Ao longo da minha vida, conheci gerações inteiras de pescadores. Famílias que pareciam moldadas pelo sal e pelo vento, dedicadas à pesca como se fosse parte do seu destino. Com cada uma delas, aprendi mais do que palavras poderiam ensinar. A convivência trouxe-me lições que vão além do mar: a paciência diante da incerteza, o respeito pela natureza e o valor da camaradagem.

Desde pequeno, fui crescendo entre esses homens e mulheres. Sempre me pareceram mais velhos do que eram. Talvez fosse o sol que queimava as suas peles ou o peso das experiências que carregavam. Mesmo assim, havia uma vitalidade neles, uma energia quase palpável que me fascinava.
Passei dias muito bons, cheios de risos e partilhas. Mas também houve momentos tensos, como o desaparecimento do Manuel Mota. Foi numa dessas tardes perigosas que ele foi pescar de pedra para a “Ousada” e acabou levado por uma onda traiçoeira. Nunca nos esquecemos desse dia. Assim como nunca me esqueço das lavadias de agosto, quando o mar parecia querer engolir tudo. Perderam-se barcos, mas, felizmente, não vidas. Cada agosto era um lembrete da força indomável do oceano.
E como esquecer as casas de aprestos do Tomás Mota, no Varadouro? Eu dormi muitas noites ali, entre redes e remos, embalado pelo som das ondas. Naquele tempo, os jovens pediam aos pais permissão para sair à noite; eu, ao contrário, pedia para pernoitar no Varadouro. Era como estar em casa, cercado pela família.

Foi ainda muito jovem que saí com o Tomás Mota para a “Marca”, na pesca do chicharro. Lembro-me das madrugadas frias e do olhar atento dele, sempre em busca do menor sinal do cardume. Cada dia era uma aventura, mas também uma escola.
Depois havia o Manuel do Júlio, o velho lobo do mar. Ele conhecia cada buraco da costa do Capelo como quem conhece os segredos de um amigo de longa data. Passamos inúmeras noites a conversar, enquanto o levava para casa. Ele pescou na lancha do meu pai, o “Curioso”, e muitas vezes ao lado do meu irmão José Manuel. Eram parceiros de longa data, mais tarde com o Luis Carlos Decq Mota e com o António Decq Mota.
O Manuel do Júlio tinha uma habilidade que eu nunca consegui igualar: pescar lagostas com arame. Poucas eram as noites em que ele não trazia uma. Quando chegávamos ao porto pela manhã, ele embrulhava num pano, deixando apenas as hastes à mostra. Depois vinha até mim e dizia com um sorriso maroto: “Falta dedinho, andas sempre com medo do fundo.” Era uma brincadeira que durou anos e que me fazia rir todas as vezes.

Ao chegar do mar, havia sempre alguém pronto para fazer um bom caldo de peixe de chicharro, ali mesmo, em cima das brasas. E, claro, não faltavam boas pingas, trazidas de todas as partes da ilha. O porto do Varadouro era um lugar de encontros, de trocas. Uns vinham buscar um “punhado” de chicharro para o almoço do dia seguinte, outros compravam às caixas para salgar. As pessoas vinham de várias freguesias para garantir o seu peixe.
Era um porto cheio de vida. Havia camaradagem, mas também desavindas – como em toda família. A convivência nem sempre era fácil, mas havia algo que nos unia a todos: o amor pelo mar. Era ele quem ditava os ritmos das nossas vidas, e era por ele que todos nós vivíamos.
Agora, ao recordar essas memórias, sinto o cheiro do sal, ouço o eco das conversas e vejo os rostos que fizeram parte dessa história. O Varadouro, o mar e aqueles que o desafiavam nunca sairão de mim. São parte de quem sou, de quem sempre serei.

Que belas recordações! Obrigado.
Sem nunca ter acompanhado essas belas vivências nos mares das nossas costas, para além dumas simples banhocas na praia de Santa Cruz, consigo sentir o “cheiro” da maresia nas tuas lindas palavras. Parabéns!
Grande abraço.
Mário