As Três Ilhoas

Faialenses andaram e andam pelo Mundo


No século XVIII, durante a era da expansão colonial portuguesa, três mulheres partiram da Ilha do Faial em direção ao Brasil. Antónia da Graça (nascida em 1687), Júlia Maria da Caridade (nascida em 1707), e Helena Maria de Jesus (nascida em 1710), conhecidas como as Três Ilhoas, embarcaram numa jornada que viria a deixar uma marca indelével na história da emigração Açoriana para o Brasil.

Naturais da Freguesia das Angústias, as Três Ilhoas zarparam em 1722, desafiando as vastas águas do Oceano Atlântico em busca de novas oportunidades em terras desconhecidas. Aportaram inicialmente no Rio de Janeiro, um ponto crucial de entrada para os colonos portugueses naquela época. No entanto, a sua verdadeira odisseia estava apenas a começar.

Em busca de um lugar para se estabelecerem, as Três Ilhoas seguiram para São João Del Rey, uma cidade histórica localizada no estado de Minas Gerais, Brasil, onde se destaca a imponente Igreja de Nossa Senhora do Pilar. Ali, fundaram-se numa comunidade que viria a ser fundamental para o desenrolar da sua saga e para o futuro das suas famílias.

É de notar que, naquele tempo, as filhas não herdavam os apelidos dos pais, refletindo a peculiaridade dos sistemas de nomenclatura da época. No entanto, mesmo sem apelidos familiares, as Três Ilhoas deixaram um legado que transcendeu gerações.

Júlia Maria da Caridade, nascida em 8 de Fevereiro de 1707, era filha de Manuel Gonçalves Correia – “O Bórgão” e de Maria Nunes, conforme registro de batismo realizado pelo Padre Antônio Fernandes, da Paroquial de Nossa Senhora das Angústias. Ela foi batizada treze dias após o nascimento, no mesmo ano de 1707, e casou-se, em 29 de junho de 1724, já no Brasil, com Diogo Garcia, com quem teve 14 filhos. As outras duas Ilhoas também eram filhas de Manuel e Maria, tendo a Mãe acompanhado as três filhas na viagem para o Brasil após a morte do Marido.

Ao longo dos anos, as Três Ilhoas casaram-se e fundaram famílias, gerando descendentes que se espalharam por todo o Brasil. Os seus nomes entrelaçaram-se com os de outras famílias, tais como os Rezendes, Carvalhos, Junqueiras, Figueiredo, Garcias, Andrade, Meirelles, Villela e muitos outros, deixando uma marca indelével na história genealógica do país.

Inúmeros autores citam as “Três Ilhoas” como “célebres, famosas e lendárias”. Tais predicados têm sua origem na notória descendência que deixaram em Minas Gerais e em outros estados, onde a maioria das famílias importantes encontravam em seu tronco uma ou mais destas faialenses, que passaram a ser citadas com grande respeito e admiração, ao ponto de que “dizer-se descendente das Ilhoas pode ser considerado a descrição de uma genealogia completa”.

A Capela de Nossa Senhora da Conceição do Porto do Saco foi construída no início do século XVIII a mando de Júlia Maria da Caridade, proprietária da antiga Fazenda do Saco e devota de Nossa Senhora da Conceição, havendo quem diga que a capela é dedicada a uma imagem de Nossa Senhora encontrada nas margens do Rio Grande, que passa pela fazenda. A capela fica no distrito de Porto do Saco, que já foi um importante canal comercial de São João del Rei antes da ferrovia.

A saga das Três Ilhoas é uma poderosa narrativa de coragem, determinação e resiliência. Personificam o espírito aventureiro dos colonos faialenses que desafiaram os mares desconhecidos em busca de um futuro melhor. Seus passos ecoam através das gerações, recordando-nos da rica tapeçaria de histórias que compõem a complexa teia da história do Brasil.

Além disso, a história das Três Ilhoas entrelaça-se com a saga da família Garcia Leal, outro grupo de faialenses que deixou sua marca no Brasil. Januário Garcia Leal, conhecido como “Sete Orelhas”, era filho de Pedro Garcia Leal, faialense (filho de João Garcia Pinheiro e de Maria Leal) e de Josefina Cordeiro Borba. João Garcia, por sua vez, era irmão de Diogo Garcia, que foi casado com a ilhoa Júlia Maria da Caridade, com quem teve um filho, o Capitão Mateus Luís Garcia, primo e companheiro de façanhas do “Sete Orelhas”.

Os “Garcias” faialenses (a nossa família) poderão afirmar que são parentes da Júlia Maria da Caridade. É provável, mas a história não termina aqui…

Capela de Nossa Senhora da Conceição do Porto do Saco
Gravura de São João Del Rey – XIX

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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