Lá por casa, malhar canários da terra era mais do que costume, era herança. Diziam que tudo começara nas mãos hábeis do meu avô, João Garcia, Jr., homem de paciência infinita e paixão declarada por fazer gaiolas. Havia-as de todos os tipos e feitios, umas para ficar, outras para vender, todas feitas com o tempo certo das coisas bem feitas.
Naquele tempo, eram poucas as casas no Faial que não tivessem um “cantador da terra” à porta. O canto do canário da terra fazia parte do amanhecer na nossa comunidade, era como o cheiro do pão quente que nos entrava cedo em casa.
As armadilhas eram simples e engenhosa, madeira bem cortada, uma rede leve, com o céu sempre à vista, não fossem os canários pensar que entravam numa loja fechada. Amarrava-se um fio fino à cana da índia, espalhava-se trigo no chão e depois era esperar, escondido atrás de uma moita, em silêncio absoluto e os olhos bem atentos. Mais tarde vieram as redes, mas o segredo continuava a ser o mesmo: paciência.
Conta-se que, no final do inverno, já a entrar março, chegavam os canários da terra. Vinham como quem regressa a casa, trazendo o canto novo da estação. E assim, entre silêncios, trigo espalhado e redes erguidas contra o céu aberto, mantinha-se viva uma tradição que hoje sobrevive mais na memória do que nas mãos. Ainda assim, os canários da terra continuam a chegar na mesma época, como este da fotografia, tirada por mim no passado domingo, 1 de março.
