No Varadouro, onde as rochas mergulham no azul do mar e o vento leva e trás histórias antigas, resistia um guindaste de madeira. Fincado na pedra como um guardião solitário, fazia parte da paisagem tanto quanto o som do mar. Hoje já não está — foi levado com as obras, com o tempo, com o esquecimento que às vezes vem disfarçado de progresso.
Mas para quem o viu — mesmo que parado, mesmo sem o ver funcionar — ele continua ali. Era mais do que um simples mecanismo: era símbolo. Uma peça quase poética, inclinada sobre o mar, desafiando as marés e as décadas, como se dissesse silenciosamente que havia coisas que não se rendem facilmente.
Sempre que volto ao Varadouro, os olhos procuram-no — e embora não o encontrem, a alma sente-o. Ainda o vejo, feito de madeira gasta e ferragens que o tempo já tinha começado a devorar. Ainda o sinto, como uma presença fantasma que vigia o porto e nos lembra que ali, naquela ponta do mundo, houve resistência. Houve memória.
E há ainda.

Poético, e perfeitamente arrasador!….