Relíquias de Família

Lá por casa, malhar canários da terra era mais do que costume, era herança. Diziam que tudo começara nas mãos hábeis do meu avô, João Garcia, Jr., homem de paciência infinita e paixão declarada por fazer gaiolas. Havia-as de todos os tipos e feitios, umas para ficar, outras para vender, todas feitas com o tempo certo das coisas bem feitas.

Naquele tempo, eram poucas as casas no Faial que não tivessem um “cantador da terra” à porta. O canto do canário da terra fazia parte do amanhecer na nossa comunidade, era como o cheiro do pão quente que nos entrava cedo em casa.

As armadilhas eram simples e engenhosa, madeira bem cortada, uma rede leve, com o céu sempre à vista, não fossem os canários pensar que entravam numa loja fechada. Amarrava-se um fio fino à cana da índia, espalhava-se trigo no chão e depois era esperar, escondido atrás de uma moita, em silêncio absoluto e os olhos bem atentos. Mais tarde vieram as redes, mas o segredo continuava a ser o mesmo: paciência.

Conta-se que, no final do inverno, já a entrar março, chegavam os canários da terra. Vinham como quem regressa a casa, trazendo o canto novo da estação. E assim, entre silêncios, trigo espalhado e redes erguidas contra o céu aberto, mantinha-se viva uma tradição que hoje sobrevive mais na memória do que nas mãos. Ainda assim, os canários da terra continuam a chegar na mesma época, como este da fotografia, tirada por mim no passado domingo, 1 de março.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

Leave a Reply

Discover more from Assim c´má Sim Blog

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading