Quando a Revista LIFE descobriu os Baleeiros do Faial

Em 1961, apenas três anos após o fim da erupção do Vulcão dos Capelinhos, a prestigiada revista norte-americana Life trouxe ao mundo uma reportagem sobre a baleação tradicional nos Açores.

Na imagem o Bote “Capelinhos” (matrícula H-24-B) na altura era propriedade da Reis & Martins, Lda. e que está afeto à Junta de Freguesia do Capelo após a sua recuperação – um símbolo da preservação da memória baleeira – Foto: Revista LIFE

O jornalista Eugene Burdick e a equipa da revista acompanharam durante vários dias os baleeiros da freguesia do Capelo, numa altura em que o Faial ainda procurava recuperar das profundas consequências da erupção. A reportagem foi realizada junto dos homens da base baleeira então instalada no Porto do Varadouro, que sucedera ao antigo porto baleeiro do Porto Comprido, profundamente afetado pela erupção.

Para os leitores americanos, foi uma descoberta surpreendente.

Burdick descreve os Açores como um dos últimos lugares do mundo onde a caça à baleia permanecia praticamente inalterada desde o século XIX. Enquanto a indústria baleeira moderna recorria a navios motorizados e canhões-arpão, os açorianos continuavam a sair para o mar em pequenos botes de madeira, movidos a remos e à vela, utilizando o arpão de mão e as tradicionais lanças.

O jornalista explica que esta forma de caça era herdeira da tradição levada para os Açores pelos baleeiros de Nantucket e de New Bedford, mantendo técnicas que praticamente tinham desaparecido no resto do mundo.

A reportagem acompanha toda a sequência de uma campanha baleeira. Desde o momento em que o vigia avista um cachalote, passando pela corrida dos botes até ao local, o silêncio da aproximação, o lançamento do arpão e a longa perseguição ao animal.

Burdick descreve a violência do confronto. Relata como os homens permaneciam durante horas em luta com um animal dezenas de vezes maior do que o bote, enfrentando o risco constante de uma pancada da cauda ou de um mergulho repentino que podia destruir a embarcação.

Recorda também que, apenas no ano anterior, vários botes tinham sido gravemente danificados e alguns baleeiros haviam perdido a vida, demonstrando que aquela profissão continuava a ser uma das mais perigosas do mundo.

Uma pintura feita a partir de uma das fotos da revista LIFE e onde pode ver em primeiro plano o trancador José Rafael, natural do Capelo.

Um dos aspetos que mais impressionou o jornalista foi a disciplina e a confiança existentes entre os sete homens do bote. Cada um conhecia exatamente a sua função e qualquer erro podia comprometer a vida de toda a tripulação.

A reportagem descreve igualmente o momento em que, após quase duas horas de luta, a baleia dá o seu último sopro antes de morrer. O mar tinge-se de vermelho e o silêncio substitui a tensão que dominara toda a perseguição. Para aqueles homens, a captura representava muito mais do que uma vitória: significava garantir o sustento das suas famílias.

Burdick sublinha ainda que os baleeiros açorianos trabalhavam em condições extremamente difíceis e recebiam remunerações modestas. Apesar disso, continuavam a exercer uma atividade exigente, marcada pela coragem, pelo espírito de equipa e por um profundo conhecimento do mar.

Mais de seis décadas depois, esta reportagem da Life permanece como um dos mais importantes testemunhos internacionais sobre a baleação tradicional açoriana. As fotografias e os textos não documentam apenas uma atividade económica hoje desaparecida; preservam a memória de uma comunidade que fez do mar a sua forma de vida e que, num período particularmente difícil da história do Faial, continuou a enfrentar diariamente o oceano com extraordinária determinação.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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