
“A voz dos pescadores” – 19 de julho de 1974
“Surgiu ao longe uma embarcação!
Corremos ao porto para ajudar a varar aquela lancha, que de certo já tinha partido de madrugada, em busca do peixe que iria matar a fome da família daqueles pescadores.
Fora do porto a já dita lanchinha teve que esperar por uma oportunidade para poder entrar no mesmo porto, enquanto um dos pescadores (já em terra) foi pedir auxílio para a varar.
Depois de muitos esforços e riscos sempre se conseguiu vará-la.
Após isto, enquanto lavavam a lancha (para que no dia seguinte pudesse fazer uma igual faina) travou-se uma conversa entre estes homens (pescadores).

— Ó Manel, porque é que vocês não falam para que façam um porto com condições necessárias para o varamento destas lanchas? Isto assim não dá.
— Pois é, o povo agora é que manda!… pelo menos assim é que ouvimos dizer para aí, mas… já nem vale a pena contar às vezes que já fomos à cidade para tratar desse assunto, e sabes o que nos responderam?
— Não, mas penso que deve ter sido alguma coisa de bom!!!
— De bom?! Ora escuta o que nos disseram:
— Quando não estiver bom de varar as lanchas aí, venham vará-las para a cidade.
— Vês. E ainda dizem que o povo é que manda agora, manda o quê?!
— Oh Manel, isso era no tempo do fascismo. Agora somos livres e temos o direito de pedir tudo aquilo que seja para melhorar as nossas condições de vida.
— Isso é tudo paleio, Mestre Xico. Olha, mas sabes o que eu gostava que um dia se chegasse a fazer?
— Pois bem, era o seguinte — aqueles senhores, a quem a gente tem que se curvar para lhes pedir alguma coisa, haviam de vir um dia pescar com a gente e depois ajudar a varar a lancha, para ver se gostavam de perder assim de repente ou duma hora para a outra as suas vidinhas… Ah, não está certo assim?!!…
— Acho que sim Manel, mas a meu ver parece-me que — eles — que lhes pareciam fazer um arranjo neste porto nem que fosse mesmo para “inglês ver”, algo que sofrem o que a gente sofre.
— Pois está a ver Mestre Xico, eu já sou velho, e mesmo com este novo governo nem sei se o povo vai-se melhorar, porque no meio disto tudo ainda aparece um que está acima da gente e pensa enganar-nos.
— Não Manel, liberdade é liberdade, e se agora o povo pode tomar as suas avenidas para a frente e queiram ou não queiram porto havemos de ter.
Eva Rodrigues
N. A. — Reparo agora nos jornais que foi posto a concurso o arranjo dos portos do Varadouro. Ainda bem.”