Ao abrir da Manhã – Os Ratos Agradecem

Publicado no Jornal Incentivo de 9 de Junho de 2026

Há coisas que acontecem tão devagar que quase não damos por elas. Primeiro vê-se um. Depois outro. Mais tarde, alguém comenta que viu um a atravessar a rua em plena luz do dia. E, quando damos conta, já não são eles que vivem entre nós; somos nós que vivemos entre eles.

Falo, claro, dos ratos.

Durante anos habituámo-nos a associá-los a histórias antigas, aos tempos em que as condições sanitárias eram outras e os problemas pareciam pertencer ao passado. Afinal, estávamos enganados. Os ratos decidiram fazer uma visita ao futuro e gostaram tanto que resolveram ficar.

Hoje passeiam-se pelas ruas da cidade com uma confiança invejável. Há quem diga que alguns já conhecem melhor os horários da recolha do lixo do que muitos moradores. Outros garantem que os mais atrevidos circulam sem qualquer receio, como quem sabe que ninguém lhes vai pedir identificação.

O problema é que a questão deixou há muito de ser apenas desagradável. Não estamos a falar de um fenómeno curioso da vida urbana nem de uma história para contar entre vizinhos. Estamos a falar de uma praga que cresce de dia para dia e que constitui um sério problema de saúde pública. Os roedores são conhecidos transmissores de doenças, contaminam alimentos, invadem espaços habitados e representam um risco que nenhuma comunidade responsável deve ignorar.

E como se isso não bastasse, há também uma fatura económica a pagar. Nos campos, os prejuízos acumulam-se nas culturas e nos produtos armazenados. Os agricultores sabem-no bem. Nos estabelecimentos comerciais e nas habitações, multiplicam-se os custos com medidas de controlo e prevenção. No fundo, cada rato que hoje vemos a correr pelas ruas representa um custo que alguém acabará por suportar amanhã. A diferença é que, quanto mais se adia a solução, mais elevada será a conta.

O mais curioso é que toda a gente vê o problema. Moradores, comerciantes, agricultores, visitantes. Ninguém precisa de relatórios técnicos ou estudos aprofundados para perceber que algo não está bem. Basta abrir os olhos.

Mas, perante uma situação que parece evidente, surge uma dúvida igualmente evidente: porque não se faz uma ação coordenada em toda a ilha?

Será que os ratos têm representantes em cada freguesia e exigem negociações separadas? Será que existe um acordo tácito para que sejam combatidos numa rua e recebidos com honras na seguinte? Ou estaremos perante uma estratégia inovadora de convivência interespécies que ainda não foi devidamente explicada ao público?

Pelo que se sabe, não existem impedimentos legais que impossibilitem uma intervenção global. Existem desafios logísticos, custos e necessidade de coordenação, naturalmente. Mas esses obstáculos existem para ser ultrapassados, não para servir de desculpa à inação.

A distribuição de rodenticida pelas freguesias, por si só, dificilmente resolverá o problema. Por um lado, nem todos estão sensibilizados para a gravidade da situação. Por outro, o combate aos roedores só produz resultados quando é feito de forma simultânea e coordenada. Se uns colocam iscos e outros não, continuamos presos ao velho ciclo da pescadinha de rabo na boca. Há sempre quem pense: “Eu não vou colocar porque os ratos acabam por vir todos para a minha banda.” E, enquanto cada um espera que seja o vizinho a agir primeiro, os únicos que beneficiam da falta de entendimento continuam a ser os ratos.

A verdade é simples: os ratos não conhecem limites de freguesia, não respeitam marcos administrativos nem pedem autorização para mudar de território. Combatê-los de forma isolada é muitas vezes empurrar o problema de um lado para o outro. Combatê-los em conjunto seria, pelo menos, uma forma de lhes mostrar que, desta vez, a ilha inteira está do mesmo lado.

Aliás, se os ratos conseguem circular livremente entre freguesias sem se preocuparem com limites administrativos, talvez fosse boa ideia que o combate ao problema também ultrapassasse essas fronteiras.

Enquanto isso, continuamos a assistir ao espetáculo. Os cidadãos observam, comentam e aguardam. Os ratos prosperam.

E talvez o mais preocupante nem seja o número crescente destes visitantes de quatro patas. O mais preocupante é a sensação de que nos estamos a habituar à sua presença. Como se fosse normal.

Não é.

A saúde pública não se protege com artigos de opinião, como este, estudos, discursos, comunicados ou debates intermináveis. Protege-se com ação. E quanto mais tempo se espera, mais confortável se torna a vida dos únicos habitantes da ilha que parecem não ter motivo para reclamar.

Os ratos agradecem.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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