Silêncio Cúmplice

A Feira Agrícola dos Açores e o Esquecimento do Faial

Sob um manto de silêncios e cumplicidades, o Faial volta a assistir, impassível, à passagem da Feira Agrícola dos Açores para outras paragens, com destaque para São Miguel, que acolherá o evento pela quarta vez nos últimos anos. Apesar das críticas do passado à centralização excessiva, hoje impera um silêncio já habitual sempre que se trata de defender o Faial em primeiro lugar.

Quando foi criada, a Feira Agrícola dos Açores tinha na sua génese a rotatividade entre as ilhas de São Miguel, Terceira e Faial, conforme acordado entre as associações locais. No entanto, na nova realidade açoriana, outros valores impõem-se, e a centralização parece falar mais alto. A promessa de equidade entre as ilhas foi substituída por uma prática que favorece, de forma sistemática, uma só ilha. Este desvio do compromisso original não é apenas uma questão de logística, mas sim o reflexo de uma política que desvaloriza as restantes ilhas, especialmente o Faial, que apenas recebeu o evento uma vez desde 2014. A falta de transparência e a ausência de responsabilização por parte das entidades organizadoras perpetuam uma cultura de favoritismo e negligência, comprometendo a coesão regional e a confiança nas instituições — tudo envolto num silêncio conveniente por parte das entidades locais.

Entre 2014 e 2025, São Miguel recebeu a feira em 2014, 2017, 2022 e voltará a recebê-la em 2025. A Terceira contou com três edições realizadas em 2015, 2018 e 2023. A ilha do Pico acolheu o evento duas vezes, em 2016 e 2024, enquanto o Faial teve apenas uma edição, em 2019. Nos anos de 2020 e 2021, a feira não foi realizada, refletindo os impactos das restrições associadas à pandemia. A estatística é clara: ao longo destes anos, o Faial foi preterido, esquecido e ignorado.

A recorrente ausência da ilha do Faial no calendário da feira sugere mais do que uma simples rotatividade. Revela uma falta de compromisso político e institucional com a equidade entre as ilhas. Mudam-se os protagonistas, mas os hábitos perpetuam-se, tal como as cumplicidades políticas. O Faial, que já demonstrou capacidade e vontade, continua a ser preterido — e o silêncio local e regional que envolve esta exclusão é tão revelador quanto preocupante.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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