Publicado no Jornal Incentivo de 2 de Junho de 2026
Os Açores são um arquipélago. Parece uma evidência tão básica que não deveria precisar de ser repetida. No entanto, quando analisamos as políticas públicas dos últimos anos para a mobilidade interilhas, percebemos que os sucessivos governos parecem ter esquecido esta realidade fundamental.
A continuidade territorial dos Açores não se faz por estrada. Faz-se por mar e por ar. E é precisamente por isso que a Região deveria dispor de uma estratégia integrada de transportes, em que os modos marítimo e aéreo funcionassem de forma complementar, reforçando-se mutuamente e garantindo alternativas sempre que um deles falhasse.

Mas essa estratégia nunca existiu.
O transporte marítimo de passageiros tem sido tratado como uma atividade sazonal, sem visão de longo prazo, sem investimento estruturante e sem qualquer ambição de desenvolvimento. Em vez de construir um sistema resiliente e moderno, capaz de servir residentes, empresas e turistas durante todo o ano, a Região limitou-se a gerir dificuldades, adiar decisões e acumular dependências.
A situação torna-se ainda mais grave quando recordamos que os Açores tiveram à sua disposição uma oportunidade única através do Plano de Recuperação e Resiliência. Nunca houve tantos recursos financeiros disponíveis para modernizar infraestruturas, investir em novas soluções de mobilidade marítima, desenvolver embarcações mais eficientes e sustentáveis ou criar uma verdadeira rede regional de transportes integrada.

No entanto, não surgiu qualquer programa estruturado de renovação da frota de passageiros, não foi apresentada uma estratégia para assegurar ligações marítimas regulares e fiáveis ao longo de todo o ano e continuou por definir o papel que o transporte marítimo deve desempenhar na mobilidade interilhas. Em vez de aproveitar os recursos extraordinários disponíveis para resolver problemas estruturais, a Região voltou a adiar decisões fundamentais.
Enquanto outras regiões utilizaram os fundos europeus para preparar o futuro, os Açores deixaram passar uma oportunidade histórica para reforçar a sua coesão territorial e construir um sistema de transportes mais resiliente.
Hoje, concluídos os principais ciclos de decisão do PRR, a Região continua sem um plano consistente para o transporte marítimo de passageiros e sem qualquer visão clara sobre o papel que este deve desempenhar na mobilidade interilhas.

O mais preocupante é que, em paralelo, tem vindo a ganhar força uma visão excessivamente concentradora da conectividade regional. Defende-se, na prática, que cada vez mais fluxos de passageiros e ligações dependam de um único centro operacional.
Trata-se de uma opção que ignora a própria natureza arquipelágica dos Açores.
Os frequentes constrangimentos provocados pelos nevoeiros em São Miguel demonstram regularmente os riscos desta dependência. Quando uma única ilha concentra demasiadas funções estratégicas, toda a Região fica mais vulnerável. E exemplos recentes, como o incêndio no Hospital de Ponta Delgada, demonstraram de forma inequívoca como a excessiva concentração de serviços e funções estratégicas pode aumentar a vulnerabilidade de toda a Região.
Situações meteorológicas adversas ou emergências inesperadas revelam rapidamente as fragilidades de sistemas excessivamente centralizados.
Os Açores precisam exatamente do contrário. Precisam de mais descentralização, mais redundância e mais alternativas. Necessitam de uma rede de transportes que distribua riscos em vez de os concentrar e de ligações marítimas regulares e fiáveis que complementem o transporte aéreo, reforçando a coesão territorial e garantindo que nenhuma ilha fica dependente de uma única solução.
A complementaridade não é um custo. É um investimento em segurança, resiliência e desenvolvimento.
Infelizmente, o atual Governo Regional também parece não compreender esta realidade. Em vez de apresentar uma estratégia para o transporte marítimo de passageiros, continua a limitar-se à gestão corrente, sem objetivos claros, sem planeamento e sem visão para as próximas décadas.

Num arquipélago, a ausência de estratégia é, por si só, uma estratégia. E, neste caso, é uma estratégia de dependência, centralização e fragilidade. Os Açores merecem melhor. Merecem uma política de transportes que reconheça que a continuidade territorial não se decreta, constrói-se. Constrói-se com investimento, planeamento e visão; criando alternativas, distribuindo riscos e reforçando a coesão entre todas as ilhas. Porque a força dos Açores nunca esteve na concentração. Sempre esteve na capacidade de manter unidas nove ilhas dispersas pelo Atlântico. Num arquipélago, ligar é governar. E é essa realidade que qualquer estratégia de transportes digna desse nome deve servir.
É bem assim o que aqui está dito.
Governos sucessivos com gente sem visão, sem percurso, ligados ao imediatismo do voto, sem deixar legado, nem sequer bons caminhos para as gerações vindouras.
Porque quem é ilhéu sem pontes está literalmente isolado, cada vez mais na contemplação, porque a esperança essa já nem é miragem.
Mas culpados somos todos nós….porque ainda acreditamos.