Publicado no Jornal Incentivo de 3 de Setembro de 2025
Todos nos lembramos da borracha verde da escola. Servia para apagar, mas nunca apagava tudo. Ficava sempre um rasto, uma nódoa, uma marca no caderno. Às vezes corrigia, outras vezes apenas borrava, deixando uma sombra do que lá estava. Hoje, essa metáfora parece acompanhar muitos comportamentos que observamos na vida pública e na sociedade.

Há quem jogue à borracha verde tentando apagar responsabilidades, atribuir culpas a outros, manipular percepções, como se o passado e o presente pudessem ser riscados e reescritos. É sempre mais fácil culpar terceiros, apontar erros alheios e prometer que, desta vez, será diferente, que agora tudo será melhor. Mas sabemos que não é assim que se constrói confiança nem se fortalece a democracia.
Nesta ilha, diz-se frequentemente que a mudança chegou. No entanto, episódios recentes demonstram o contrário. É como estar sempre a olhar para o passado e a arranjar desculpas para os próprios falhanços, esquecendo que fazer diferente exige leveza, cuidado, educação e respeito por aqueles que deram o seu melhor. Não somos um embrulho ou uma folha de jornal: também somos pessoas que querem o melhor pela sua terra, mas desta forma não é possível.
A liberdade de expressão e de imprensa é uma das linhas mais frágeis desta nossa folha. Jornalistas, comunicadores, cronistas: todos sabem que o papel de informar é muitas vezes confundido com alinhamento político ou interesses pessoais. Condicionar ou desvalorizar quem escreve, silenciar vozes críticas ou questionar imparcialidade por razões partidárias é um gesto perigoso. Quando o respeito pela diversidade de opinião desaparece, quem perde é a sociedade, não apenas o indivíduo.
Os maus exemplos não faltam. Há dirigentes que confundem opinião com ofensa, governos que confundem crítica com ataque, partidos que procuram abater mensageiros em vez de responder às mensagens. É a repetição de um erro simples: usar a borracha para apagar discordâncias em vez de dialogar e aprender.
A democracia não sobrevive à uniformização do pensamento. A pluralidade incomoda, sim, mas é ela que impede que qualquer poder se eternize, que qualquer voz fique sem espaço. É na diferença que se constrói debate, se avaliam propostas e se fortalece a cidadania.
Por enquanto, ainda nos resta a liberdade de votar, de escolher, de participar. Mas a lição da borracha verde mantém-se: tentar apagar tudo não funciona, só deixa marcas e nódoas. E se um dia até a liberdade de escolha se tornar alvo da “borracha”? Que futuro teríamos então?
Borracha verde… não é apagar ou rasurar. É lembrar que a liberdade é um exercício diário, que a responsabilidade é indivisível e que os extremos de censura ou de permissividade nos deixam sempre mais pobres. Só com respeito, memória e consciência é que podemos escrever um futuro sem nódoas, onde as marcas servem para aprender, e não para esconder.