O porto do Comprido restituído aos nossos pescadores, pelo mar

Há 50 anos...

Jornal Correio da Horta de 12 de Abril de 1975

Uma nota de reportagem

“Precisamente há 17 anos, o vulcão dos Capelinhos, soterrando toda aquela zona do Canto, de areia e pedregulhos, formando uma extensa praia até ao Monte do Castelo Branco. Uma pessoa poderia deslocar-se a pé duma ponta a outra, rentinho ao mar.

Habituados que estávamos, a admirar todos aqueles campos cultivados de vinhedos e milheirais no Verão, confrangeu-nos ver toda aquela paisagem desoladora, pintada a negro, algum tempo depois de ter rebentado o Vulcão dos Capelinhos.

Foto:  (Photo by Gerard Gery/Paris Match via Getty Images) . Arquipélago dos Açores, outubro de 1957: desde 27 de setembro, o vulcão Ilha Nova, a “nova ilha”, surgiu da água em frente à ilha do Faial, a 800 metros de distância. Formando uma terra efémera, seria engolida um mês mais tarde. O fotógrafo da Paris Match, Gérard Gery, observou o cataclismo durante cinco dias a partir da ilha do Faial.
Nove dias após o início da erupção, a 7 de outubro, o vento mudou bruscamente e lançou sobre a ilha do Faial um dilúvio de cinzas e pedras (algumas pesando 50 quilos). Sob a ameaça das poeiras incandescentes sopradas pelo vento, os pescadores evacuaram o pequeno porto do Capelo. Em poucas horas, a camada de escórias atingia 50 cm, enterrando tudo o que não tinha podido ser colocado a salvo. Habitantes e rebanhos ficaram reduzidos à fome. Aqui, com a ajuda de pás, homens desimpedem as cinzas que cobrem uma barca.”

A maioria das pessoas que habitava aquele sítio, debandou, voltando as costas desiludida, à procura de melhor futuro, dizendo, com as lágrimas nos olhos – “Isto, só para bisnetos!” Os buscaram lugar mais seguro e mais promissor, outros emigraram para os E. U. e Canadá para não mais voltar. E lá ficou o porto do Comprido debaixo da areia e com ele, a esperança dos pescadores e baleeiros, por melhores dias.

Passados que foram todos estes anos, eis que o mar restitui o almejado porto aos nossos homens do mar – aos poucos que por cá ficaram. Recordou-nos o Isaías que um passado não muito distante, lá pelos anos de 38, 39 e 40, quinze canoas e sete lanchas de reboque estacionadas no Comprido, se faziam ao mar com muita frequência à caça do ouro cinzento. Num destes anos, os nossos baleeiros chegaram a caçar 254 baleias – número record num só ano, no arquipélago dos Açores.

Agora, segundo informação recebida, há pouco, parece que toda a zona do Comprido está a descoberto, e, de todo aquele material depositado ali pelo Vulcão, só restam dois enormes calhaus, à entrada do porto, precisando de ser removidos quanto antes, para que as pequenas embarcações que pescam, nesta costa sul da ilha, possam já utilizar a esplêndida rampa de varagem ali existente, uma vez que o pontão do Varadouro, continua enguiçado.

Tenham a palavra os nossos técnicos.”
Horta, Abril de 1975.
A. L.

Porto do Comprido – 1995 – Pescadores do Capelo – Na imagem Vitor Mota (de costas), Manuel Fernando Conceição e Francisco Rosa (Frank) junto à carrinha – Foto: João Garcia

Pesquisa: José Manuel Garcia

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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