Na freguesia do Capelo, na ilha do Faial, onde os ventos do vulcão sussurram histórias às árvores e os muros de pedra negra separam o tempo do agora, vivia a Avó Marquinhas. Era uma senhora de mãos calejadas pela terra e olhos sempre vivos, que pareciam saber mais do mundo do que o mundo sabia dela.
Apesar da idade, a Avó Marquinhas não se esquecia de nada, sobretudo do jogo do belamente, tradição que a acompanhava desde criança, trazida pelos mais velhos e mantida viva à força de risos e surpresas.
“Balamento, belamento, belamente…” cantava ela enquanto regava a horta e chamava as suas galinhas. Era mais do que um jogo, era quase oração. Na Quaresma, Marquinhas tornava-se uma verdadeira caçadora, quem se aproximasse dela distraído arriscava ouvir um sonoro “Belamente!” e a perder mais um ponto.
Mas naquele ano, sentia-se um pouco só. Os filhos estavam longe, e os netos pareciam já esquecer as tradições da ilha. Até que, um dia, chegou uma carta com um selo de Lisboa. Era da neta Glória:
“Avó Marquinhas, este ano passo a Páscoa consigo. Prepare-se… vamos jogar ao belamente como nos velhos tempos. Tenho treinado com os colegas da faculdade!”
Ao ler aquilo, a Avó Marquinhas sentiu o peito inflar como as velas de um barco a entrar no canal entre as ilhas. Comprou amêndoas e confeites, fez caramelos e guardou num frasco com folhas de louro, tudo para o cesto do prémio. E claro, treinou. Cada manhã, dizia “belamente” para o espelho, para o rádio, para o galo e até para o carteiro.
Quando Glória chegou, a Avó escondeu-se atrás do portão do quintal e, mal viu os sapatinhos da neta na entrada, disparou:
— Belamente, minha rica menina!
Glória riu-se até às lágrimas.
— Ainda nem dei um passo, avó!
Começava ali uma competição feroz e divertida. Jogavam de manhã, à noite, no Varadouro, no autocarro para a Horta, até durante a visita ao Porto dos Capelinhos (onde a Avó Marquinhas surpreendeu turistas com um “belamente” à neta, disfarçado de explicação geológica).
A brincadeira pegou, os vizinhos começaram a jogar também. Crianças da escola, senhores da padaria, o padre e até o presidente da junta. O Capelo estava tomado pelo espírito da Quaresma… e do belamente.
No Domingo de Páscoa, reuniram-se todos no Império do Espírito Santo. Fizeram a contagem. Glória ficou em segundo, com 37 pontos. A vencedora, com 41 “belamentes” certeiros, foi a invencível Avó Marquinhas.
Quando recebeu o cesto, subiu ao altar e disse:
— Este jogo não é só brincadeira. É herança que se passa com gargalhadas. É o que nos liga uns aos outros. Se um dia eu já cá não estiver, prometam-me só uma coisa: continuem a jogar… belamente!
E assim ficou prometido. Desde então, o Capelo organiza a Semana do Belamente, e Glória, agora adulta, leva a tradição até ao continente — onde, às vezes, no meio de uma aula ou reunião, se ouve alguém sussurrar sorridente:
— Belamente e boa Páscoa!

“Belamento…” que alegria nos trazia o “jogo” nesta época que antecedia a Páscoa!
Boa Páscoa! Um grande abraço.