O Varadouro e os Tesouros do Coração

Desde muito cedo, a minha paixão pela pesca fez-se sentir. Talvez tenha sido uma herança dos meus antepassados, pescadores da Madalena do Pico, que vinham de uma longa tradição ligada ao mar. Lembro-me de ser ainda criança e, ao ver os barcos a chegar à costa, o meu coração disparava. A alegria, a algazarra inconfundível, o cheiro a sal e a peixe fresco ainda ecoam na minha memória. Ajudava a puxar os barcos para a areia, descarregava os cestos e sentia-me parte daquele universo de movimentos rápidos e sons de vozes que se misturavam com o som das ondas.

A primeira pescaria do novo século realizada na noite dia 1 de Janeiro do ano 2000

Comecei a pescar desde pequeno. Iniciei-me pelas pedras do Varadouro ao carapau e ao chicharro; mais tarde, fui avançando para os sargos, as tainhas, as salemas, às enchovas e, por fim, cheguei à pesca de barco e a uma vida profissional dedicada também à pesca. No início, a pesca não era fácil. Tinha grandes dificuldades em estorvar anzóis, especialmente os que chamávamos de “mosca” – anzóis minúsculos, que pareciam impossíveis de manipular com as minhas mãos pequenas.

Foi nessa época que colhi as melhores memórias do Senhor Francisco, mais conhecido como o “Xarape”, apelido que seu Pai já tinha. Homem sábio, com uma ligação profunda ao mar e às coisas da terra, sabia ler o tempo como ninguém. Não era um mestre da pesca nem vivia dela, mas conhecia como poucos os pesqueiros, as artes e as marés da baía. Foi baleeiro. Além disso, tinha um talento natural para a fruticultura e a vitivinicultura, mas, acima de tudo, era um grande contador de histórias.

Todos os dias, ao anoitecer, sentava-me ao pé dele enquanto me ajudava a preparar os aparelhos de pesca para o dia seguinte. Observava cada movimento, cada nó que ele fazia com as cordas e os fios, enquanto ouvia as suas histórias sobre o mar, o tempo e as suas aventuras. Aquelas histórias tinham algo de mágico, como se o próprio mar, o céu e a terra falassem através das palavras dele. Para mim, o Mestre Franciscio era mais do que um amigo; ele era um verdadeiro mentor. Foi ele quem me ensinou a paciência, o respeito pelo mar e pela terra, bem como a importância de escutar a sabedoria de quem já viveu muito.

Mas guardo também, com um carinho especial, a recordação da Maria da Alice Gonçalves, sua mulher, com o seu sorriso inconfundível. Eram nossos vizinhos no caminho velho do Varadouro. A casa deles, simples e acolhedora, era o meu refúgio. Sempre que me sentava à mesa com eles, sentia-me tratado como um príncipe. Recebia atenção, carinho e tudo o que precisava, algo que marcou profundamente a minha vida e que recordo com enorme gratidão. Como era bom sentir o cheiro do pão acabado de sair do forno a lenha!

Maria Alice à esquerda foi durante largos anos a cozinheira das Sopas em Honra do Divino Espirito Santo no Império da Ribeira do Cabo

Ali, entre os cheiros e o som das histórias do “Xarape”, cresceu a minha ligação ao mar. Aprendi que a pesca não é apenas um ofício, mas uma arte que exige paciência, respeito e sabedoria. Não sei se foi o sangue de pescador que corre nas minhas veias ou se foi a convivência com pessoas como o Francisco e a Maria da Alice, mas sei que, desde pequeno, o mar moldou-me de uma forma que nada na vida conseguiu mudar.

A Maria Alice e Francisco, com a sua generosidade e simplicidade, deixaram marcas que nem o tempo pode apagar. Que bonito exemplo de amor e hospitalidade, que reflete o melhor da alma açoriana! Se hoje trago no coração esta paixão pelo mar e por tudo o que ele representa, devo-o a pessoas como eles, que transformaram gestos simples em lições de vida. O mundo seria muito mais belo se houvesse mais casais como eles – verdadeiros tesouros humanos.

Francisco e Maria Alice no Porto do Comprido – Capelo – Verão de 2000

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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