O CABOZ

(Ilha do Pico)

Na página n.º 184, do n.º 38 do Vol. VII do Arquivo dos Açores de 1885, meu irmão José Manuel Garcia encontrou esta belíssima história, de um Pescador do Pico, suponho da Vila de São Roque e que, pela nossa árvore genealógica, poderá ser o nosso tetra-avô Manuel Garcia (Caboz), nascido a 28 de dezembro de 1797 e que faleceu a 9 de janeiro de 1876, com 79 anos, tendo sido casado com Joaquina Conceição da Rosa Garcia (1797-1865).

Desta união nasceu um filho, José Garcia (Caboz), em 1828, também ele Pescador.

“Quando conheci o Caboz, como na freguesia era denominado, teria ele uns setenta anos de idade. Era um velho magro, de olhos vivos como os de furão e vivendo sozinho, à beira da costa, numa pequena casa coberta de palha.

O interior desta moradia rivalizava com o seu desguarnecido exterior, térreo, defumado, negro. A um canto uma enxerga, a casa sem divisão alguma, o lar lá no fundo, uma pequena caixa de madeira, um caldeirão e algumas púcaras de barro e mais nada a não ser vários caniços, de diferentes dimensões, atravessados sobre as três traves que sustentavam o teto.

O Caboz toda a sua vida fora marítimo.


Começara aos nove anos a trabalhar, como moço num dos barcos que, diariamente, da ilha do Pico vem à do Faial, com passageiros, lenha e fruta, lavava então o barco, deitava com o bartidoro a água fora da caverna e ficava de vigia a bordo, quando a companhia ia para terra.

Com o decorrer do tempo cruzou assim o canal centenas e centenas de vezes, já sabia mandar, nem ali o vento ou maré tinham segredos para ele, bastava olhar para as águas para lhe conhecer a feição.

Aconteceu também ser um dos marinheiros do barco “Santa Clara” naquela perigosa viagem em que, vindo do Pico, não pôde tomar a ilha do Faial e foi por esses canais abaixo, varando São Jorge, até dar consigo na Terceira.

O barco estava carregado com pipas cheias de vinho, andou duas noites e um dia à mercê das vagas, debaixo de medonha tempestade, morreu muita gente a bordo, outros ficaram com os braços e pernas despedaçadas, pelo choque das deslocadas pipas, mas o Caboz escapou incólume e ali estava são que nem um pêro.

Aos vinte anos casou com a filha de um outro marinheiro, oferecendo-lhe o sogro, por esta ocasião, uma velha e pequena lancha que possuía. Estava realizado o seu maior sonho de grandeza, ter afinal uma embarcação.

Deixou então o barco em que há tantos anos andava, para se tornar num pescador, de cujo mister já tinha prática nas suas horas vagas.

Na lancha que o sogro lhe dera percorreu toda a fronteira, voltada a oeste, da grande ilha do Pico. Conhecia todas as baixas, todas as pedras, furnas e enseadas d’aquela muito perigosa, negra e traiçoeira costa.

O producto da pesca na sua embarcação, em que andava geralmente sozinho, ou com algum rapaz de tenra idade, rendia-lhe apenas o necessário para ir vivendo mais a mulher.

N’um inverno, porém, sobreveio-lhe uma verdadeira desgraça. Tendo ido ao mar, o tempo perto da noite, atracou-o ao largo e vinha com duas pedras na mão. Pôz o rapaz á escolta e elle ia ao leme, galgando com assombrosa mestria as grandes montanhas d’agua que de momento a momento mais suberbas se levantavam. Quando chegaram ao porto era já noite cerrada e desde muito fora o mar rebentava, não se enxergando mais do que um immenso lençol de escuma em toda a rude costa.

A manobra foi bem feita, disseram-no depois todos os entendidos do mar, atrevida, quasi temeraria, a lancha enfiou-se valentemente pelo estreito porto dentro, todo orlado de calhauços, nos quaes o mar rebentava com o estalapido dos mais ruidosos canhões, mas era tal o embate desencontrado das vagas dentro d’aquella enseada, que a embarcação desobedecendo um instante ao leme, desviou-se da carreira direita que levava e roçou o fundo por cima d’uma pedra. Ainda assim a lancha conseguiu chegar á praia, mas cheia d’agua e com um immenso rasgão no bojo, uma verdadeira navalhada na barriga.

Foi varada no cascalho e por aquelles dias não sahio mais ao mar, aguardando o necessario concerto, o pano conheceu-se que também ficára estragado e o mastro rendido.

Que dinheiro seria preciso para reparar aquillo tudo! Assim foram decorrendo mezes. O Caboz á espera de dinheiro para concertar a lancha e indo pescar de caniço às pedras para aguentar o folego, mais da sua companheira.

A pesca dos sargos é a mais lucrativa das pescarias de pedra, especialmente durante o inverno em que todo o outro peixe foge da retentação.

Mas o sargo velho, o maior, é muito matreiro e durante o dia raras vezes morde no anzol, anda em redor do mesmo, cheira, afasta-se, volta, torna a cheirar e… desapparece pelo mar fóra, levando as pragas dos pescadores.

De noite, porém, e em sítio de rebentação d’aguas turvas o caso muda muito de aspecto e deixa-se apanhar abundantemente.

O Caboz e a mulher iam, pois, á pesca de noite, não havendo tempo que os detivesse e, conforme a maré, às onze, meia noite e até mais tarde. Conheciam os mais remotos e arriscados pesqueiros.

Uma noite, escusurrissima, iam pescar para a pedra do Inferno. Antes de chegar áquelle tenebroso sítio, que se projectava muito pelo mar adiante, tinham o Caboz e a mulher de saltar de pedra em pedra, algumas todas circundadas de mar profundo e onde a ressaca trabalhava furiosa.

O pescador caminhava adiante, de cesta com o engôdo no braço e com dois caniços ao hombro.

Não se via dia 15 palmos adiante da cara; e o mar, rebentando nas pedras, rugia estrondosamente. — Dá vá o cesto, — disse em voz alta a mulher, quando se achava á meia distância do pesqueiro e com referente mar d’um e outro lado.

— O cesto, para que? — perguntou o Caboz.
— É que isto aqui é fundo, as pedras tem muito limo e podes dar algum escorregão…

— Toma sentido em ti e deixa-me cá, não conheces a costa melhor do que eu.

— Pois sim, mas é que…

A bulha do mar não deixou perceber o resto e o Caboz continuou na sua derrota. Afinal saltou para a ultima pedra, voltou-se para traz e disse: — Agora aqui é que é preciso cautella, ó Maria, aqui é fundo e rebenta que nem n’um resprindenteiro.

Ó Maria, anda d’ali, onde diabo estás?!…

Ninguém lhe respondeu, nem podia responder, o mar já la pedaço que lhe havia levado a mulher, ao saltar de uma para outra rocha, das quaes havia medido mal a distancia, e os gritos da afogada tinham sido abafados pelo rebentar da vaga.

O Caboz fez todas as diligencias possiveis, para, viva ou morta, encontrar a mulher, andou toda a noite na costa e invejativa o mar, como se este fosse uma creatura vivente:

— Então, você, Sr. patife, não me quer entregar a Maria, hein?

Ah! pedacinho de mariola! . . . Puf . . . — e cuspia nas ondas. — Dá cá para aqui a minha mulher, anda… Ah! não queres, espera lá… e pegando n’uns calhaus arrojava-os às vagas — malvado, enrolace para ahi, diabo! E de facto a escuma da rebentação cobria-o todo e d’outras vezes agarrado a alguma pedra ficava com água até ao peito.

Amanheceu afinal e o mar jamais lhe entregou a sua Maria. “Uma vez, porém, foi em Fevereiro, na força do inverno, o mar deparou-se durante uns oito dias tão mau que não havia pesca possível, a vaga do norte lavava toda a costa, enormes vagas rebentavam ainda muito fora, arrojando-se furiosas contra os rochedos, enfiando- se pelo porto acima, indo d’rrubar paredes dos prédios mais próximos do mar, levando os portões d’estas propriedades.

Envelheceu n’aquelle mister.
Uma vez, porém, foi em Fevereiro, na força do inverno, o mar deparou-se durante uns oito dias tão mau que não havia pesca possível, a vaga do norte lavava toda a costa, enormes vagas rebentavam ainda muito fora, arrojando-se furiosas contra os rochedos, enfiando-se pelo porto acima, indo derrubar paredes dos prédios mais próximos do mar, levando os portões d’estas propriedades.

Os barcos não saíram n’essas dias, para a sua habitual carreira entre o Pico e o Fayal e as companhas tinham-os ido varar a grande distância da costa. Parecia que o Oceano queria devorar a terra!

O Caboz passou, então, fome.
N’essa difícil conjunctura lembrou-se que por vezes do melhor peixe que na costa apanhava, tinha feito presente ao Sr. Vigário, ora, como no dizer popular, uma mão lava a cara e duas lavam o rosto, não era de estranhar ir até a casa do padre e pedir-lhe alguma coisa para comer.

O sacerdote havia acabado de jantar, estava farto e de rubra cor.

— Ora Deus esteja com o nosso padre vigário — disse-lhe o Caboz, de barrete na mão e sem transpor a porta da entrada.

— Adeus, velhote, então que temos de novo?

— É que saiba V. S.ª, o mar tem estado levado de seis centos…

— Bem sei, homem, bem sei e por signal que me faz bastante falta um peixinho para o jantar, já estou farto de carne… urh… urh… carne assada…carne cozida… carne de molho… urh…

— Isto hade melhorar se Deus quiser… em o vento saltando ao sul temos bonança na costa.

— Mas então vamos a saber que é isso? … tu por aqui…

— É que, acredite V. S.ª, que isto tem sido uns dias malditos, nem um sarguinho, nem nada.

— O tempo ha de melhorar, como dizes, em o vento saltando…
— Pois sim senhor, ninguem duvida, mas é que no entretanto a boca não espera e a gente passa fome a valer.

— E’ o que eu te disse, já estou aborrecido de carne… sempre carne…

— Mas o Sr. Vigario ainda a tem, mas cá a porresa é differente.

— Annos maus, é verdade.

— Ora como eu, desde hontem, que não tenho nada que comer, vinha pedir uma esmola ao nosso vigario, qualquer coisa me arranja…

— O’ filho da minha alma, tu bem sabes que as esmolas, que eu posso fazer são as espirituaes… sim… confia na Providencia… eu esta noite pedirei a Nosso Senhor que abrande o mar.

— O’ Sr. padre appareça umas batatas, d’aquellas que estava hontem tirando do cerrado.
— Escuta, homem, tu bem sabes que aquillo era um terreno todo de lava, que eu mandei despecadçar à alvião e marreta, para ir procurar debaixo à boa terra, aquelas batatas estão-me por um dinheirão e reservo-as todas para semente, bem vês que é impossível dispor delas de qualquer maneira.

— Meia dúzia que fossem arranjavam-me por hoje…
— Ó filho da minha alma, esmolas espirituais faço eu sempre, mas não posso ir além disso, os tempos vão muito maus e todos nós temos necessidades.

— Mas então o Sr. padre quer que eu arrebente de fome?
— Qual fome, nem meia fome… vá para a costa que sempre hás de arranjar alguma coisa, eu cá ficarei rezando por ti.

E o padre despediu o pescador.
O Caboz foi dali procurar o taberneiro do lugar que, mais compassivo do que o vigário, lhe fiou meio pão de milho e dez réis de queijo.

A marezia continuava soberba e na subsequente noite tomou proporções de uma verdadeira orgia oceânica. A casa do Caboz adjunta aos rochedos da beira-mar, por vezes ficava toda cercada d’água, caindo-lhe em cima nuvens de espuma, qual pesada chuva.

— Olha o que vai fora! — dizia o pescador, estendido na sua enxerga — o menino está hoje atrevido… passa, marola! … se não fosse por que, ia-lhe ver o cariz… Não me esqueço o padre… tanto sargo me tem comido e não me deu nem uma fatia de pão!…

Este monólogo foi interrompido por um empuxão tão forte do mar contra as paredes da casa, que parecia que a pequena habitação ia baquear por terra.


— Passa!… está com o diabo no corpo… ora eu sempre quero ver isto… — e o Caboz, levantando-se, foi botar a cabeça a um postigo do lado do mar.

A noite não estava muito escura e até o céu estrelado, mas quanto a vista alcançava era uma esteira de revolta espuma, por cima dos rochedos da costa.

— Olá!… temos novidade… que almanjarra será aquela?!
O pescador via, perto da costa, um grande volume negro e mais acima como os panos de uma embarcação.

— É um navio, não tem que ver…a maré encostou-o contra a pedra e agora lá se vai com seis centos…

Efetivamente aquele peculiar som do baquear dum navio contra as rochas, chegou-lhe distintamente aos ouvidos e de envolta com o bramir do mar alguns confusos e aflitos gritos.

— Não escapa nem um rato! — exclamou o Caboz, e como as casas da povoação ficavam dali distante e fosse ele o único morador da costa, lançou, apressadamente, mão de um cabo da pesca, expôs ainda da lancha e correu em seguida, para a beira do mar.

E de facto, era um navio, uma barca, que, metendo-se de noite a atravessar o canal, a maré puxara para junto da costa do Pico e…que mentindo ao virar de bordo se achava agora irremessivelmente perdida.

A barca rolava muito com a arrebentação das enormes vagas, que toda a cobriam de escuma, deitava-se quase a tocar com os mastros d’água, ora para um era ora para o outro lado, caíam-lhe já do arvoredo alguns paus, até que afinal ficou algum tempo presa em pontas de pedra mais perfurantes.

O mar achando aquele obstáculo galgava-lhe furioso o casco todo e os gritos da tripulação continuavam medonhos.

O Caboz, único espectador daquela triste, mas não rara cena nestas paragens, contemplava ansioso a perda do navio. — É o que eu disse, não escapa ali nem um rato! . . que te levem seis centos… se houvesse um cabo de vaivém… passa maviola! … não me importa, vou ter o fim da minha mulher, mas hei de experimentar se salvo um ao menos que seja… anda Caboz! … E o velho benzendo-se, como por despedida da vida e metendo-se por entre os cachopos, conseguiu atar uma das extremidades da comprida linha de pesca a ponta saliente de um rochedo e a outra extremidade a sua cintura, depois, em quanto pôde trepou por cima das pedras, até que afinal arrojou-se ao mar, nadando denodadamente na direção do navio, em luta titânica com o Oceano.

Por um acaso providencial o mar atirava agora com a embarcação mais para dentro uma boa porção de metros e quando a aterrorizada companhia, julgando-se completamente ao desamparo, tinha perdido toda a força moral, de repente surgiu-lhe pelo castelo de proa aquele homem, coberto de sangue, mas com um cabo de salvação.

As lanternas de bordo iluminaram um verdadeiro herói.

Não havia tempo para delongas, o navio podia-se abrir dum momento para o outro, o Caboz não se entendia com a linguagem daquela gente, mas ainda assim, pondo-se imediatamente em ação de trabalho, reanimou a tripulação que, desde logo, valendo-se da corda presa em terra, começou a estabelecer um aparelho para se livrar daquela rascada.

O casco alteroso da barca permitia, por meio da corda, uma relativamente fácil descida para a costa, o velho marinheiro foi o primeiro a ir pelo cabo e dentro de meia hora, à força de muito trabalho e com a brevidade de uma questão de vida ou de morte, estavam salvos doze homens e um cão, isto é, todos os seres vivos que trazia o navio.

Nesta difícil tarefa o Caboz havia arriscado a vida inúmeras vezes. O navio era inglês, e como se somente esperasse a salvação do último dos seus tripulantes, momentos depois desfazia-se em hastilhas.

A não ser o Caboz, como não é raro acontecer nas costas insulanas, apenas alguns pedaços de madeira, de meia dúzia de palmos de comprimento revelariam na madrugada seguinte, ter havido por aqueles sítios um sinistro marítimo.

Quantos e quantos naufrágios nestas circunstâncias não têm aqui ocorrido?

O pescador entendeu desde logo, assim que viu a tripulação salva, já sobre a madrugada, que o mais necessário era reanimar aquela pobre gente, dando-lhe alimento e boa água-ardente para beber.

Gritou-lhe, pois, fazendo com a mão o aceno de comer: — Hotel, hotel! …

E caminhou com eles, pelo caminho acima, na direção da casa do padre Vigário.

Quando chegou ali, reinava na habitação do ministro do altar o mais profundo silêncio, sua reverendíssima dormia a sono solto.

O Caboz fez os ingleses subir o balcão da casa, e com uma pedra bateu fortemente à porta da entrada. Ninguém lhe respondeu. Segundou as pancadas, mas com tão estranha força que, momentos depois via-se luz por dentro de uma janela, sentindo-se passos no interior da pacífica habitação.

O pescador alinhou os náufragos à porta do padre, colocando-se atrás de todos para não ser visto. — Quem é que está ali? ? — perguntaram de dentro. — Gente de paz — respondeu o velho, disfarçando a voz.

Afinal o ferrolho da porta correu, uma greta da mesma abriu-se, vendo-se uma mulher duns vinte e cinco anos de idade, com uma vela acesa na mão e que perguntou ainda, azedamente, para fora: — Quem é que querá confessar a semelhantes horas?!

O Caboz empurrou então os ingleses para o interior da casa, onde foram entrando com a sem cerimônia de quem transpõe a porta duma hospedaria e precedidos do enorme cão da Terra Nova.

A senhora ama gritava a bom gritar julgando que eram ladrões, e o padre atônito, em ceroulas, apareceu à porta do fundo, com um imenso barrete, enterrado até as orelhas.

O pescador, descendo então, sorrateiramente o balcão, saltou para o caminho, deitando a correr na direção da sua moradia.

Dali a uma hora estava metido na cama, pensando naquele acontecimento e sem prestar a mínima atenção ao heróico feito que praticara, arriscando a vida para salvar a dos seus semelhantes, murmurava com malicioso sorriso: — Esta foi um armada! … e então nem que fosse de propósito, são tudo ingleses…. Lá se vão com a breca as batatas do vigário!”

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

Leave a Reply

Discover more from Assim c´má Sim Blog

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading