Ao Abrir da Manhã – Azores Trail Run: quando o sucesso se torna inconveniente

Publicado no Jornal Incentivo de 27 de Fevereiro de 2026 

O trail running nos Açores não começou por acaso nem nasceu disperso. Teve um início claro, uma geografia definida e uma estratégia implícita que, durante vários anos, gerou resultados evidentes. O seu ponto de partida foi a ilha do Faial, com o Azores Trail Run, criado em 2014, então a única prova do género na Região. Mais do que uma corrida, afirmou-se como um eficaz veículo de promoção do destino Açores, sustentado por forte cobertura mediática e alinhado com a imagem de território de natureza, sustentabilidade e autenticidade que a Região procurava projetar.

Ao longo de uma década, o Azores Trail Run construiu um percurso raro no contexto regional. Reuniu milhares de participantes de mais de 60 países, um dado público e verificável que demonstra a dimensão internacional atingida. Não se tratava apenas de números, mas de reputação, notoriedade externa e posicionamento estratégico. Aquilo que tantas políticas públicas tentam alcançar sem sucesso.

Desde cedo, o projeto assentou numa parceria sólida entre o Clube Independente de Atletismo Ilha Azul, o Governo Regional dos Açores e a Câmara Municipal da Horta. Essa articulação garantiu estabilidade organizativa, continuidade e crescimento sustentado. Os resultados foram claros: a prova contribuiu para a extensão da época alta turística, ao realizar-se em maio, e demonstrou que o desporto podia ser um instrumento sério e eficaz de política turística e territorial. Esse percurso foi reconhecido em 2023, quando o Azores Trail Run recebeu o Prémio Nacional de Turismo, na categoria Turismo Inovador.

Foi precisamente esse sucesso que levou o Governo Regional a apostar na expansão do trail running a outras ilhas. Até aqui, nada de errado. O problema surgiu quando essa expansão deixou de ser complementar e passou a ser concorrencial. Em vez de reforçar o Azores Trail Run como prova rainha e principal referência do trail nos Açores, optou-se por uma lógica de dispersão. Os apoios fragmentaram-se, a atenção mediática dividiu-se e a centralidade estratégica perdeu-se.

A prova original foi forçada a mudar de nome, passando a chamar-se Ultra Blue Island. Quando uma marca consolidada precisa de ser rebatizada para continuar a existir, não estamos perante uma simples falha estratégica, mas perante uma decisão imposta, ainda que raramente assumida.

A multiplicação de eventos, sem hierarquia clara, acabou por diluir impacto, identidade e retorno promocional. Hoje realizam-se provas de trail running em quase todas as ilhas. À primeira vista, isto pode parecer vitalidade, mas a questão essencial mantém-se: onde está o evento estruturante? Onde está a prova que agrega notoriedade, cria massa crítica, atrai atletas de elite e projeta a Região de forma consistente?

O contraste torna-se ainda mais evidente quando se analisa a acessibilidade aérea, fator que hoje determina, de forma direta, a competitividade entre provas. No caso de eventos como o Azores Bravos Trail, recentemente apresentado, a Ilha Terceira apresenta condições claramente mais favoráveis: os voos diretos desde Lisboa rondam os 200 euros e, a partir do Porto, situam-se pouco acima desse valor, permitindo deslocações rápidas, previsíveis e financeiramente acessíveis para atletas nacionais e estrangeiros.

No Faial, para o início do mês de maio, o cenário é radicalmente diferente. Uma viagem de ida e volta desde Lisboa custa entre 500 e 610 euros, quase sempre com escala. A partir do Porto, os valores variam entre 490 e 720 euros, com escala obrigatória e tempos de viagem que podem chegar ao triplo dos registados para a Terceira. Em termos simples, voar para o Faial custa entre 2,5 e 3 vezes mais. Em muitos casos, a poucas semanas da prova, nem sequer existem voos disponíveis em datas compatíveis com o evento.

Perante uma diferença de preços tão colossal, a decisão torna-se óbvia. Quem tem de escolher onde competir, investindo tempo e dinheiro próprios, opta naturalmente pelo destino mais barato, mais acessível e logisticamente mais simples. A competitividade entre provas não se escreve apenas nos trilhos — escreve-se, antes de tudo, nas acessibilidades aéreas. Como se tudo isto não bastasse, em 2025 o Governo Regional retirou o apoio à mais antiga e consolidada prova de trail running dos Açores. Continuamos a afirmar que nada mudou? Mudou e só não vê quem não quer.

No Faial, a perda de centralidade foi sendo normalizada quando se escolheu defender partidos em vez de colocar a ilha em primeiro lugar. A erosão de uma marca construída ao longo de uma década passou a ser tratada como dano colateral inevitável. Não o é. Resulta de opções políticas concretas, com impactos mensuráveis.

O trail running nos Açores precisava de crescer, sim. Mas crescer não é espalhar recursos até nada sobrar, nem apagar o que já provou funcionar. Isso não é estratégia.

É esquecimento seletivo.

E quando a memória falha, a Região perde coerência, perde visão e perde a capacidade de aprender com o seu próprio sucesso.

Rostos do Porto do Varadouro

A rubrica “Rostos do Porto do Varadouro” recorda pessoas que marcaram a minha vida e outras que deixaram a sua marca naquele lugar. São histórias, memórias e vivências ligadas ao Porto do Varadouro e à sua gente. Ao recordar estes rostos, preserva-se a memória de uma comunidade, porque um porto não é feito apenas de pedra e mar, mas também das pessoas que lhe deram vida.

Manuel Leonardo Faria — “Manuel do Júlio”
(1942–2003)

Manuel Leonardo Faria, conhecido como Manuel do Júlio, foi um daqueles homens que deixam marca onde passam. Nascido a 10 de novembro de 1942, encontrou no Porto do Varadouro não apenas o seu trabalho, mas a sua vida inteira. Conhecia cada detalhe da nossa costa, cada pedra e cada mudança do maré como poucos. Era essa relação profunda com o mar que o tornava um pescador único, respeitado por todos os que partilhavam com ele as lides da pesca.

No Varadouro, o Manuel era mais do que uma presença habitual, era uma referência. A sua experiência, a sua palavra certa e a sua forma simples de estar fizeram dele um homem admirado por todos nós. Para muitos, foi mestre, companheiro, amigo para outros, inspiração. Para todos, foi um rosto que se confunde com a própria história da pesca do Porto do Varadouro.

Partiu a 15 de agosto de 2003, mas permanece vivo na memória dos que o conheceram e nos lugares que tantas vezes percorreu. O mar, que moldou a sua vida, guarda ainda o eco do seu nome. Hoje recordamo-lo com respeito e gratidão, pelo pescador que foi, pelo homem que continua a ser para este porto e para todos nós.

Após 66 anos de ausência

Duas Dabneys vistam o Faial – fazendo uma vida não de turistas mas de verdadeiros faialenses

Jornal ” Correio da Horta” de 31 de Maio de 1958


A presença na Horta de duas descendentes de Mrs. Alice Foubes, ligadas à família dos cônsules Dabney e Howland, proporcionou a oportunidade de recolher alguns elementos sobre a vida dessa ilustre família americana que, no século XIX, exerceu funções consulares no Faial e deixou na ilha um nome profundamente vincado. As duas distintas senhoras vieram com o propósito de conhecer os lugares onde os seus antepassados viveram e que tanto admiraram.

Para dar à visita um cunho mais real, o encontro teve lugar na antiga residência de John Pomeroy Dabney, então conhecida por “Cedars House”, hoje propriedade da Commercial Cable Company e residência do cônsul Percy Wilkins, que ofereceu às visitantes a sua habitual hospitalidade e assistência.

Questionada sobre o motivo da visita, Mrs. Nancy Dabney Hurd explicou que, ao longo de gerações, a família sempre falara do Faial com amor e saudade, o que as levou a querer conhecer os locais onde os seus antepassados viveram.

Ambas esclareceram ser bisnetas do cônsul Carlos Guilherme Dabney, que exerceu funções na ilha entre 1826 e 1865. Teve dois filhos: John Pomeroy Dabney, avô de Nancy, e Samuel N. Dabney, avô de Alice.

O primeiro membro da família Dabney a chegar ao Faial foi John Bass Dabney, que construiu e residiu no palacete Bagatelle. Aportou à ilha em 1804 para se inteirar das circunstâncias em que um primo seu havia morrido, vítima de um naufrágio nas costas faialenses. Na época, viajava com frequência entre a França e os Estados Unidos, num período de intensas relações comerciais entre os dois países. Numa dessas viagens, tendo aportado à Horta e apreciado o local, decidiu fixar-se definitivamente na ilha.

Mandou vir a mulher e os cinco filhos, sendo o mais velho, Carlos Guilherme Dabney, então com apenas onze anos. A navegação à vela encontrava-se no auge e o porto da Horta era procurado não só por numerosas baleeiras, mas também por muitos outros navios que ali se abasteciam de víveres e água fresca, ou recuperavam tripulantes doentes e feridos. John Bass Dabney soube aproveitar essas circunstâncias e estabeleceu um negócio de reabastecimento, no qual rapidamente fez fortuna.

O seu filho Carlos Guilherme não tardou a ser nomeado cônsul dos Estados Unidos, numa altura em que o movimento de navios americanos aumentava diariamente. Quanto às impressões sobre a ilha, as visitantes afirmaram que tudo o que os seus antepassados haviam dito, tanto sobre a beleza natural como sobre a hospitalidade dos faialenses, se revelou ainda insuficiente para traduzir a realidade. Apesar de nunca terem estado antes no Faial, a ilha não lhes era estranha, pois a família conservava álbuns com a história da sua vida na ilha, ilustrados com aguarelas, textos manuscritos e numerosas fotografias tiradas com uma das primeiras máquinas fotográficas então existentes.

As senhoras referiram ainda que já conheciam de nome os principais sítios do Faial e do Pico, bem como tradições locais, incluindo as sopas do Espírito Santo. Questionadas sobre a razão da saída da família Dabney do Faial, explicaram que o último a deixar a ilha foi Samuel Dabney, em 1892. Debilitado de saúde e perante o declínio do movimento portuário e dos negócios, regressou aos Estados Unidos, fixando-se em San Diego, onde faleceu no ano seguinte.

Atualmente, ambas residem perto de Boston. Alice casou com um cavalheiro de New Bedford, antiga capital da indústria baleeira e local onde se estabeleceu uma significativa comunidade portuguesa. Durante a conversa, Mrs. Percy Wilkins observou que as visitantes conheciam de nome todos os principais locais do Faial e do Pico, dispensando qualquer orientação para as visitas que desejavam realizar.

De facto, os antepassados das senhoras Dabney conheciam profundamente as ilhas do Faial e do Pico. Além das casas que possuíam na cidade — Cedars, Fredonia e Bagatelle — mantinham uma residência de verão no Capelo, chamada “Woodcock Lodge”, outra na Praia do Norte, uma no Monte da Guia e ainda outra na Areia Larga.

Questionadas sobre o impacto do fenómeno vulcânico e das casas destruídas pelo terramoto, responderam que tudo isso as impressionara profundamente, mas que, mesmo assim, apreciaram a oportunidade de visitar a ilha nesse momento, recordando que também no século XIX os seus antepassados haviam vivido períodos de crise semelhantes. Manifestaram ainda o seu pesar pelos acontecimentos recentes, sublinhando que o dever prioritário era o auxílio aos sinistrados.

Segundo esclareceu Mrs. Wilkins, as senhoras Dabney fizeram no Faial uma estadia que não foi de simples turistas, mas de verdadeiras faialenses. Apesar de não serem católicas, assistiram à missa e demonstraram grande interesse pelos costumes locais, especialmente pelas festas do Espírito Santo. No dia de Pentecostes, a criada preparou sopas e mostrou-lhas, tendo as visitantes reconhecido de imediato o prato, pois a mãe também o confeccionava nos Estados Unidos.

Tanto Mrs. Nancy Dabney Hurd como Mrs. Alice Foubes Howland mostraram-se encantadas com as paisagens e com a hospitalidade do povo faialense, que correspondeu plenamente às descrições feitas pela família ao longo de gerações. Ambas elogiaram igualmente o excelente estado de conservação da “Cedars House” e o cuidado e bom gosto que o casal Wilkins dedicava à sua manutenção.

Esta entrevista não teve outra pretensão senão a de contribuir com alguns elementos para o conhecimento da família Dabney no Faial, cuja presença está profundamente ligada à história faialense de todo o século XIX.

NOTA:

Quando esta reportagem foi publicada, em 31 de maio de 1958, a ilha do Faial atravessava um dos períodos mais dramáticos da sua história recente. O Vulcão dos Capelinhos encontrava-se ainda em plena atividade eruptiva, alterando profundamente a paisagem da ilha e condicionando o quotidiano das populações, em particular nas freguesias do Capelo e da Praia do Norte.

Poucos dias antes, na noite de 12 para 13 de maio de 1958, um forte terramoto provocara um elevado grau de destruição, sobretudo nas freguesias da Praia do Norte e do Capelo, causando o colapso de numerosas habitações, desalojando famílias e agravando ainda mais uma situação já marcada pela instabilidade sísmica e vulcânica

É neste contexto de crise natural, incerteza e sofrimento coletivo que se dá a visita ao Faial de Mrs. Nancy Dabney Hurd e Mrs. Alice Foubes Howland, descendentes da família Dabney. A referência, no próprio artigo, às casas destruídas, aos sinistrados e à necessidade de priorizar o auxílio às vítimas ganha assim um significado mais profundo, revelando não apenas a memória histórica da família, mas também a forma como a ilha recebia visitantes num momento de grande adversidade.

Este enquadramento confere à reportagem um valor adicional, ao cruzar a memória do Faial do século XIX com um dos episódios mais marcantes do século XX, sublinhando a resiliência da população faialense perante a adversidade.

Relíquias de Família

Lá por casa, malhar canários da terra era mais do que costume, era herança. Diziam que tudo começara nas mãos hábeis do meu avô, João Garcia, Jr., homem de paciência infinita e paixão declarada por fazer gaiolas. Havia-as de todos os tipos e feitios, umas para ficar, outras para vender, todas feitas com o tempo certo das coisas bem feitas.

Naquele tempo, eram poucas as casas no Faial que não tivessem um “cantador da terra” à porta. O canto do canário da terra fazia parte do amanhecer na nossa comunidade, era como o cheiro do pão quente que nos entrava cedo em casa.

As armadilhas eram simples e engenhosa, madeira bem cortada, uma rede leve, com o céu sempre à vista, não fossem os canários pensar que entravam numa loja fechada. Amarrava-se um fio fino à cana da índia, espalhava-se trigo no chão e depois era esperar, escondido atrás de uma moita, em silêncio absoluto e os olhos bem atentos. Mais tarde vieram as redes, mas o segredo continuava a ser o mesmo: paciência.

Conta-se que, no final do inverno, já a entrar março, chegavam os canários da terra. Vinham como quem regressa a casa, trazendo o canto novo da estação. E assim, entre silêncios, trigo espalhado e redes erguidas contra o céu aberto, mantinha-se viva uma tradição que hoje sobrevive mais na memória do que nas mãos. Ainda assim, os canários da terra continuam a chegar na mesma época, como este da fotografia, tirada por mim no passado domingo, 1 de março.

Ao Abrir da Manhã – Quando fica só o eco das palavras

Publicado no Jornal Incentivo de 19 de Fevereiro de 2026

Depois de apresentada a programação da “Missão Açores” da SATA para o Verão IATA, e depois do “borrego” que foi o processo de privatização da Azores Airlines, importa regressar aos factos e à realidade faialense. O Presidente da Companhia afirmou, tal como os seus antecessores em entrevista à RTP Açores, que não haverá aumento de oferta para o Faial, uma vez que esta depende exclusivamente da procura. Caso se revele necessário reforçar, disse, tal será feito “se houver necessidade”. A questão é simples: como será feito esse reforço? A resposta está implícita — com os dois A320 disponíveis, já que este ano, nestas rotas, a companhia não recorrerá a aviões alugados, conforme assumido publicamente. Este cenário não augura nada de positivo, bem pelo contrário. Acresce ainda que, tanto quanto é do conhecimento público, a Câmara Municipal da Horta e o Conselho de Administração da SATA não reuniram para discutir esta matéria, reforçando a sensação de “deixa andar”.

7 de setembro de 2016
Centenas de faialenses concentraram-se em frente à sede do Parlamento Regional, na Horta, exigindo melhores acessibilidades aéreas, menos cancelamentos e soluções para o Aeroporto da Horta. Um momento de mobilização cívica em defesa da ilha, da sua economia e do direito à mobilidade.

Perante este contexto, torna-se inevitável colocar uma pergunta incómoda: por que razão houve uma manifestação junto ao Parlamento dos Açores, se hoje estamos objetivamente pior e vemos outras ilhas a reforçar e a avançar? É neste quadro que importa desmontar a narrativa recorrente da chamada “rota deficitária”.

A ligação aérea Lisboa–Horta integra o regime de Obrigações de Serviço Público (OSP), criado para garantir a continuidade territorial e assegurar um mínimo de conectividade aérea. No entanto, a realidade desta rota revela uma contradição crescente entre o apoio público existente, os preços praticados e o discurso da companhia aérea. O concurso de OSP não obriga a SATA a assegurar toda a operação anual inscrita no planeamento IATA do Grupo. O contrato impõe apenas um mínimo obrigatório de frequências: quatro voos semanais no inverno IATA e seis no verão. Tudo o que excede estes valores resulta de decisões exclusivamente comerciais e não de imposições do Estado Português.

Importa recordar que, contrariamente à ideia de um reforço estival, a operação para o Faial foi significativamente reduzida desde 2015. Nesse período, chegaram a existir 14 voos semanais nos meses de julho e agosto, um nível de oferta que nunca mais foi reposto, apesar do crescimento da procura e da necessidade evidente.

Os dados seguintes referem-se à totalidade da operação anual da SATA na rota Lisboa–Horta–Lisboa. Numa operação típica de cerca de 708 voos anuais (ida e volta), realizados com aeronaves A320 com capacidade máxima para 180 passageiros, a oferta total aproxima-se dos 127 mil lugares por ano. Considerando que o montante global das Obrigações de Serviço Público (OSP) está fixado em 62,5 milhões de euros para o período de 2026 a 2031 e admitindo uma repartição proporcional pelas várias rotas abrangidas, estima-se que a ligação ao Faial absorva cerca de 4,9 milhões de euros anuais. Este valor corresponde a um apoio público implícito na ordem dos 77 euros por lugar e por sentido, ou aproximadamente 154 euros por passageiro numa viagem de ida e volta.

Apesar deste enquadramento manifestamente favorável, a companhia aérea continua a praticar tarifas elevadas, frequentemente desajustadas da realidade do mercado e contrárias ao espírito das OSP. A persistência de preços altos, mesmo em períodos de menor procura, fragiliza o argumento de que esta é uma ligação estruturalmente deficitária. Acresce que esta política tarifária acaba por penalizar de forma particular os residentes, agravada por uma definição pouco criteriosa dos tetos máximos de preços estabelecidos pelo Governo da República.

O argumento da “rota deficitária” é ainda mais frágil quando se considera que a capacidade mínima obrigatória está financeiramente protegida à partida. O risco estrutural da ligação não é comparável ao de uma rota totalmente liberalizada. Se a análise incidisse apenas sobre os voos obrigatórios das OSP, o apoio público implícito por passageiro seria ainda mais elevado.

Neste contexto, a decisão de não reforçar as rotações para o Faial não decorre de uma insuficiência de procura, mas de uma opção estratégica consciente de contenção da oferta, que perpetua a escassez de lugares e mantém a ilha dependente de decisões discricionárias. Esta opção é agravada pela ausência total de investimento na promoção da rota e pela inexistência de uma estratégia consistente de estímulo à procura.

Importa reconhecer o papel do Governo da República, que garantiu financeiramente a conectividade mínima ao Faial até 2031, reforçando o valor das OSP. A partir desse patamar, porém, a limitação da oferta, os preços praticados e a ausência de promoção resultam exclusivamente de decisões estratégicas da companhia aérea e do seu único acionista: o Governo Regional.

Em suma, a discussão sobre a ligação aérea ao Faial deve assentar em factos e não em narrativas convenientes. Existe apoio público relevante, a operação foi progressivamente reduzida desde 2015 e a oferta mantém-se limitada apesar da procura. Não se trata de uma inevitabilidade económica, mas de escolhas políticas e estratégicas claras, enquadradas numa tentativa crescente de empurrar o sistema aéreo regional para uma solução de um aeroporto único, Ponta Delgada. Essa deriva tem sido apenas contrariada pela capacidade política do Vice-Presidente do Governo, Artur Lima, que tem mantido a Terceira viva nesta matéria, e pela destreza do Secretário Regional das Finanças em afirmar o Pico como via alternativa dentro de uma necessária tripolaridade aérea.

As consequências destas opções fazem-se sentir diariamente na mobilidade e na coesão territorial, alimentando no Faial uma sensação persistente de abandono político e revelando a incapacidade das estruturas locais para reverter este cenário, uma realidade já criticada, e muito bem, no passado, mas hoje claramente agravada.

Fica, assim, a evidência de que promessas e votos não operam milagres quando a vontade política se perdeu, a decisão se afastou e a esta terra resta apenas o eco das palavras.

Ao abrir da Manhã – Ilhas “capitalinas”: quando o discurso não coincide com a prática

Publicado no Jornal Incentivo de 12 de Fevereiro de 2026

Ao longo dos anos consolidou-se, no discurso político regional, a ideia das chamadas ilhas “capitalinas”: São Miguel, Terceira e Faial. Não se trata de um estatuto formal, mas de uma construção política usada para justificar centralidades e opções estratégicas. No caso do Faial, essa designação é frequentemente evocada, não por ser capital, mas por acolher a Assembleia Legislativa e vários departamentos do Governo Regional. Contudo, quando se passa do discurso à prática, essa narrativa desfaz-se.

Se existisse, de facto, um estatuto funcional associado a esta alegada tripolaridade, ele deveria traduzir-se em maior proximidade política, diálogo institucional regular e igualdade de tratamento. O que sucede é precisamente o contrário. Enquanto o Governo Regional mantém reuniões regulares com os Conselhos de Ilha das restantes ilhas, incluindo São Miguel e Terceira, o Faial continua sistematicamente ignorado nesse diálogo. Esta diferença de tratamento é politicamente injustificável e revela uma opção consciente.

Quando o presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, afirma desconhecer pedidos de reunião do Conselho de Ilha do Faial, essa posição colide com declarações públicas reiteradas da sua presidente e com anos de crítica expressa em artigos de opinião. Mais do que um problema de formalismos, trata-se de responsabilidade política. O Governo não precisa de convite para ouvir e visitar uma ilha, um território que administra. O Faial não é apenas o troço de estrada entre o aeroporto e a Assembleia Regional.

Importa esclarecer, com a devida serenidade, que ninguém ignora as obras atualmente em curso, a larga maioria delas financiadas ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que termina no próximo mês de junho. Contudo, a execução do PRR não constitui um gesto de benevolência política para com o Faial, trata-se de uma obrigação institucional, financiada por recursos públicos e, portanto, devida às populações. Mais ainda, o que seria verdadeiramente expectável e exigível seria a sua execução integral, algo que, manifestamente, não aconteceu.

Importa não confundir investimento com equidade. Obras e betão, por mais visíveis e quantificáveis que sejam, não substituem o diálogo institucional nem apagam desigualdades persistentes no tratamento. Infraestruturas erguem-se com cimento, equipamentos adquirem-se com dotação orçamental, mas a confiança, essa, constrói-se com escuta, respeito e coerência nas decisões.

O Faial não reclama privilégios nem exige tratamento preferencial. Reivindica apenas o que é elementar numa Região que se diz coesa e solidária: igualdade de consideração, igualdade de prioridade e igualdade de compromisso. Nada além disso. Nada aquém disso. Apenas o mesmo.

As assimetrias tornam-se evidentes nas infraestruturas estratégicas. A comparação investimentos e de estratégia entre o Porto da Horta e os portos de Ponta Delgada e da Praia da Vitória é inevitável. Todos têm consciência de que o molhe norte foi uma má opção. Mas essa consciência não pode justificar uma inércia total. Continuar décadas a olhar para o mesmo problema, sem soluções alternativas, sem objetivos estratégicos, sem planeamento faseado e sem assegurar sequer a manutenção adequada, é um sinal de total abandono político. A culpa sucessivamente atribuída ao passado entretém politicamente, até pode convencer os mais partidariamente ativos, mas não resolve o presente, muito menos o futuro.

O mesmo se aplica à mobilidade aérea para o Faial. A desigualdade nas ligações mantém-se e, em cinco anos, nunca se ouviu o presidente do Governo assumir esta matéria como prioridade política. O que era exigido com firmeza a Vasco Cordeiro deixou de o ser. O que mudou? Têm hoje os faialenses mais e melhor mobilidade? A resposta é clara: não.

No aeroporto, fala-se naturalmente da ampliação da pista. As respostas existem, mas são vagas, cuidadosamente construídas para deixar tudo implícito sem assumir compromissos claros. Diferem na forma, mas coincidem no resultado, cinco anos depois, nada de estrutural foi feito. O contraste é gritante quando se olha para o aeroporto do Pico, para o das Lajes da Terceira ou para o de Ponta Delgada, onde o empenho político e o arrojo governativo são evidentes. No Faial, esse empenho nunca se materializou. E coloca-se uma pergunta legítima: onde estão hoje os dirigentes do PSD e do CDS-PP do Faial que, em 2019 e nos anos anteriores, não deixavam passar um dia sem críticas políticas quando o tema era a pista do aeroporto? O silêncio atual é tão revelador quanto o imobilismo.

A situação das estradas regionais, em particular do troço entre o aeroporto e a cidade da Horta, constitui mais um exemplo eloquente de uma negligência que já não pode ser atribuída ao acaso nem à mera contingência. Trata-se de uma via que, fragilizada desde as intervenções realizadas após o sismo, acumula agora mais cinco anos de progressiva degradação, sem que se vislumbre qualquer intervenção estrutural digna desse nome.

Não terá sido esta uma promessa eleitoral? Ou estará a promessa, como o piso, sujeita a abatimentos sucessivos? Há, nos Açores, alguma estrada principal de acesso a uma cidade que apresente semelhante estado? Falamos da primeira impressão de quem chega à nossa ilha e de uma via absolutamente essencial para quem aqui vive, trabalha e circula diariamente. Não é um detalhe periférico, é um cartão de visita e uma artéria vital. Resta saber se as viaturas oficiais conseguem atenuar a realidade do pavimento ou se, pelo contrário, tornam ainda mais evidente que esta deveria ser uma prioridade inadiável e uma das primeiras preocupações do Governo Regional. Afinal, mesmo o mais requintado amortecedor tem limites e a paciência dos faialenses também deveria ter.

Os faialenses já se pronunciaram democraticamente. Deram sucessivos votos de confiança ao PSD e à Coligação que nos governa. O balanço, porém, é difícil de ignorar: menos diálogo, menos ambição estratégica, menos atenção política à nossa ilha e, sobretudo, a perceção generalizada e crescente de que o Faial vai perdendo espaço nas diversas áreas todos os dias. O problema já não é partidário, é de coerência, justiça territorial e respeito institucional.

O Faial não pede privilégios. Exige apenas igualdade de tratamento. Tudo o resto é retórica.

Retratos da Memória

A fotografia regista o espaço urbano central da cidade da Horta (hoje conhecido como Largo Duque D`Ávila e Bolama, estátua ali colocada em 1970), ilha do Faial, na década de 40 ou inicio da década 50 do século XX. Em primeiro plano observa-se um “edifício de gaveto, de três pisos, cuja composição revela uma linguagem Art Déco tardia, patente na volumetria depurada, na simetria das fachadas, na verticalidade dos vãos e no coroamento em platibanda com elementos geométricos simplificados”. A tipologia e os elementos formais apontam para uma construção provável entre 1925 e 1935, integrada no processo de modernização urbana da Horta no primeiro terço do século XX. O rés-do-chão destinava-se a usos comerciais ou de serviços, mantendo-se os pisos superiores para habitação ou funções administrativas.

No espaço fronteiro encontram-se estacionadas várias camionetas de transporte coletivo de passageiros e um camião de mercadorias. As viaturas apresentam linhas arredondadas e carroçarias montadas sobre chassis industriais, características do período pós-Segunda Guerra Mundial. As camionetas correspondem, com elevada probabilidade, a chassis Ford ou Chevrolet, marcas largamente utilizadas em Portugal nas décadas de 1940 e 1950, com carroçarias executadas por encarroçadores nacionais, adaptadas ao transporte interurbano.

O conjunto evidencia a função da praça como nó de circulação rodoviária e espaço estruturante da malha urbana. A imagem documenta uma Horta em fase de transição, onde a arquitetura moderna do início do século XX convive com a crescente importância do transporte rodoviário, refletindo a evolução funcional e económica da cidade.

Fontes: Arquivo Regional dos Açores – Núcleo do Faial – Fotografias urbanas da Horta (anos 1930–1950).
Permitem comparação formal com edifícios; FERNANDES, José ManuelArquitetura Moderna Portuguesa

Relíquias de Família

Morgado José Francisco Terra Brum

Morgado José Francisco da Terra Brum, fidalgo da Casa Real por sucessão de seus ascendentes, foi Capitão-Mor do Faial (patente de 14 de março de 1818, quando o seu primo, o morgado Jorge da Cunha Brum Terra e Silveira, foi promovido a coronel de milícias, deixando por esse motivo o cargo de Capitão-Mor).

Jorge da Cunha Brum Terra e Silveira

Após a implantação do regime liberal, em 1832, foi nomeado pelo Imperador D. Pedro IV coronel de voluntários. Pelo governo de D. Maria II foi agraciado com a carta de conselho e o título de Barão de Alagoa em duas vidas, por decreto de 22 de dezembro de 1841.

Foi casado com D. Francisca Paula Brum da Silveira Terra Leite e Noronha, sua prima, filha do morgado, fidalgo e cavaleiro da Casa Real, Doutor da Capela, João José Brum, e de D. Marianna Victoria de Noronha, da ilha Terceira.

D. Francisca Paula Brum da Silveira Terra Leite e Noronha

Foi este morgado José Francisco da Terra Brum muito perseguido pelas suas ideias liberais, tendo sido preso e enviado para São Miguel com outros liberais desta ilha do Faial, e daí para Lisboa, regressando depois a São Miguel para serem julgados. Contudo, foram postos em liberdade quando a divisão liberal entrou em Ponta Delgada, após vencer a batalha da Ladeira da Velha, regressando em seguida à sua casa nesta ilha.

Quando o Conde de Vila Flor, mais tarde Duque da Terceira, ocupou militarmente esta ilha em nome de Sua Majestade a Senhora D. Maria II, o morgado Terra ainda se encontrava preso em São Miguel. No entanto, este grande caudilho da causa liberal foi hospedado em sua casa pela sua família.

Quando, porém, o Imperador D. Pedro IV, que veio em 1832 inspecionar os trabalhos da armada que se preparava no arsenal de Santa Cruz e que levou os 7.500 soldados liberais à Arenosa de Pampelide, designação então usada para a extensa faixa de areais junto ao Tejo, entre Belém e Alcântara, nos arredores de Lisboa, local escolhido para o desembarque das tropas liberais, já se encontrava no seio da sua família, teve a distinta honra de hospedar em sua casa o próprio Augusto Senhor e a sua comitiva.

O Imperador, regressando depois à ilha Terceira e sabendo que o Morgado Terra oferecia todos os anos um grande baile no dia de aniversário da sua filha mais velha, D. Joaquina Emília, a 22 de maio, e querendo dar ao Morgado Terra uma prova de consideração, veio aqui nesse mesmo dia no vapor Superb, chegando cerca das 11 horas da noite. Dirigiu-se à casa do Morgado Terra, onde entrou de surpresa, no meio do baile, para o qual estava preparado de casaca e grã-cruz de Cristo, retirando-se no dia seguinte para a Terceira.

Era o maior viticultor e vinicultor da ilha do Pico e foi um excelente administrador das importantes casas vinculadas, tanto a sua como a de sua esposa, fazendo sempre o melhor uso dos seus rendimentos, sobretudo em atos de caridade, nos quais era exemplar, assim como a sua esposa.

Faleceu a 22 de janeiro de 1842, deixando de si a melhor reputação. Sua esposa, a morgada D. Francisca Paula, senhora de grandes virtudes e que lhe sobreviveu, faleceu a 24 de junho de 1858.

Fontes: Álbum Açoriano