HOMENS DO MAR

“Há quem diga que centenários e seus múltiplos ou submúltiplos abundam com tal profusão na presente conjuntura que mais parecem uma grassante epidemia.

Somos contra este conceito quando a celebração da efeméride é justificada pela grandeza do seu significado e sobretudo quando este se singulariza e distingue algo de difícil, de poderoso, que traduziu heroísmo para os autores e benemerência para a sociedade. Um centenário é uma singularidade e um marco miliário no contexto das sociedades humanas. Assim o crescendo do seu número entrará na razão directa para uma saudável civilização contra a mesquinidade de uma detestável endemia.

É o caso dos baleeiros açorianos.

Faz hoje precisamente 98 anos que na cidade da Horta foi exarada num notário notarial a escritura da constituição da primeira sociedade baleeira que se efectuou neste Arquipélago e cujos três sócios signatários foram o inolvidável Cônsul Dabney, o seu secretário George Oliver, ambos cidadãos americanos, e o português Anselmo Silva, natural da Calheta do Nesquim e naturalizado americano, figurando com o nome de Samuel Silva, o primeiro piloto tripulante das escunas baleeiras da América do Norte.

Portanto, é tempo de pensar na celebração do centenário que se aproxima a passos largos. Um lapso de tempo correspondente a dois anos não dará tréguas para comemorar um acontecimento que nos parece — porque não? — somente porque já dele falámos no Liceu da Horta e escrevemos no Correio da Horta, mas também se sobremodo mais de outros valores muito relevantes o tratarem já com a mestria peculiar da sua fama. Por exemplo, no Faial, o célebre escritor Florêncio Terra e o notável açorianista Manuel Greaves. No Pico, o jornalista Ermelindo Ávila. Na Terceira, numa das suas magistrais palestras no Rádio Clube, o nosso Professor e notável cientista, nacional e internacionalmente conhecido, Sr. Tenente-Coronel José Agostinho, referindo-se aos motoristas baleeiros, chama-lhes “os maiores navegadores do mundo”.

Em São Miguel, o escritor Dias de Melo — também açorianista — no seu apreciado livro Mar Rubro, com raro critério literário e interpretação de bailado do vivido pelo marinheiro do Tentilhão de Baltazar. E em Lisboa o incontornável autor, nascido e criado no “Terra de Baleeiros”, terra de bravos heróis, como lhes chama o seu mestre, da mesma epopeia trágico-marítima. Discípulos dos tripulantes das escunas da praça de New Bedford e de outros portos da Nova Inglaterra. Dentre os mais notáveis refira-se o Mestre Anselmo — o piloto Samuel Silva.

As barcas americanas atravessavam o Atlântico Norte e vinham estacionar no porto da Horta. Daqui seguiam para a costa de África passando por Cabo Verde. Iam até à Corrente de Benguela. Depois atravessavam o Atlântico Sul e, atingindo Punta Arenas, aí faziam o transbordo do óleo. Seguidamente navegavam para Norte, na costa do Chile, até ao ponto de fazerem rumo para o Japão. A viagem continuava sobre e ao sabor da corrente Curo Chivo, para penetrarem no Árctico através do estreito de Beriny.
Era uma audácia, assim considerada nos meados do século passado.

Mas se neste curto circuito nem de tudo e de todos podemos falar e referir, jamais poderemos olvidar um livro que se chama Ilhas Desconhecidas do insigne paisagista Raul Brandão. Nem o romance Mau Tempo no Canal da lavra do Mestre, Professor e Poeta Vitorino Nemésio. Outra produção, já condensada no cinema, Quando o mar galgou a terra, é da autoria do que foi «Príncipe dos poetas açorianos», o saudoso Professor Doutor Côrtes Rodrigues. Também se dedicou com muito entusiasmo e apresentou valiosas achegas para a história da vida dos baleeiros o jornalista Fernando Mendonça.

A par desta bibliografia vamos completar com um recorte do jornal O Dever, onde na secção «Nótulas Açoreanas» encontramos uma referência do muito notável poligrafo que reputamos como sendo nos Açores o historiador do presente na sequência directa pelo valor e importância, sem molestar os outros escritores por mais ilustres que tenham sido. Trata-se do Dr. Carreiro da Costa e connosco muitos devem querer compará-lo ao Heródoto Açoriano — Gaspar Frutuoso. Para não alterar a «nótula» extraída de uma das milhares de palestras proferidas no Emissor Regional dos Açores, ei-la na íntegra:

«… no curto espaço de alguns meses surgiram três livros de autores estrangeiros acerca da heróica e singular caça à baleia nos Açores. São eles: o romance da escritora italiana Adele Luzzatto, intitulado SENIA E O BALENEIRI, cuja acção central se desenrola em São Miguel, no Faial e no Pico; e os volumes de aventura e ciência À LA RECHERCHE DU CACHALOT, do Príncipe Mário Ruspole (já traduzido para o português) e A VIDA COMEÇOU NO MAR de Hans Hass.»

Para além dos citados sabemos que há mais. Muitos outros. Alguns que vieram contactar com os baleeiros. Vindo do estrangeiro a fim de preparar as suas teses, ouviram, viram, fotografaram e filmaram a vida dos baleeiros, que é considerada como uma arte difícil e perigosa. Neste aspecto compare-se com a arte de Montes e com outras, por mais nobres e empolgantes que sejam. Há mulheres toureiras. Aviadoras. Mergulhadoras. Sabem d’alguma que já tivesse trancado uma baleia?

Não há dúvida que a competição parece desligante. Mas então será bom não esquecer o nosso — aliás muito elegante — Almeida Garrett, quando nos apresenta Os Ilhavos e os Borda d’Água. Convencidos?

Pois bem. Cremos que vale a pena preparar e promover com festa o centenário da caça à baleia nos Açores.

Anselmo Silveira da Silva (Calheta de Nesquim, Lajes do Pico, 1833–1912), conhecido como “Capitão Anselmo”, foi uma das figuras marcantes da caça à baleia no Pico e em diversas zonas da costa atlântica dos Estados Unidos. Partiu em 1851 “de salto” — fugindo discretamente das autoridades a bordo de um navio baleeiro — seguindo o rumo de muitos açorianos da época

Foi na Calheta do Nesquim que, há quase um século, entrou no porto o primeiro cetáceo, arpoado por baleeiros da Calheta. Produziu mais de cem barris de óleo.
Afirmou-nos uma testemunha ocular. Foi um sucesso, que depois se foi repercutindo pelos outros portos e pelas outras ilhas.

A Calheta de Nesquim, agora desta prioridade, bem merece alguma traça que signifique justa, acaso o centenário devido e preconizado tempo vier a concretizar-se, a primeira terra de baleeiros nos Açores, opere pelo menos uma parte da festa por ela e quanto ao real, mais do que nunca, o Anselmo, verdadeiro tigre dos mares, a ele deve o impulso desta vida açoriana. Bem merecia que algum sinal ficasse a perdurar a sua vida de intrépido marinheiro. No terreiro da Calheta? Ou no meio de socalcos geométricos que até parecem um Zigurate e no qual se alcançou bela igreja cujo orago é São Sebastião?
Nas torres geminadas os sinos repicam por um mavioso «lá do mar» que até lembra António Sobre com os seus toques, baptizados assim. Mas quando são finados… «por quem os sinos dobram»?


O Anselmo! O temível baleeiro! E o Padre António Silveira! O famigerado impulsor da construção da igreja, do cais e do porto para os baleeiros — o cais que era o orgulho da ilha do Pico, no século!

26-4-74
In A União
A. Bettencourt

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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