Olhar o Faial – A Labalinha, a Ave de Nossa Senhora

Entre as aves que fazem parte das nossas histórias de criança, poucas serão tão familiares como a labalinha, nome popular pelo qual é conhecida a alvéola-cinzenta (Motacilla cinerea). Para muitos simplesmente a Ave de Nossa Senhora, uma pequena ave discreta que acompanhava o quotidiano das pessoas nos campos, nas ribeiras e nas zonas costeiras da ilha, sempre com uma vivacidade ímpar.

Embora esteja normalmente associada a cursos de água doce, é frequente observá-la junto ao mar, em portos, desembocaduras de ribeiras, terrenos agrícolas e muros de pedra. A sua silhueta elegante, marcada pela longa cauda em constante movimento, torna-a facilmente reconhecível.

A alimentação baseia-se sobretudo em pequenos insetos e outros invertebrados. Mosquitos, moscas, larvas, aranhas e insetos fazem parte da sua dieta diária. É comum vê-la correr agilmente entre pedras, margens de ribeiras ou zonas costeiras, capturando alimento com grande rapidez.

Durante a época de reprodução, é possível distinguir machos e fêmeas. O macho apresenta uma característica garganta negra, que contrasta com o amarelo vivo do ventre e o cinzento do dorso. A fêmea tem uma coloração mais discreta, com a garganta clara e menor contraste entre as diferentes tonalidades da plumagem. Fora da época reprodutora, essa distinção torna-se mais difícil, pois o macho perde parte da coloração característica.

Hoje, tenho a percepção de que a sua presença é menos frequente do que outrora, embora continue a ser observada em vários pontos da ilha, sobretudo nas zonas costeiras, mas aparentemente a sua população é bem menor.

A labalinha recorda-nos a importância dos pequenos habitats naturais que tantas vezes passam despercebidos. Uma ribeira preservada, uma zona húmida saudável ou uma linha de água limpa não beneficiam apenas a paisagem, mas também inúmeras espécies que dependem desses ambientes para sobreviver.

Discreta, elegante e profundamente ligada às memórias de várias gerações de faialenses, a Ave de Nossa Senhora continua a fazer parte da identidade natural do Faial. Observar o seu voo leve, o característico balançar da cauda ou o brilho amarelo da sua plumagem é reencontrar um pequeno tesouro da natureza açoriana que merece ser conhecido, valorizado e protegido.

Fotos: João Garcia

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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