Retalhos da Memória

Nossa incúriaAs termas do Varadouro

Publicado no Jornal “Eco” em 1915

“Na presente ocasião encontram-se dezenas de pacientes a banhos das águas medicinais do Varadouro.

Uma parte desses pacientes tem de pagar a água necessária para banhos à razão de 45 ou 60 centavos, por falta de um encanamento convenientemente estudado, que conduza a água ao balneário, uma construção, aliás, muito sofrível.
Que de uma bomba que eleva a água à beira da rocha, a umas dezenas de metros distante da estrada nacional.
A outra parte dos banhistas, a mais falha de recursos, tem de percorrer um Kilometro por cima de lagido e rocha, com um risco enorme de ser instantaneamente soterrada pela queda de algum lanço ou, mesmo, uma pequena pedra deslocada por qualquer lufada de vento!…

No entanto, os benefícios que muitos doentes teem tirado d’aquella água, quer em banhos, quer usando-a como água de meza, é conhecido, contando-se por centenas o numero de indivíduos beneficiados.

Porquanto, tanto a instalação da bomba, como as modificações a fazer na cisterna, não podem custar mais do que umas centenas de mil réis, o que nada representa em face das comodas e facilidades proporcionadas aos munícipes que pagam por todas as formas.

Outubro à porta e a câmara retirará a pequena bomba manual que lá tem, ficando o publico privado dos benefícios medicinais d’aquella fonte até junho do próximo anno!
Sem motivo plausível nem dificuldades que o justifiquem. Pois, um pouco de boa vontade e um pouco de paciência encontrará, decerto, forma de facultar ao publico achacado os benefícios d’aquellas águas todo o anno, como se pode e deve.

A não ser que seja verdade, segundo afirmam, a existência de uma outra fonte quente nos matos, entre a Lombega de Castello Branco e a Ribeira do Cabo, Capello, talvez oculta aos olhos indiscretos por denso matagal.
Pois, a ser verdade uma tal existencia, a nossa incúria atinge os páramos da… indiferença!

Mas, ha mais ainda.
“Un varadouro, onde se não pode varar”.. Assim é o varadouro do Capelo. Com qualquer aragem, por pequena que seja os pobres pescadores teem um enorme trabalho e correm risco para poder varar as suas frageis embarcações. Pois, o porto encontra-se ainda tal qual como a natureza o fez, com pasmo dos proprios… cegos!

Tendo excelentes condições para um centro piscatorio, todo o ano, e mesmo, para um seguro porto de refugio, para embarcações de pesca, não se pode ir lá varar senão com bom tempo de verão!
Apezar de uma simples inspecção poder conduzir á conclusão de ser facil construir um bom caes e um excelente varadouro: Uma simples cabrilha, armada sobre a restinga da rocha, alguns cartuchos de dinamite para rebentar umas pedras, os serviços de um mergulhador para auxiliar a limpar o fundo, em alguns dias, uns barris de cimento para endireitar a rocha e a boa vontade de alguns pedreiros, bem dirigidos, transformaria aquilo que a incúria não aprecia, n’um excelente caes, com a sua escaleira e o seu varadouro, com proveito local e aumento certo de receitas, ainda que só provenientes do imposto de pescado.
Poderá parecer muito, mas não o é.
Ainda falta concluir o ramal, numas centenas de metros, e os proprietarios das vinhas teem perdido contos de reis, pela incúria de não se haver ali instalado, como se devia, um posto agricolo-sylvicola. Também com aumento certo de receitas. Pois, é simples de ver que, por uns quartilhos de vinho nada se pode cobrar, ao passo que, por uma centena de pipas de vinho, mesmo que fosse, alguma receita se obtinha.”

ECO —1915.

Χ.

X – Foi uma das assinaturas de Florêncio Terra. Não deixa de ser curioso que, passados 120 anos, eu, como seu bisneto, tenha abordado repetidamente esses dois temas, seja neste blog, nos artigos do Jornal Incentivo ou em iniciativas públicas. Um verdadeiro caso para dizer que, depois de mais de um século, a “Incúria” permanece a mesma…

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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