Lembro-me do Varadouro de outros tempos, quando não havia água canalizada, nem luz, muito menos televisão. A vida era simples, guiada pelo ritmo do sol. A água vinha das cisternas ou dos tanques. Cada casa tinha os seus. Eram tesouros preciosos, valorizados pela escassez e guardados na memória como relíquias de outros dias. Tudo se sentia de forma mais intensa, porque nada era imediato: não bastava abrir a torneira, nem carregar num botão para se fazer luz.
Dentro das cisternas e dos tanques viviam os peixinhos barrigudinhos, guardiões discretos que mantinham a água limpa ao comerem as larvas dos mosquitos. Também serviam de sinal de alerta: se nadavam leves e soltos, era porque a água estava boa; se morriam, sabíamos que algo não estava certo. Até nisso a natureza nos falava.

Havia lugares certos no caminho onde a água se abria, e essa tarefa cabia ao Senhor Jorge Brum, o águaeiro da freguesia do Capelo. Era ele quem regulava o fluxo, abrindo e fechando a água com a responsabilidade de repartir o bem mais precioso entre todos. Respeitávamos o seu ofício como se fosse a missão de um verdadeiro guardião.
O Senhor Jorge passava por quase todas as casas. Homem afável e de bom trato, trazia sempre conversa para alegrar a visita. Esse encontro tornava-se um ritual de Verão, e ainda hoje é guardado como uma das memórias mais queridas.
Naqueles tempos, as brincadeiras aconteciam sempre ao ar livre. Pescávamos, mergulhávamos nos poções e enchíamos os dias de alegria e aventura. A vida seguia calma, sem pressas: deitar cedo, erguer cedo. Telefone? Só nos postos do Capelo ou no Balneário das Termas, os únicos disponíveis, sempre a funcionar com contador. Quando a minha mãe ligava para falar com as irmãs na América, o ponteiro corria apressado, e aquele momento raro vinha carregado de ansiedade, nunca se sabia quanto custaria essa breve ligação ao mundo de fora.

E havia ainda as fontes: a Fonte dos Namorados, no Cabeço Verde, e a Fonte da Ribeira do Cabo, de onde corria uma água fresca e saborosa, que se trazia para casa com gosto.
Hoje, com água e luz em cada lar, com telefones no bolso, sinto que falta aquele sabor antigo da convivência. O Varadouro, as cisternas, as fontes, os peixinhos barrigudinhos e o cuidado do Senhor Jorge Brum vivem agora apenas na lembrança, um lugar maravilhoso, onde a simplicidade era a maior riqueza.
Que delícia ler esta matéria!! Me senti dentro do Varadouro em 1970!!! Obrigada pelas memórias.