha de Manuel Gonçalves Correia – “O Bórgão” e de Maria Nunes, conforme registro de batismo realizado pelo Padre Antônio Fernandes, da Paroquial de Nossa Senhora das Angústias. Ela foi batizada treze dias após o nascimento, no mesmo ano de 1707, e casou-se, em 29 de junho de 1724, já no Brasil, com Diogo Garcia, com quem teve 14 filhos. As outras duas Ilhoas também eram filhas de Manuel e Maria, tendo a Mãe acompanhado as três filhas na viagem para o Brasil após a morte do Marido.
Ao longo dos anos, as Três Ilhoas casaram-se e fundaram famílias, gerando descendentes que se espalharam por todo o Brasil. Os seus nomes entrelaçaram-se com os de outras famílias, tais como os Rezendes, Carvalhos, Junqueiras, Figueiredo, Garcias, Andrade, Meirelles, Villela e muitos outros, deixando uma marca indelével na história genealógica do país.
Inúmeros autores citam as “Três Ilhoas” como “célebres, famosas e lendárias”. Tais predicados têm sua origem na notória descendência que deixaram em Minas Gerais e em outros estados, onde a maioria das famílias importantes encontravam em seu tronco uma ou mais destas faialenses, que passaram a ser citadas com grande respeito e admiração, ao ponto de que “dizer-se descendente das Ilhoas pode ser considerado a descrição de uma genealogia completa”.
A Capela de Nossa Senhora da Conceição do Porto do Saco foi construída no início do século XVIII a mando de Júlia Maria da Caridade, proprietária da antiga Fazenda do Saco e devota de Nossa Senhora da Conceição, havendo quem diga que a capela é dedicada a uma imagem de Nossa Senhora encontrada nas margens do Rio Grande, que passa pela fazenda. A capela fica no distrito de Porto do Saco, que já foi um importante canal comercial de São João del Rei antes da ferrovia.
A saga das Três Ilhoas é uma poderosa narrativa de coragem, determinação e resiliência. Personificam o espírito aventureiro dos colonos faialenses que desafiaram os mares desconhecidos em busca de um futuro melhor. Seus passos ecoam através das gerações, recordando-nos da rica tapeçaria de histórias que compõem a complexa teia da história do Brasil.
Além disso, a história das Três Ilhoas entrelaça-se com a saga da família Garcia Leal, outro grupo de faialenses que deixou sua marca no Brasil. Januário Garcia Leal, conhecido como “Sete Orelhas”, era filho de Pedro Garcia Leal, faialense (filho de João Garcia Pinheiro e de Maria Leal) e de Josefina Cordeiro Borba. João Garcia, por sua vez, era irmão de Diogo Garcia, que foi casado com a ilhoa Júlia Maria da Caridade, com quem teve um filho, o Capitão Mateus Luís Garcia, primo e companheiro de façanhas do “Sete Orelhas”.
Os “Garcias” faialenses (a nossa família) poderão afirmar que são parentes da Júlia Maria da Caridade. É provável, mas a história não termina aqui…
Capela de Nossa Senhora da Conceição do Porto do Saco
Publicado no Jornal “Incentivo” de 27 de Fevereiro
Temos testemunhado, nas últimas semanas, um aumento significativo do descontentamento entre os agricultores, à medida que os custos de produção crescem e o setor enfrenta fortes penalizações por medidas implementadas aos níveis nacional e europeu. Lamentavelmente, esse descontentamento não se limita apenas ao setor agrícola, estendendo-se a outras áreas profissionais, onde os trabalhadores lutam por salários mais justos e condições de vida melhores.
Entretanto, parece que o setor das pescas está em estado de dormência, passou ao esquecimento, nem as dificuldades que o sector atravessa fazem parte das prioridades das candidaturas à Assembleia da República.
Os custos operacionais atingiram níveis sem precedentes, e há uma conformidade inexplicável com a ausência de medidas de apoio aos pescadores, armadores e empresas. Importa ter presente que foi na fileira da pesca que se registou, em 2023, o maior número de encerramento de empresas, em Portugal.
É preocupante a falta de linhas de apoio dedicadas a este setor, como por exemplo linhas de crédito sem juros, à semelhança do que o Governo da República está a providenciar para os agricultores. O programa Mar2030 parece ser uma regressão em relação ao MAR2020 e, nos Açores, que eu tenha conhecimento, não estão disponíveis fundos para a renovação da frota, ao contrário do Continente e da Madeira, onde estão previstos 90 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência.
Acresce que a gestão das pescas nos Açores rege-se por um quadro legislativo obsoleto, com dezenas de regras sobrepostas e “milhares” de portarias e regulamentos. O Quadro Legal das Pescas dos Açores requer uma revisão urgente e cuidada, com uma abordagem que vise simplificar, em vez de complicar.
Ainda, a gestão e imposição de quotas continua a não ser baseada em dados científicos e as fórmulas utilizadas para a sua distribuição não acautelam absolutamente nada. Temos de começar a refletir por ilha e não no todo regional. O incentivo não pode ser capturar para atingir a quota, mas antes, para gerir bem os stocks e o mercado, e gerar maior rendimento.
A retirada de 30 toneladas da quota do Atum Patudo aos Açores e à Madeira, passando-as para a quota da frota continental, foi um desrespeito e uma afronta às Regiões Autónomas.
Os leilões online são uma medida desajustada à nossa realidade, apesar da sua baixa adesão, é uma medida que não protege os comerciantes locais e, menos ainda, o consumidor final. Não adianta começar a construir a casa pelo telhado, importa criar condições para possibilitar agilidade nos procedimentos, promovendo uma aproximação entre os vários agentes e organizações.
Terão de ser tomadas medidas sérias para travar o combate à fuga à lota e à captura e venda ilegal de pescado, marisco e moluscos, que de ano para ano aumenta. Só com mobilização da fileira da pesca, com as Câmaras de Comércio e Indústria, com as autoridades governativas e fiscalizadoras, criando uma campanha que envolva os consumidores finais, se poderá alterar este panorama.
Teremos de conseguir facilitar e permitir o acesso à profissão. Na ilha do Faial não há um curso de pescador há largos anos. O futuro das pescas está comprometido, pois aqui não há jovens na pesca!
Embora seja crucial implementar áreas marinhas protegidas, o desiderato não deve ser feito de forma fundamentalista e sem ouvir os pescadores. É imperativo evitar demonizar os pescadores, rotulando-os como poluidores ou saqueadores. Pelo contrário, eles são parte da solução e devem ser ativamente envolvidos nas discussões e decisões que afetam o seu meio de vida. É hora de reconhecer o valor dos pescadores e garantir que as suas preocupações são tratadas com seriedade.
É necessário garantir condições de operacionalidade nos portos de pesca, no caso da ilha do Faial, a criação do Núcleo de Pescas da Horta é fundamental, assim como aquisição de um pórtico de varagem de maior porte e uma manutenção muito mais eficiente de gruas e equipamentos de apoio, que são um constante problema e obstaculizam o normal funcionamento da faina.
É absolutamente necessário assegurar um escoamento mais eficiente do pescado açoriano. O avião cargueiro é fundamental!
Portanto, não pode a fileira da pesca continuar enredada nesta armadilha que são os ciclos governativos, é necessário que as organizações associativas elaborem um Plano Estratégico para a Pesca, na tentativa de sensibilizar e reivindicar, sem a necessidade de fazer manifestações públicas, mas com um compromisso sério, para vários anos e que tenha como principal objetivo a necessidade urgente de olhar para as enormes dificuldades que o sector atravessa e de incluir todas as partes neste compromisso de criar mais e melhores condições para exercício desta nobre atividade.