Recordar para Resistir

No dia seguinte às Eleições Legislativas Nacionais

Em abril de 1975, Portugal renascia. Com coragem, milhares de homens e mulheres puseram fim a décadas de ditadura de extrema-direita. Deram-nos não só a oportunidade de viver em liberdade, como o dever de a defender — todos os dias. Não basta celebrarmos essa data com cravos ao peito. É preciso lembrar que a liberdade é frágil e que os seus inimigos são persistentes, organizados e sabem bem o que fazer para a destruir, pouco a pouco, com votos e promessas vazias.

Quem lê O Terceiro Reich em Poder, de Richard J. Evans, percebe com clareza como o regime nazi se instalou na Alemanha. Não foi de um dia para o outro, nem por um golpe de Estado. Foi uma construção meticulosa, feita através de eleições, propaganda, medo e manipulação. O livro é uma aula dolorosa sobre a facilidade com que uma sociedade aparentemente moderna e civilizada pode cair nas mãos de extremistas, quando a democracia é desvalorizada ou usada para fins antidemocráticos.

É impossível não traçar paralelos com o que se passa hoje, em várias partes do mundo — e, sim, também em Portugal. As eleições legislativas mais recentes foram mais do que uma simples ida às urnas. Foram mais um passo em direção a uma nova ameaça. Assusta-me, não por mim, mas pelos meus filhos, pelos jovens que hoje acreditam que a democracia é garantida, intocável, imutável. Não é.

O crescimento da extrema-direita em Portugal deve preocupar-nos a todos. Não estamos a falar apenas de opiniões diferentes ou propostas políticas alternativas. Estamos a falar de forças que abertamente colocam em causa os direitos humanos, a liberdade de imprensa, a igualdade de género, a justiça social, e até a própria Constituição. Gritam “liberdade”, mas o que desejam é o controlo; dizem defender o “cidadão comum”, mas atacam sempre os mais frágeis: os imigrantes, os pobres, as mulheres, as minorias.

Eu não terei medo. Sempre lutarei contra o racismo, a xenofobia, o ódio. Nunca servirei de muleta a quem quer erguer um país onde apenas alguns têm direitos e os outros devem calar-se. Não serei alicerce de nenhuma sociedade onde o medo se imponha à dignidade humana.

A História ensina-nos. Cabe-nos a nós escutá-la. E não, não se trata de exagero ou histeria. Trata-se de reconhecer os sinais, antes que seja tarde. O nazismo também começou com palavras. Depois vieram as leis, os silêncios, os desaparecimentos, os campos, os horrores. Quem não conhece essa história, ou pior, quem a nega ou ridiculariza, está a abrir a porta a que se repita — com outras caras, outras bandeiras, mas com os mesmos efeitos devastadores.

Portugal não é imune. Nenhum país o é. As democracias morrem devagar, quando deixamos de lutar por elas. Morrem quando aceitamos “pequenos” ataques à imprensa, às liberdades individuais, aos direitos das mulheres, dos trabalhadores, das minorias. Morrem quando a indiferença se instala — e quando permitimos que os oportunistas tomem o microfone da política.

Os partidos populistas e demagógicos que hoje se apresentam como “defensores do povo” são, na verdade, especialistas em manipulação. Usam o descontentamento legítimo de muitos para semear o ódio, dividir a sociedade e ganhar poder à custa da verdade. Não têm soluções reais — apenas bodes expiatórios. Não querem construir um país melhor — querem dominar um país mais fraco, com menos consciência, menos liberdade e menos direitos.

Eles não vieram para reformar a democracia, vieram para a destruir por dentro. Prometem “ordem”, mas o que oferecem é autoritarismo. Dizem-se “a voz do povo”, mas calam quem não concorda. Riem-se da História, desprezam a Constituição, insultam os mais frágeis e fazem da mentira o seu principal programa eleitoral. São perigosos — e já provaram do que são capazes quando chegam ao poder, noutros tempos e noutros países.

Não podemos cair na armadilha do discurso fácil. Não podemos normalizar o extremismo, relativizar o ódio ou tratar o populismo como apenas mais uma cor no espectro político. Não é. É um veneno. E quanto mais cedo o enfrentarmos, mais chances temos de proteger a democracia.

A História está a avisar-nos — alto e claro. Que ninguém diga depois que não viu os sinais. Resistir é agora. Porque amanhã já será tarde.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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