Publicado no Jornal Incentivo de 28 de Abril de 2026
Liberdade – A Revolução de 25 de Abril recorda-nos o valor da liberdade e da democracia, enquanto o Dia do Trabalhador reafirma a dignidade no trabalho e a necessidade de condições justas, é à luz destes princípios que, como empresário, olho para a nova lei laboral e não encontro nela uma proteção efetiva dos trabalhadores nem um verdadeiro estímulo à economia. Mais regras não significam melhores condições: instalou-se a percepção, a meu ver errada, de que quem investe e cria emprego beneficia de maior flexibilidade, mas essa promessa não se traduz numa real agilização dos processos, pelo contrário, limita direitos e aumenta a rigidez.

A proposta do novo pacote laboral revela-se desajustada à nossa realidade, condicionará o crescimento e reduzirá oportunidades aos nossos jovens, uma lei desadequada não protege, bloqueia. Persistem problemas estruturais, como um Estado pesado, burocrático e pouco ágil, que penaliza quem quer produzir e empregar, criando mais forma do que conteúdo e deixando um vazio no essencial: melhores condições de trabalho e estabilidade.
Celebrar Abril e o 1.º de Maio exige mais do que palavras, exige equilíbrio entre proteger trabalhadores e permitir às empresas crescer.
Bairrismos – O discurso do Presidente do Conselho de Ilha de São Miguel, na tomada de posse da Mesa, ao classificá-la como “farol dos Açores”, ignora o esvaziamento progressivo de outras ilhas, como o Faial. Não se trata apenas de números, de PIB ou de bairrismos. Trata-se de decisões políticas que, de forma deliberada, retiraram funções estratégicas e enfraqueceram um modelo que antes assentava no equilíbrio e na coesão territorial das nove ilhas.

O Porto da Horta perdeu centralidade logística, o Aeroporto da Horta foi progressivamente desvalorizado e instituições como a Escola do Magistério Primário, o Regimento de Infantaria e a Rádio Naval desapareceram. Atividades industriais, como a COFACO e outras, foram sendo deslocalizadas ou fragmentadas. A concentração de centros de decisão em São Miguel e na Terceira acentuou este desequilíbrio.
Falar em eficiência sem reconhecer este processo é ignorar a realidade. Os Açores sempre dependeram de uma lógica de equilíbrio entre ilhas. Quando se retira massa crítica a umas para a concentrar noutras, não se fortalece o arquipélago, fragiliza-se. Assim se abre caminho para um discurso perigoso: o das “locomotivas” e das “ilhas deficitárias”.
Faltou água – Os cortes de água, cada vez mais frequentes, e os episódios de água imprópria para consumo no Faial deixaram de ser exceção para se tornarem rotina. O problema é conhecido, tem sido repetidamente sinalizado, mas continua sem resposta eficaz, sobretudo ao nível da comunicação.

Foi neste contexto que instituições essenciais foram afetadas, sem aviso prévio, no passado dia 23 de abril. As consequências foram imediatas: serviços condicionados, atividades interrompidas e profissionais forçados a improvisar soluções. Trata-se de uma situação inaceitável quando estão em causa funções críticas para a comunidade.
Não podemos continuar a reagir com avisos tardios nas redes sociais. Isso não chega, não é fiável e não protege quem mais precisa.
Quando o problema é recorrente, a resposta tem de ser estrutural. Já existem mecanismos simples e eficazes: sistemas de alerta por SMS à população, comunicação através da proteção civil, avisos nas rádios locais e contacto direto com instituições essenciais. Quando falta água ou esta está imprópria para consumo, não se trata apenas de um incómodo, mas de uma questão de saúde pública e segurança.
250 anos – No próximo dia 4 de julho assinala-se o 250.º aniversário da independência dos Estados Unidos, coincidindo com a celebração dos 193 anos da elevação da Horta a cidade. Esta convergência, aliada às fortes ligações entre o Faial e aquele país, merece ser evocada.

São diversos os episódios que ilustram esta proximidade atlântica, desde a instalação do primeiro consulado norte-americano na Horta, pela família Dabney, até à epopeia baleeira que levou gerações de açorianos aos portos da Nova Inglaterra. Destaca-se ainda a Batalha do General Armstrong, símbolo de resistência e de uma ligação histórica entre territórios.
A diáspora açoriana, intensificada no final do século XIX e reforçada após a erupção do Vulcão dos Capelinhos, em 1958, consolidou laços familiares, culturais e económicos que permanecem até hoje.
Assinalar esta data é reconhecer uma relação viva, feita de história, mobilidade e identidade partilhada. Este é o momento certo para a projetar e reforçar os laços que unem o Atlântico.
Centralização – A propósito do atual debate sobre um hospital central em Ponta Delgada, importa recordar que, já em março de 2025, alertei para os riscos da concentração de serviços no Hospital do Divino Espírito Santo.

Defendi então que o incêndio devia ser uma oportunidade para descentralizar, reforçando os hospitais de Angra do Heroísmo e da Horta, criando uma rede mais equilibrada e resiliente. O que está em causa não admite discursos ligeiros: trata-se de uma decisão estrutural para o futuro da saúde nos Açores.
A concentração excessiva fragiliza o sistema, aumenta a dependência de um único polo e aprofunda desigualdades. Os sinais entretanto surgidos reforçam essas preocupações e apontam para um caminho de centralização.
Ignorar estes alertas será comprometer o equilíbrio da rede hospitalar regional. O Hospital da Horta continua em risco de perder várias especialidades. Os responsáveis locais não podem alinhar com esta centralização, pois com palavras mansas, temos vindo, sistematicamente e historicamente, a perder.