Ao Abrir da Manhã – A Comodidade da Superficialidade

Publicado no Jornal Incentivo de 5 de Maio de 2026

Vivemos num tempo estranho, onde o essencial se perde no meio do ruído e a profundidade dá lugar a uma pressa constante de mostrar, partilhar e aparecer. Há uma leveza inquietante na forma como tratamos o que realmente importa, como se já não tivéssemos energia para ir mais fundo, como se bastasse tocar à superfície para sentir que cumprimos. Talvez seja cansaço, talvez seja hábito, talvez seja apenas a forma como nos fomos deixando levar.

A voz de quem abranda, de quem questiona, de quem não corre atrás da imagem, tornou-se rara. No seu lugar, há uma necessidade quase permanente de presença, de prova, de validação. Já não chega fazer, é preciso mostrar que se fez, e mostrar muitas vezes, até que a repetição se confunda com realidade.

Na esfera pública, isso torna-se evidente de forma quase desconcertante. Um mesmo projeto é anunciado vezes sem conta, como se cada anúncio fosse um avanço real. Surge o concurso, depois o novo concurso, depois o visto, a adjudicação, o início da obra, as visitas à obra, mais visitas, sempre mais visitas. No fim, a inauguração, muitas vezes precedida por meses ou anos de imagens, declarações e expectativas. Cada etapa é exposta, amplificada, transformada em prova de ação. E, no entanto, permanece a sensação de que se fala mais do que se faz.

Neste mesmo contexto, surge uma contradição difícil de ignorar: discute-se a proibição do acesso às redes sociais até aos 16 anos, em nome da proteção de crianças e jovens, enquanto as próprias instituições promovem a sua exposição constante. Registam-se atividades, captam-se imagens, partilham-se momentos, não tanto por necessidade pedagógica ou formativa, mas pela urgência de demonstrar que algo foi feito. Como se, sem essa visibilidade, o valor das iniciativas se perdesse ou deixasse de existir.

Quando não há vontade ou capacidade de avançar, o ciclo reinventa-se. Aparecem estudos, apresentações, debates que se repetem, comissões que se formam, estruturas de missão que se anunciam, títulos que se atribuem. Tudo parece mexer, tudo parece evoluir, mas no fundo há uma espécie de imobilidade disfarçada, uma encenação cuidada que ocupa o espaço da decisão.

Mas seria confortável culpar apenas quem governa. A verdade é mais incómoda. Nós aceitamos isto. Mais do que isso, alimentamos esta lógica. Habituámo-nos à exposição, à presença constante da câmara, à ideia de que existir é ser visto. Não nos incomoda sermos filmados, fotografados, partilhados. Muitas vezes até gostamos. Procuramos esse olhar externo que nos confirma, que nos valida, que nos faz sentir parte.

E, no meio deste cenário, quem questiona paga um preço. Quem critica, mesmo que de forma construtiva, é frequentemente desvalorizado. Quem levanta dúvidas é visto como obstáculo. Quem se opõe é rotulado, simplificado, banalizado até perder força. E quem insiste, quem luta por uma causa, acaba muitas vezes isolado, desgastado por um ambiente que prefere a concordância fácil à reflexão exigente.

Não é apenas a superficialidade que se impõe, é também uma resistência crescente ao desconforto que a crítica traz. Questionar obriga a parar, a rever, a assumir falhas, e isso tornou-se quase incompatível com uma cultura baseada na imagem e na validação imediata.

Talvez o mais inquietante não seja a superficialidade em si, mas a forma como nos acomodámos a ela. Como deixámos de estranhar o excesso de exposição, a repetição vazia, a encenação contínua. Como passámos a confundir movimento com progresso, visibilidade com relevância, presença com significado.

Enquanto não houver uma vontade real de interromper este ciclo, continuaremos a viver rodeados de anúncios, imagens e intenções, com a sensação constante de que tudo está a acontecer, quando, na verdade, quase nada se transforma.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

One thought on “Ao Abrir da Manhã – A Comodidade da Superficialidade

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