Sempre um povo emigrante!

Desde 1672, quando as primeiras famílias deixaram o Faial rumo ao Brasil, atravessando o Atlântico em condições precárias, já levávamos conosco a esperança de uma vida melhor.
No final do século XIX, centenas partiram novamente. Desta vez, foram outros os portos de destino, mas o motivo era o mesmo: fome, falta de oportunidades, um futuro que aqui parecia não chegar.
Em 1958, foi a vez da América. Levávamos na mão um passaporte, uma mala carregada de saudade e no coração o medo do desconhecido, confiando apenas nas cartas que demoravam semanas a chegar — quando chegavam.

Lembramo-nos dos que partiram às escondidas, de madrugada, com os olhos cheios de mar e o coração apertado pela incerteza.
Lembramo-nos dos que atravessaram oceanos em porões apertados, enfrentando a humilhação e o frio, apenas para poderem enviar um pouco de dinheiro para casa.
Como esquecer as vozes engasgadas nos telefonemas raros, onde cada palavra era escolhida com cuidado, porque custava caro e doía mais ainda?
Quem pode apagar da memória os natais passados com cadeiras vazias e lugares postos na esperança de um regresso que demorava anos — às vezes, para sempre?
Fomos criados com histórias de sacrifício, de trabalhadores que limparam casas, carregaram cimento, apanharam fruta debaixo de sol escaldante, trabalham em fábricas, fazendo o que ninguém queria fazer — porque dignidade não depende do trabalho, mas da coragem.

Partida no Navio “Carvalho Araújo”


Esquecemo-nos que ser faialense é, muitas vezes, saber partir antes de saber ficar.
Esquecemo-nos que muitos chegaram a terras estranhas onde o nome “Açores” era soletrado com desconfiança.
Esquecemo-nos que os nossos não eram vistos como “turistas” ou “investidores”, mas como intrusos, como mão-de-obra barata, como problema.

Hoje, olhamos em volta e esquecemo-nos.
Esquecemo-nos que somos um povo de partidas.
Esquecemo-nos que muitos de nós temos famílias espalhadas pelo mundo.
Esquecemo-nos da solidariedade que nos salvou enquanto ilhéus.

Quando voltar a lucidez, vamos olhar para trás e então ficaremos envergonhados.
Vergonha de termos renegado a velha mala da família, símbolo da coragem dos nossos avós.
Mentimos a nós próprios quando fingimos que não sabemos o que é deixar tudo para trás por um futuro melhor.
Vergonha de termos virado as costas a quem hoje procura, na nossa terra, o mesmo que nos foi dado noutras.

Se um dia tivermos de pegar no velho passaporte, subir no barco ou apanhar o avião por amor aos nossos filhos e netos, perceberemos que nada pode ser dado como garantido.
O Faial não é feito só de pedra, mar e hortênsias. É feito de partidas, de chegadas, de regressos, de saudade e de memória.
E sem memória, não somos mais do que um porto vazio.

Há por aí quem não tenha entendido o perigo do discurso fácil.
Quem alimenta o medo, despreza a memória e teima em encontrar nos que agora chegam o mal para todos os nossos fracassos.


Quem esquece que fomos, ignora que somos e sempre seremos um povo emigrante.

Olivia Goulart entrega um ramo de flores ao Presidente John F. Kennedy, em nome de uma delegação de luso-americanos que visitou a Casa Branca para agradecer o seu papel fundamental, ainda como senador por Massachusetts, na autorização da vinda de 2.500 sinistrados do vulcão dos Capelinhos (1957–58) para os EUA.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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