Era sempre nos finais de agosto, quando os dias ainda tinham aquele calor bom que se cola à pele, mas as noites já começavam a chamar o outono. Íamos às amoras. Desde pequeno que era assim — a minha mãe à frente, os meus irmãos e meus primos a saltar de pedra em pedra, e eu, de olhos bem abertos, a tentar fixar tudo para não esquecer.

Começávamos ali, junto de casa. Pegávamos nos baldes, nas sacas velhas que já tinham visto muitos verões, e lá íamos, pelo caminho da “Formosinha”, no Varadouro. Era um caminho de terra batida, estreito, ladeado por silvas e pedras soltas. Para mim, esse caminho não tinha fim. Ou talvez não tivesse saída — parecia sempre levar-nos de volta a casa, como se o tempo desse uma volta inteira só para nos devolver às nossas raízes.
Quando voltávamos, os sacos iam diretos para o tacho grande. Aquele que morava no fundo do armário, reservado só para o doce. Mas havia sempre uma taça. Pequena, quase escondida. Era ali que se provavam as primeiras — amoras acabadas de colher, lavadas com cuidado, afogadas em leite fresco. Às vezes açúcar, às vezes não. Era a nossa recompensa secreta, antes do cheiro a doce encher a casa inteira.
Outras vezes, tomávamos o caminho velho do Varadouro. Passava junto da Casa da Maria Grande, uma vereda apertada, quase engolida pelas silvas. Levávamos o pucheiro, feito com cabo de araçaleiro, para puxar as silvas mais altas, mais teimosas. Era quase uma dança entre os espinhos e os frutos. E quem colhia mais, tinha direito a lamber a colher do doce depois (mas todos nos deliciamos com o resto do tacho).
Quando se queria fazer doce para guardar, para oferecer, para lembrar o verão nos meses de chuva, então íamos mais longe. Subíamos até à parte alta do Capelo. Lá, as silvas eram mais generosas, e nós voltávamos com os dedos tingidos de roxo e a alma cheia.
A ida às amoras era mais do que uma apanha. Era um ritual. Um gesto de família, de tempo passado com quem amamos, de histórias contadas enquanto se apanhava e se provava. Hoje, quando provo uma amora, não sinto só o sabor. Sinto o sol no rosto, o pó nos sapatos, o riso da minha mãe, o eco dos passos dos meus irmãos e dos meus primos. E o caminho — que afinal tinha sempre uma saída: a da memória.

Moda da Amora Negra
Minha amora negra, minha flor silvestre
Toda a gente soube que um beijo me deste.
Um beijo é desejo que a ninguém se nega
Minha flor silvestre, minha amora negra.
Eu vi-te de manhãzinha
Pela tarde te falei.
E o que dissemos à noite
Isso a ninguém contarei.
Minha amora negra, minha flor silvestre
Toda a gente soube que um beijo me deste.
Um beijo é desejo que a ninguém se nega
Minha flor silvestre, minha amora negra.
Eu peço a Deus que me leve
Para longe esta paixão.
Tudo nasce e tudo morre
Só este amor é que não.
Minha amora negra, minha flor silvestre
Toda a gente soube que um beijo me deste.
Um beijo é desejo que a ninguém se nega
Minha flor silvestre, minha amora negra
A canção “Moda da Amora Negra”, escrita por José Guimarães com música de Resende Dias. Esta música foi popularizada por Florência em 1971 e interpretada por vários artistas ao longo dos anos, incluindo Adélia Pedrosa
Lindo!
Belas memórias de um passado onde se respira o Amor familiar.
Parabéns.
Abraço.