Normalização da Anormalidade

Vivemos tempos estranhos. A cada dia que passa, a linha entre o que é aceitável e aquilo que deveria ser inaceitável torna-se mais difusa. Olho para a sociedade actual e sinto-me deslocado, como se tivesse acordado num mundo onde a anormalidade foi promovida a norma — e ninguém parece incomodado com isso.

Negociar com regimes ditatoriais como o da China tornou-se algo absolutamente banal. Fecha-se os olhos às condições desumanas de trabalho, à repressão de minorias, à censura e à ausência de liberdades fundamentais. Porque o que importa, no fim de contas, é o lucro. E quando há dinheiro envolvido, tudo se justifica — ou, pelo menos, tudo se normaliza.

Nos Estados Unidos, milhões elegeram Donald Trump, um homem que ameaça seriamente os alicerces da liberdade e que se aproxima perigosamente do autoritarismo. E, mesmo assim, muitos consideram essa escolha perfeitamente “normal”. Afinal, vivemos numa era em que a verdade deixou de ser critério.

Mais grave ainda é a forma como aceitamos, com uma estranha resignação, a invasão constante da nossa privacidade. Em nome da segurança, entregamos os nossos dados, permitimos que câmaras de vigilância nos sigam a cada passo, aceitamos que o Estado se intrometa nas nossas casas, nas nossas decisões e, cada vez mais, na educação dos nossos filhos.

A passividade instalou-se. Assistimos, sem reacção, à violação da lei por parte daqueles que a deviam cumprir e fazer cumprir. Fechamos os olhos aos genocídios no Sudão, em Gaza e em tantos outros pontos do globo. Toleramos o aumento da violência contra as mulheres como se fosse uma inevitabilidade estatística. E, enquanto isso, normalizamos ditaduras, discursos de ódio e posturas xenófobas.

Acordámos num país — num mundo — onde o Estado deixou de ser o garante de direitos e passou a ser um cobrador impiedoso, um mau pagador e um intruso permanente na vida dos cidadãos. Tornou-se o maior accionista da vida privada e o membro do agregado familiar que mais consome, sem nunca dar o devido retorno.

Tudo isto é sintoma de uma sociedade exausta, desmotivada ou, talvez, simplesmente conformada. Perdemos os nossos valores, desligámo-nos do nosso papel activo, e aceitámos um novo paradigma onde o essencial é ignorado. Proíbe-se o uso do telemóvel na escola — como se essa fosse a raiz de todos os males da educação — enquanto partidos e regimes espalham desinformação e incentivam o ódio através das redes sociais que tanto criticam.

Também normalizámos uma classe política que vive da imagem e não das ideias. Políticos frágeis, sem visão, sem estratégia, que não sabem para onde vão — apenas reagem, apagam fogos, gerem o imediato sem qualquer horizonte. O deslumbramento com o poder e a vaidade pessoal substituíram a missão pública. Muitos são mais influenciadores do que estadistas, mais preocupados com o efeito nas redes sociais do que com o impacto das suas decisões no futuro das suas comunidades. E, no entanto, uma boa parte da população aceita — ou até aplaude — esta mediocridade, como se fosse inevitável.

A questão é simples, mas profunda: estamos a normalizar o inaceitável. E se não pararmos para reflectir, questionar e resistir, corremos o risco de já não sabermos distinguir o que é normal do que é, na verdade, uma perigosa anormalidade.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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