Publicado no Jornal Incentivo de 27 de Fevereiro de 2026
O trail running nos Açores não começou por acaso nem nasceu disperso. Teve um início claro, uma geografia definida e uma estratégia implícita que, durante vários anos, gerou resultados evidentes. O seu ponto de partida foi a ilha do Faial, com o Azores Trail Run, criado em 2014, então a única prova do género na Região. Mais do que uma corrida, afirmou-se como um eficaz veículo de promoção do destino Açores, sustentado por forte cobertura mediática e alinhado com a imagem de território de natureza, sustentabilidade e autenticidade que a Região procurava projetar.

Ao longo de uma década, o Azores Trail Run construiu um percurso raro no contexto regional. Reuniu milhares de participantes de mais de 60 países, um dado público e verificável que demonstra a dimensão internacional atingida. Não se tratava apenas de números, mas de reputação, notoriedade externa e posicionamento estratégico. Aquilo que tantas políticas públicas tentam alcançar sem sucesso.

Desde cedo, o projeto assentou numa parceria sólida entre o Clube Independente de Atletismo Ilha Azul, o Governo Regional dos Açores e a Câmara Municipal da Horta. Essa articulação garantiu estabilidade organizativa, continuidade e crescimento sustentado. Os resultados foram claros: a prova contribuiu para a extensão da época alta turística, ao realizar-se em maio, e demonstrou que o desporto podia ser um instrumento sério e eficaz de política turística e territorial. Esse percurso foi reconhecido em 2023, quando o Azores Trail Run recebeu o Prémio Nacional de Turismo, na categoria Turismo Inovador.
Foi precisamente esse sucesso que levou o Governo Regional a apostar na expansão do trail running a outras ilhas. Até aqui, nada de errado. O problema surgiu quando essa expansão deixou de ser complementar e passou a ser concorrencial. Em vez de reforçar o Azores Trail Run como prova rainha e principal referência do trail nos Açores, optou-se por uma lógica de dispersão. Os apoios fragmentaram-se, a atenção mediática dividiu-se e a centralidade estratégica perdeu-se.

A prova original foi forçada a mudar de nome, passando a chamar-se Ultra Blue Island. Quando uma marca consolidada precisa de ser rebatizada para continuar a existir, não estamos perante uma simples falha estratégica, mas perante uma decisão imposta, ainda que raramente assumida.
A multiplicação de eventos, sem hierarquia clara, acabou por diluir impacto, identidade e retorno promocional. Hoje realizam-se provas de trail running em quase todas as ilhas. À primeira vista, isto pode parecer vitalidade, mas a questão essencial mantém-se: onde está o evento estruturante? Onde está a prova que agrega notoriedade, cria massa crítica, atrai atletas de elite e projeta a Região de forma consistente?
O contraste torna-se ainda mais evidente quando se analisa a acessibilidade aérea, fator que hoje determina, de forma direta, a competitividade entre provas. No caso de eventos como o Azores Bravos Trail, recentemente apresentado, a Ilha Terceira apresenta condições claramente mais favoráveis: os voos diretos desde Lisboa rondam os 200 euros e, a partir do Porto, situam-se pouco acima desse valor, permitindo deslocações rápidas, previsíveis e financeiramente acessíveis para atletas nacionais e estrangeiros.
No Faial, para o início do mês de maio, o cenário é radicalmente diferente. Uma viagem de ida e volta desde Lisboa custa entre 500 e 610 euros, quase sempre com escala. A partir do Porto, os valores variam entre 490 e 720 euros, com escala obrigatória e tempos de viagem que podem chegar ao triplo dos registados para a Terceira. Em termos simples, voar para o Faial custa entre 2,5 e 3 vezes mais. Em muitos casos, a poucas semanas da prova, nem sequer existem voos disponíveis em datas compatíveis com o evento.

Perante uma diferença de preços tão colossal, a decisão torna-se óbvia. Quem tem de escolher onde competir, investindo tempo e dinheiro próprios, opta naturalmente pelo destino mais barato, mais acessível e logisticamente mais simples. A competitividade entre provas não se escreve apenas nos trilhos — escreve-se, antes de tudo, nas acessibilidades aéreas. Como se tudo isto não bastasse, em 2025 o Governo Regional retirou o apoio à mais antiga e consolidada prova de trail running dos Açores. Continuamos a afirmar que nada mudou? Mudou e só não vê quem não quer.
No Faial, a perda de centralidade foi sendo normalizada quando se escolheu defender partidos em vez de colocar a ilha em primeiro lugar. A erosão de uma marca construída ao longo de uma década passou a ser tratada como dano colateral inevitável. Não o é. Resulta de opções políticas concretas, com impactos mensuráveis.
O trail running nos Açores precisava de crescer, sim. Mas crescer não é espalhar recursos até nada sobrar, nem apagar o que já provou funcionar. Isso não é estratégia.
É esquecimento seletivo.
E quando a memória falha, a Região perde coerência, perde visão e perde a capacidade de aprender com o seu próprio sucesso.
















