A Erupção do Capelo e da Praia do Norte

Nos anos de 1671 e 1672

Arquivo dos Açores e Jornal “O Telégrapho” de 1895

“A título de curiosidade histórica, de valor bastante apreciável, vamos publicar uma memória do vulcão do Capelo em 1672, e que existiu inédita até 1884, época em que foi oferecida à redação do «Arquivo dos Açores» pelo Senhor capitão de caçadores 11 Henrique José das Neves, que mais uma vez esteve entre nós, comandando alguns destacamentos.

Em tempo foi-nos prometida uma cópia textual do autógrafo existente no respetivo arquivo paroquial, mas nunca a podemos obter.

Na freguesia do Capelo existem algumas cópias, duas ou três, quando muito.

Nesta narrativa, mandada arquivar em algumas visitas pastorais dos Exmos. Prelados Diocesanos, contam-se factos que não aparecem mencionados nos autos oficialmente lavrados e que tratam daquela calamidade.

No domingo passado cumpriu-se mais uma vez o voto feito ao Divino Espírito Santo por aquela triste ocasião, por isso achamos de atualidade publicar aquela narrativa, que entre nós é tão pouco conhecida ou quase totalmente ignorada.

Conserva-se-lhe a ortografia primitiva para nada se tirar do seu valor histórico.

Cabeço do Fogo (data da foto desconhecida)

“Santíssima Trindade do lugar do Capelo desta Ilha do Faial. Certifico, que pelo ano de 1820 a 1832 se achava no Arquivo desta mesma Paroquia um fragmento de um livro, que tinha por titulo «Memórias da Freguezia do Capello» do próprio punho do Reverendo Diogo Soares Sarrão, primeiro Vigário próprio, que foi desta mesma Igreja depois do fogo do ano de 1672, e eu abaixo assinado, vigário próprio da Igreja Paroquial  que deixou de existir no dia 17 de Julho de 1700, contando de sua idade 80, pouco mais ou menos, e por esta razão julgo ter ele nascido pelo ano de 1626: 46 antes do dito fogo. Este fragmento foi por muitas vezes visto, e lido por mim, ainda que com muito custo, pelo mau estado em que se achava, e dele tirei algumas cópias, que uma d’elas é a seguinte:

Tiveram princípio os tremores de terra nesta a 20 por andar do mês de Setembro de 1671, sendo estes mais frequentes de noite. Foram aumentando com tão forte violência, que já em dezembro do mesmo ano horrorizavam os viventes, os animais em lugar de andarem pastando corriam para a parte oposta em que sentiam o tremor, ainda que a estação invernosa fosse a mais desabrida das que temos encontrado em nossos dias, as ribeiras não cansavam de dia e noite em levarem casas e ariarem frutíferos vales, parecia que a terra criava de dia novos alentos para seus amiudados e impetuosos movimentos.

Pelo mês de Fevereiro de 1672 achando-se o povo desta freguesia tanto horrorizado, que começaram a desemparar as suas casas e habitavam em pequenas barracas construídas tão-somente, umas de palha e outras de leivas.

Este horror não acompanhava a todos, porque entre eles havia alguns dos mais abastados, que apoiados por um certo capitão…se abalançavam a perseguir seu Pároco, para ser admitido em seu lugar um filho do mesmo Capitão, a quem o dito Pároco tinha instruído até ser ordenado.

Pelo meio d’Abril daquele ano, em um dos dias mais brilhantes daquela primavera, tendo precedido a noite mais tranquila que temos visto, ainda que a terra parecia a pendula de um relógio, que demasiadamente se adianta, antes que o sol doirasse o cimo das montanhas, saiu da sua barraca o Pároco e circulando a Igreja, o que fazia todas as madrugadas, para examinar alguma ruína; acha uma das portas aberta, entra e vê que o tesoureiro arrumava alguma lenha na loja do Camarim; increpou ao dito tesoureiro de praticar tal profanação, este encolerizado lhe responde «ainda esta não é a maior que há de haver hoje» e saiu apressadamente. Ficou o Pároco em conjeturas, mas logo lhe ocorre, que seria mais prudente para evitar males maiores, retirar-se para a vila da Horta, onde não faltaria uma casa religiosa, que o acolhesse até que seus inimigos se acalmassem.

Volta á sua casa e precipitadamente se põem em fuga com seu escravo, única pessoa da sua família. Retira-se da estrada para não ser encontrado, pelo medo que tinha de o seguirem, toma uma vereda, que lhe parecia que ia finalizar nas encostas da Ribeira Brava, mas engana-se, porque a vereda só chegava ao portão de um bosque que distava da povoação, 1/8 de légua, não lhe convém voltar, atravessa densos e copados arvoredos, sobe e desce altas paredes ajudado por seu escravo; com voltas e revoltas pelo meio-dia ainda se achava a oeste da Ribeira Brava, mas já na estrada, continua sua derrota, atravessa a Ribeira Brava, sobe parte da montanha, e tanto, que avista parte da Freguesia de Castelo Branco, considera-se livre de todo o perigo: senta-se a descansar e já familiarizado com os contínuos movimentos da terra, dava mais valor á sua desgraça em um país estranho sem socorros d’amigos e parentes. Assim se achava este aflito fugitivo, quando deu a terra um tão forte abalo, acompanhado de um urro que parecia um espantoso trovão e estando o tempo tão claro, logo apareceu o cabeço de Rilha-boicoberto de uma cinzenta nuvem e dentro dela saíam de, quando em quando urros espantosos. Seguiu o Pároco seu destino, e não tardou saírem-lhe ao encontro dois religiosos, a perguntarem onde tinha rebentado o fogo. O Pároco só satisfez em narrar o que tinha passado e visto naquele dia. Os religiosos ali o fazem deter até que voltando o acompanham até seu convento, que foi pela noite.

O fogo era tanto que arrebentou em uma concavidade no cimo de Rilha-Boi lançou duas lavas, uma para o norte, e outra para sul, esta gastou menos tempo em chegar ao mar, destruindo toda a povoação da Ribeira Brava, junto com a Capela da Senhora da Esperança, onde havia um cura Pároco, subordinado à antiga Paroquia. A do norte gastando mais tempo parou no lugar chamado os Lameiros, mas depois de alguns tempos rebentou um dos tais Lameiros e foi este o fogo que destrui toda a freguesia, junto com Igreja Paroquial, convertendo em cantilados rochedos de pedra queimada as mais férteis terras de toda a ilha ficando os habitantes desta freguesia reduzidos a mais extrema pobreza. Os que puderam sair para a parte de Castelo Branco e Cedros, foram felizes, ainda que iam mendigar uma esmola, mas os que ficaram acantoados na Ponte dos Alfaiates, foram mais dignos de compaixão pelo desastre em que ao depois se viram. Vendo estes que a lava da parte do sul tinha parado logo que chegou ao mar e da parte do norte chegara até aos Lameiros, julgaram que o fogo por ali parava, e por isso se acolheram ao Canto dos Alfaiates, onde alguns deles tinham terras.

Passados alguns tempos vendo que o fogo novamente arrebentava e não podendo sair para um e outro lado, por ali ficaram, esperando o infeliz instante de serem vítimas da sua fatal destruição.

O fogo não passou da Fajã do Toiro ao este, nem da Ponta Ruiva do sul para sudoeste, contudo as fontes se quebraram e a terra não se podia pisar a pé nu, as plantações e as ervas secaram de modo que estes desgraçados não tinham coisa naquele espaço de campo tão curto, que lhe servisse de socorro para a vida. Deus que nunca se esquece daqueles que nele confiam, tocou vivamente os corações dos habitantes de toda a ilha mormente os habitantes da Horta para com suas esmolas socorrem estes desgraçados em número de 70, não entrando mulheres e crianças. As esmolas e até a água, eram conduzidas em pequenas embarcações ao Lagido dos Alfaiates, a quem o mar se mostrou grato em quanto durou esta necessidade. Em Março do ano seguinte começou a terra a brotar e animados com este convite obtiveram de seus benfeitores algumas sementes que lançadas à mesma terra, produziram em muito menos tempo do que em anos antecedentes.

Foi neste mesmo ano, que eles construíram uma Ermida no mesmo lugar, coberta de palha, dedicada á Senhora dos Milagres, que serviu de Paroquia até o ano de 1680, altura em que o vigário Diogo Soares Sarrão deu princípio á fatura da nova Igreja Paroquial….»

É o quanto pude colher do dito fragmento, deixando alguns por os não poder entender, em razão do papel estar tão desfeito que pouco ou nada se entende, ainda mesmo do que levo dito me custou a juntar, mas sem faltar ao sentido verdadeiro da história.

Ainda que o senhor Bispo D. Frei Clemente Vieira em sua visita de 4 de Setembro de 1690 mandasse fazer esta memória circunstanciadamente, contudo sempre se omitiu vários factos pelas ameaças dos parentes do tal capitão como se vê não só da tradição, se não também contentar-se o redator por este sinal…quando lhe é necessário declarar seu nome. Estes mesmos ameaços, ainda existiam pelo ano de 1762 como se vê da visita do senhor Bispo D. António Caetano da Rocha de 16 de Outubro, em que estranhou a falta de se cumprir o que ordenara o Bispo D. Frei Clemente Vieira…

Passando-se umas poucas de páginas do mesmo fragmento, sem que se possa conhecer uma só letra, se acha uma nota que parece ser do próprio punho do Reverendo António de Mello, vigário próprio que foi desta Paroquia pelo ano de 1757, em que diz o seguinte:- É tradição bem fundada, que com verdade posso afirmar, que o vigário fugitivo já tinha noticia, dias antes, que tencionavam lançar fogo à sua casa, mas como na madrugada daquele dia vira que o tesoureiro entulhava a loja do Camarim de lenhas, conjeturou que era a Igreja. Achou-se o Sacrário aberto, e examinado pelo Cura, não achou Sacramento. Julga-se que o dito Vigário o consumira, mas se disse ou não missa, isso se não pode afirmar. A dúvida que há é se foram os Franciscanos ou os dois religiosos Jesuítas que saíram ao encontro do Vigário fugitivo. É provável que fossem os Jesuítas, pelas razões seguintes – A pequena Imagem da Senhora dos Milagres, que levara o Reverendo Vigário fugitivo, foi restituída pelos Jesuítas, na ocasião que se edificou a Ermida dedicada à mesma Senhora, no Canto dos Alfaiates.

Quiseram os Jesuítas pôr suas armas no frontispício da nova Igreja; e foi tal a contenda, que eles tiveram com o Vigário Diogo Soares Sarrão e o povo, que o, não puderam fazer, mas sim as puseram na Sacristia dos Clérigos acima do Purificatório, (que ainda hoje se conservam). Quando o fogo arrebentou segunda vez da parte do norte no lugar chamado os Lameiros, fez um Morro a que lhe chamam Perguinito, (Picarito) este ficava na frente da casa do Capitão… onde se achava com sua família na cultura de suas terras naquela ocasião, este lugar ainda hoje se chama as Casas Velhas.

 O sítio em que se achava a Igreja Paroquial, que o fogo consumiu, sem que escapasse cousa alguma, se chamava, Miga no Leite. O lugar onde está a Capella da Senhora da Esperança ao sul, hoje se chama a Cruz da Malha de lá. O cabeço do Rilha-boi se chama hoje Cabeço do Fogo, o que se acha a leste deste, que antigamente se chamava Cabeço do Espinheiro, hoje é o Cabeço Verde. ARibeira Brava, hoje Ribeira do Cabo. A Fajã do Toiro no norte, conserva o mesmo nome. A Ponta Ruiva ao sul, hoje se chama a Assada. A antiga freguesia tinha três estradas além d’outras veredas, a que ia para a parte dos Cedros se chamava o Caminho do Rosa, que hoje ainda se conserva o mesmo nome. A que vai para a vila, Caminho do Broto, hoje Canada dos Frades. A que ia para a povoação da Ribeira Bravacaminho das Camarinhas, hoje Caminho do Goularte, Trupes, Alto dos Cavacos, Raposaia ou Barreiro (?).

É tradição que a antiga Paroquia se compunha de cento e tantos fogos; e a Capela da Senhora da Esperança, isto é a povoação da Ribeira Brava com pouca diferença para menos…

Faltando algumas páginas no tal fragmento, a primeira que se encontra diz o seguinte:

Fundos, para o Divino Culto do Diviníssimo e Santíssimo Senhor Jesus Sacramentado nesta Paroquia da Beatíssima e Santíssima Trindade, freguesia do Capelo feito pelo ano de 1731». 

O mais que na referida memoria se segue diz respeito a notas de foros d’uma Irmandade do Santíssimo, ereta naquela freguesia ao tempo em que a narrativa foi arquivada.” 

Pesquisa e Fotografia: José Manuel Medina Garcia

Cabeço do Fogo (data da foto desconhecida)
Neste mapa do Parque Natural do Faial pode-se observar a localização do Cabeço do Fogo

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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