O Croquet: Origens, Chegada ao Faial e Prática no Varadouro

O croquet, ou cróquete, é um jogo que combina recreação, estratégia e habilidade. Originalmente um passatempo, transformou-se ao longo do tempo numa modalidade desportiva. A essência do jogo reside em golpear bolas de madeira com tacos, fazendo-as passar por pequenos arcos dispostos no campo. Acredita-se que o croquet tenha surgido na Irlanda por volta de 1830, como uma evolução do golfe. Em Inglaterra, ganhou popularidade a partir de 1850.

“Correio da Horta” 7 setembro 1955
 

Apesar de nunca ter alcançado notoriedade como desporto global, o croquet viveu um momento de destaque ao ser incluído nos Jogos Olímpicos de 1900, em Paris. Clubes tradicionais, como o All England Lawn Tennis and CroquetClub (1) — sede do prestigiado torneio de ténis de Wimbledon —, mantiveram viva a sua prática, promovendo variantes como o Association Croquet e o Golf Croquet, ainda populares em várias partes do mundo. No entanto, o croquet continua a ser, acima de tudo, um símbolo de convívio e recreação.

A Chegada ao Faial e a Influência Britânica

Nos Açores, a introdução do croquet está profundamente ligada ao intercâmbio cultural e comercial que caracterizava o arquipélago no final do século XIX e até meados do século XX. O Faial, situado estrategicamente no Atlântico, era uma plataforma de contacto frequente com o exterior, especialmente devido à presença das companhias de cabos submarinos na cidade da Horta, que trouxeram consigo a influência britânica. Foi neste contexto que o croquet encontrou espaço para se enraizar.

Campo de croquet na casa de  Rogério Gonçalves, no Areeiro – Foto: Francisco Gonçalves

Inicialmente praticado na cidade da Horta, o jogo rapidamente se espalhou por outras localidades da ilha. Durante os meses de verão, o croquet era uma atividade que unia a comunidade em torno de jogos e momentos de convívio.

Croquet no Capelo e no Varadouro

No Capelo, destacou-se no Varadouro e do Areeiro, trazido pelas famílias que tinham casa de veraneio. O Varadouro destacou-se como o principal ponto de encontro dos entusiastas deste jogo. Os campos que temos registos estavam localizados nas casas do Senhor Antero Gonçalves, do Senhor Teófilo Garcia, Senhor João Pinheiro e da família Mesquita. Estes terrenos, cuidadosamente preparados, combinavam diferentes materiais: alguns campos eram feitos de cimento, enquanto outros de terra batida, mas todos tinham uma camada de areia, garantindo que as bolas deslizassem suavemente.

Jornal “Correio da Horta” 10 de Setembro 1955
 

No Areeiro, o croquet também floresceu em espaços como as casas do Senhor Rogério Gonçalves e do Tenente Simas. Cada campo tinha a sua peculiaridade, refletindo a dedicação das famílias e da comunidade em manter este passatempo.

Os torneios no Varadouro e no Areeiro iam muito além de uma competição desportiva. Eram momentos de encontro comunitário, onde o som das bolas se misturava com as risadas, aplausos e a conversa animada dos espectadores. As tardes terminavam frequentemente com merendas ao ar livre, e as noites prolongavam-se com bailes improvisados, onde a chamarrita animava todos os presentes.

Memórias de Uma Época

Pessoalmente não apanhei os tempos áureos do croquet no Varadouro, mas guardo boas memórias dos convívios. Para quem viveu essa época, o croquet era mais do que um jogo: era um pretexto para encontros, partilhas e criação de laços. Íamos do Varadouro ao Areeiro para jogar. A subida parecia sempre fácil, mas na volta as pernas doíam-me quase sempre, dava jeito! Acabava por regressar às carrancholas do meu irmão José Manuel. Estas subidas e descidas, os jogos disputados nos finais de tarde, depois de um dia de banhos, enchia as casas de vida — tudo fazia parte de uma rotina alegre e simples que marcava os dias de férias e gosto das tardes grande do Verão.

Cândido Capaz, Manuel Garcia, Antero Gonçalves, José Mª Gonçalves e Mário Mesquita
Tomás Duarte, Conceição Mesquita, Tereza Constantino, Jorge Gonçalves
Humberta Santos, Júlia Simas, Arlete Mesquita e Manuela Lima
 

A prática era sempre acompanhada de um espírito de companheirismo e amizade. Havia a vontade de ganhar, claro, mas era saudável. Depois do jogo, o convívio continuava, e não havia cenário mais bonito para isso do que o Capelo, todos os que tiveram sorte de viver esse tempo guardam com certeza estas memórias com carinho.

Um Jogo, Uma Tradição

O Varadouro venceu o torneio de croquet ( Correio da Horta 6 set 1955)
 

Hoje, o croquet é pouco praticado no Faial, mas a sua memória resiste como um símbolo de tempos mais simples, onde o lazer ao ar livre e a convivência comunitária eram valorizados. No Varadouro, este jogo tornou-se mais do que um passatempo: foi uma expressão da identidade local, um reflexo do espírito de união que caracterizava a comunidade.

A revitalização do croquet no Faial poderia representar mais do que um regresso às tradições — seria uma oportunidade para unir gerações e promover o convívio num espaço tão emblemático como o Varadouro. A construção de um novo campo, respeitando os materiais e o ambiente, poderia devolver à juventude a oportunidade de experimentar a magia deste jogo num cenário único.

O croquet no Faial não foi apenas um jogo, mas um modo de celebrar a vida, a amizade e as pequenas grandes coisas que tornam os dias memoráveis.

Manuel Garcia, Mário Mesquita, Antero Gonçalves, Cândido Capaz
José de Freitas, Tomás Duarte…
Manuel Garcia, Tomás Duarte, Mário Mesquita, José Mª Gonçalves, Antero Gonçalves, Cândido Capaz
José de Freitas, Humberta Santos, Maria Júlia Simas, Manuela Lima, Teresa Amaral, Arlete Mesquita
Clotilde e Graça Freitas
 
Campo de croquet, na vivenda de Antero Gonçalves no Varadouro. Olívia Lacerda, Antero e Maria Lacerda

Fontes: All England Lawn Tennis and Croquet Club

Pesquisas: José Manuel Medina Garcia e Francisco Gonçalves

Fotos: Coleções de José Manuel Garcia e Francisco Gonçalves

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

2 thoughts on “O Croquet: Origens, Chegada ao Faial e Prática no Varadouro

  1. Olá João Pedro! Gostei muito, mas fiz asneira no Comentário, repeti e tornei a deixar sair incompleto e com erros. Desculpa. Abraço

  2. Gostei muito.

    Não fazia a mínima ideia sobre a forma próxima de acolhimento do croquet. Apenas sabia que tinham sido os ingleses, tal como com outros desportos, a iniciar esta actividade lúdica.

    Muito interessante.

    Nós jogámos muito croquet na Acção Católica.

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