O Casario do Varadouro

O casario do Varadouro, no Capelo, ilha do Faial, destacava-se pela particularidade da sua arquitetura, presente exclusivamente nesta fajã e, em menor número, mais tarde, na Fajã da Praia do Norte. Embora cada casa tivesse características únicas, todas partilhavam traços comuns que lhes conferiam um caráter distintivo e homogéneo: a construção térrea em pedra de cantaria, revestidas, as varandas viradas a sul – com vista privilegiada sobre a baía – e os telhados de telha de barro tradicional, com o característico friso português na cornija, um detalhe inspirado na herança cultural dos Açores.

Varadouro

As varandas, em particular, assumiam um papel central na semelhança das casas, conferindo-lhes uma unidade arquitetónica ímpar na ilha. Para além de proporcionar uma recolha privilegiada da vista sobre a baía, eram também um espaço de interação social na casa, onde os moradores conviviam, partilhavam momentos e observavam a vida ao redor. As casas eram inicialmente pintadas de branco, mas, ao longo do tempo, ganharam cores vibrantes, enquanto as varandas mantinham a sua estrutura distintiva. Outro elemento comum eram as gelosias ou persianas em madeira, presentes em quase todas as habitações, que além de funcionalidade, acrescentavam um detalhe estético harmonioso e consistente. Esses traços, em conjunto, reforçavam a integração do casario no cenário envolvente e criavam uma imagem de conjunto que, vista do mar, se assemelhava a um presépio.

A Casa da “Maria Grande”: Símbolo de Tradição e Prestígio

No coração deste casario destaca-se a Casa da “Maria Grande”, um dos marcos históricos e arquitetónicos mais significativos do Varadouro. Construída como a primeira residência da região, esta casa não apenas definiu o padrão construtivo local, mas também encapsulou a ligação entre a vida rural e o prestígio social.

Casa da “Maria Grande”

Situada numa propriedade extensa e fértil, a Casa da “Maria Grande” era muito mais do que uma habitação familiar. Acompanhada por terrenos destinados à agricultura, destacava-se pela produção de vinho e cultivo de frutícolas, contando com um lagar integrado para apoiar estas atividades. Esta característica não apenas simbolizava a prosperidade económica, mas também consolidava a sua importância na vida social e produtiva do Varadouro.

A casa teve origens nobres, pertencendo a famílias como a do Dr. Agostinho Machado Faria e Maia e José do Canto, figuras proeminentes de Ponta Delgada. Mais tarde, foi adquirida por Escolástico Pereira da Cunha em 16 de setembro de 1883, por escritura que incluía a casa, o lagar e 644,04 ares de vinhas, pelo valor de 180$000 réis.

A posse da propriedade passou para os descendentes de Escolástico, entre eles Dona Maria Maciel Cunha, casada com José Nestor Ferreira Madruga, que perpetuaram a tradição agrícola e transformaram o espaço num local de convivência e veraneio.

No século XX, a residência ficou conhecida como a “Casa da Maria Grande”, uma referência a uma tia de Frank Vargas, reconhecido empresário do Varadouro, que ali viveu. A história da casa, marcada por memórias familiares e agrícolas, atravessou gerações até ser vendida pelos herdeiros em 2019, encerrando um ciclo centenário.

Integração na Paisagem e na Comunidade

Outras construções se seguiram, como a Casa dos Dart e Pamplona e a Casa do Senhor Nestor, localizada acima do Porto Velho, as mais antigas, além de residências de outras famílias residentes no Capelo, especialmente nas áreas do Arereiro e da Ribeira do Cabo. Nessas zonas, as famílias mantinham as suas moradias de inverno, enquanto no Verão desciam até ao Varadouro, onde possuíam a sua segunda casa. Estas habitações, normalmente pintadas a cal e construídas em pedra lávica, eram de dimensões mais pequenas, mas todas tinham forno a lenha e uma quinta próxima, aproveitando o microclima único da Fajã

As adegas, fundamentais para a economia local, reforçavam essa ligação à terra, surgindo tanto junto às casas principais como em locais mais afastados, mas sempre em harmonia com a paisagem produtiva que caracterizava o Varadouro.

A partir da primeira metade do século XX, instalaram-se a sua “Casa de Verão” no Varadouro várias famílias, entre as quais: os Andrades, os Bulcão, os Campos, os Correia, Corte Real, os Decq Mota, os Escobar, os Freitas, os Garcias, os Goulart, os Gonçalves, os Macedos, os Mesquita, os Pinheiros, os Prietos, os Saldanha, os Silva, entre muitas outras.

Preservar o Casario: Legado e Memória

A singularidade do casario do Varadouro, com as suas varandas e arquitetura harmoniosa, reflete a essência da Fajã. A Casa da “Maria Grande”, em particular, é um elemento essencial dessa história, simbolizando a fusão entre tradição, prosperidade e identidade comunitária.

Casa de João Inácio da Silva

Infelizmente, já foram feitos muitos erros na construção, como a edificação de casas grandes dimensões e de estilos diferentes em zonas onde uma aplicação mais cuidadosa das leis poderia ter evitado esses problemas. Nunca chegou a ser criado um Plano de Pormenor para o Varadouro, que definisse o tipo de habitações permitido, principalmente devido à falta de visão e à teimosia. Este plano seria essencial para proteger a história da região e assegurar que o Varadouro continue a ser um exemplo de união cultural e beleza arquitetónica nos Açores, respeitando o passado e inspirando o futuro

Texto: João Garcia – Pesquisa e Fotografia: José Manuel Garcia e Francisco Gonçalves

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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