Horta: Capital Baleeira do Atlântico Norte

A Horta, epicentro da caça à baleia no Atlântico Norte, representa uma era de vigor e tenacidade, onde homens e mulheres de fibra enfrentavam as barreiras das distâncias e as dificuldades impostas pela natureza através do trabalho manual. Dia após dia, contribuíam para a construção das ilhas, dando-lhes forma e uma narrativa que merece ser resgatada e partilhada.

O período da baleação traz consigo não apenas aromas, lendas, tristezas e alegrias, mas também um legado que se estende ao passado, presente e futuro. Os primeiros registos de capturas de baleias nos mares dos Açores remontam ao século XVI, mas foi apenas no início do século XVIII, com a chegada dos navios baleeiros, que se pode afirmar o início da era dos baleeiros açorianos.

Apesar de não se poder confirmar com precisão através dos relatos de Gaspar Frutuoso que a baleação nos Açores teve início na nossa ilha, podemos afirmar com toda a certeza que o Faial foi o berço desta atividade no nosso arquipélago, mantendo uma atividade intensa e regular ao fim do 2.º período da caça à baleia.

O Porto da Horta, onde tudo começava, fervilhava de atividade no século XIX. O comércio de laranjas, vinho e óleo de baleia misturava-se com o inglês nas ruas e tabernas, enquanto os açorianos eram recrutados para completar as tripulações baleeiras americanas, estabelecendo uma forte ligação entre a Horta e a Nova Inglaterra, especialmente com Nucketet e New Bedford.

“O desenvolvimento da caça da baleia traz à Horta, durante todo o séc. XIX, as frotas baleeiras, que se abrigam em Porto Pim para refrescar as tripulações e engajar arpoadores e remadores açorianos, famosos pela sua coragem e destreza. Nesse período as ruas eram percorridas por marinheiros que quebravam com os seus berros e cantigas avinhadas a tranquilidade noturna. A construção do cais, iniciada em 1876, atraiu à cidade os navios a vapor, que nele faziam o reabastecimento de carvão. A Horta fazia parte da gesta desses homens rudes que partiam de New Bedford para regressarem, anos depois, cansados, doentes e nem sempre ricos. A Horta figurava, por esse motivo, no ciclo rama pintado sobre pano que era exibido, de cidade em cidade dos Estados Unidos, para mostrar a vida dos baleeiros. Os seus portos de escala, a sua dura faina. Eram dezenas os baleeiros que, nos meses de Primavera e Verão, se abrigavam por detrás dos Montes Queimado e da Guia”.

Em 1765 terão começado a aportar ao Faial os primeiros navios baleeiros provenientes de New Bedford, os quais praticavam a designada “baleação pelágica”. Estes navios, para além de transportarem as pequenas canoas utilizadas para a caça propriamente dita, possuíam, também, a capacidade de processar os grandes cetáceos, derretendo e armazenando a gordura dos mesmos.

A partir do Porto da Horta, a baleação expandiu-se pelo arquipélago, enquanto tripulantes locais eram clandestinamente recrutados, destacando-se pela sua excelência como marinheiros e baleeiros, alguns tornando-se comandantes de navios baleeiros americanos durante o século XIX. Esse processo de recrutamento marcou o início de uma onda de emigração dos faialenses para os Estados Unidos, com New Bedford servindo como principal destino e ponto de fixação dessa comunidade.

A geminação entre a Horta e New Bedford, formalizada na década de 90 do século passado, foi o ponto culminante de uma série de conexões históricas, sociais, económicas e culturais que remontam ao século XVIII.

Deste modo, não podemos desconsiderar a história e limitá-la apenas ao passado mais recente. A Horta foi, efetivamente, a Capital Baleeira do Atlântico Norte, e é surpreendente que ainda não tenha sido criado um monumento que simbolize e dê a conhecer este período de prosperidade que o Faial viveu.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

Leave a Reply

Discover more from Assim c´má Sim Blog

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading