
Para os nossos pescadores, ou um porto na Lapa para dois ou três burgueses pescarem dois meses de verão?
— Explicou-nos o mestre Rufino, oficial de baleia e pescador.
Uma opinião, quanto a nós muito válida, que se transmitiu de geração para geração, é a dos pescadores da freguesia do Capelo, que gastaram a pele nas pedras roladas daquele pseudo-portinho que o vulgo denominou de Porto Velho, e de que o porto da Lapa nunca serviu bem e agora muito menos, devido aos pedregulhos e areias que o vulcão vomitou e o mar arrastou para aquela pequena baía, dificultando ainda mais a manobra de aragem e varagem das pequenas embarcações.

É bem elucidativa a entrevista concedida a este vespertino (Outono, estação da apanha do chicharro), resultado de uma breve troca de impressões com o mestre Rufino, oficial de baleia e pescador, e que abaixo respigamos em algumas passagens.
Fomos com três lanchas em caminhadas do Salão ao Varadouro e apanhámos todo o chicharro que pudemos, abastecendo todas as freguesias do Norte da ilha: Praia do Norte, Cedros, Salão. Até chegámos a vender peixe no Pedro Miguel. Aquilo é que é uma rica baía!
— E acerca do porto da Lapa?
— Fez-se o serviço de aragem e varagem com muitas dificuldades, mesmo dentro da bolsa sempre a bater. Um serviço muito perigoso. Foi forçar demais e arriscar a cabeça contra as pedras. Até uma lancha nossa arrombou quando varava. Lá fora, onde pescávamos, o mar não se mexia; cá dentro, no porto, era um sarilho. Pena é não termos um porto. Foi a baía do Varadouro que abasteceu esta gente toda. Caso contrário esta gente ficava agora de Inverno sem peixe escalado.
Oh, senhores! E dizer que vão gastar dinheiro com aquele porto da Lapa! É dinheiro mal empregado. É estragar dinheiro, acredite. Não compreendo. Não encaram isto! A gente não se pode defender do mar naquele porto, e ainda por cima de noite. Se não fossem aquelas luzes que a Câmara pôs lá, eu não sei o que seria!
O senhor sabe? Aquele porto foi construído, segundo disseram uns velhotes, por uns senhores noutros tempos, que iam passar lá dois meses de Verão e iam ao mar por desporto. Escolheram aquele sítio porque não se queriam molhar. Mas naquele tempo a baía era funda; agora está entulhada.

Os nossos velhos marítimos sempre diziam que mais para dentro é que estava o abrigo. Não estamos a pedir nada de novo. É apenas o acabamento do novo porto, próximo do balneário. Se fizessem aquilo ali, vejam o valor que davam àquela baía. Até os lagosteiros e os da albacora poderiam abastecer-se de géneros e água.
— Vamos terminar? — dissemos.
— É só mais isto. Na altura em que esteve cá o Ministro das Obras Públicas, se tivesse sido possível falar com ele, como desejávamos… Mas não o vimos. Talvez ele tivesse atendido a gente. Assim não.
—Não sabemos porquê, estava toda a gente ali em baixo, junto ao balneário do Varadouro, à espera. Até o padre lá estava. Depois deram uma volta pela central hidroelétrica e nada. E nós ficámos todos ali, ao pé dos botes e das lanchas, à espera de Sua Excelência.
Nota de rodapé:
Este artigo publicado no Jornal Correio da Horta, há 50 anos, constitui um testemunho particularmente elucidativo da persistente tensão entre o saber empírico das comunidades marítimas do Faial e as decisões político-administrativas tomadas à margem dessa experiência.
O porto do Varadouro surge descrito não como uma aspiração recente, mas como uma evidência antiga, conhecida e reiterada pelos pescadores, que sempre reconheceram naquela baía um abrigo natural funcional, em contraste com a Lapa, considerada inadequada à prática quotidiana da pesca.
A referência ao vulcão dos Capelinhos reforça a dimensão histórica do problema, sublinhando que as alterações geológicas agravaram erros já existentes, sem que isso tenha provocado uma reavaliação estrutural das opções tomadas.
O texto revela ainda o distanciamento do poder central, típico do período, simbolizado na visita inconsequente das autoridades e na espera infrutífera por decisões que nunca se materializam.
Lido à distância, este documento ultrapassa a circunstância imediata e assume valor paradigmático: demonstra que, mais do que falta de meios ou de conhecimento, o entrave maior sempre foi a ausência continuada de vontade política — uma ausência que atravessa décadas, senão séculos, e cuja consequência é a permanência quase intacta dos mesmos problemas no presente.