Há 50 anos...
Jornal Correio da Horta de 12 de Abril de 1975
Uma nota de reportagem
“Precisamente há 17 anos, o vulcão dos Capelinhos, soterrando toda aquela zona do Canto, de areia e pedregulhos, formando uma extensa praia até ao Monte do Castelo Branco. Uma pessoa poderia deslocar-se a pé duma ponta a outra, rentinho ao mar.
Habituados que estávamos, a admirar todos aqueles campos cultivados de vinhedos e milheirais no Verão, confrangeu-nos ver toda aquela paisagem desoladora, pintada a negro, algum tempo depois de ter rebentado o Vulcão dos Capelinhos.

Nove dias após o início da erupção, a 7 de outubro, o vento mudou bruscamente e lançou sobre a ilha do Faial um dilúvio de cinzas e pedras (algumas pesando 50 quilos). Sob a ameaça das poeiras incandescentes sopradas pelo vento, os pescadores evacuaram o pequeno porto do Capelo. Em poucas horas, a camada de escórias atingia 50 cm, enterrando tudo o que não tinha podido ser colocado a salvo. Habitantes e rebanhos ficaram reduzidos à fome. Aqui, com a ajuda de pás, homens desimpedem as cinzas que cobrem uma barca.”
A maioria das pessoas que habitava aquele sítio, debandou, voltando as costas desiludida, à procura de melhor futuro, dizendo, com as lágrimas nos olhos – “Isto, só para bisnetos!” Os buscaram lugar mais seguro e mais promissor, outros emigraram para os E. U. e Canadá para não mais voltar. E lá ficou o porto do Comprido debaixo da areia e com ele, a esperança dos pescadores e baleeiros, por melhores dias.
Passados que foram todos estes anos, eis que o mar restitui o almejado porto aos nossos homens do mar – aos poucos que por cá ficaram. Recordou-nos o Isaías que um passado não muito distante, lá pelos anos de 38, 39 e 40, quinze canoas e sete lanchas de reboque estacionadas no Comprido, se faziam ao mar com muita frequência à caça do ouro cinzento. Num destes anos, os nossos baleeiros chegaram a caçar 254 baleias – número record num só ano, no arquipélago dos Açores.
Agora, segundo informação recebida, há pouco, parece que toda a zona do Comprido está a descoberto, e, de todo aquele material depositado ali pelo Vulcão, só restam dois enormes calhaus, à entrada do porto, precisando de ser removidos quanto antes, para que as pequenas embarcações que pescam, nesta costa sul da ilha, possam já utilizar a esplêndida rampa de varagem ali existente, uma vez que o pontão do Varadouro, continua enguiçado.
Tenham a palavra os nossos técnicos.”
Horta, Abril de 1975.
A. L.

Pesquisa: José Manuel Garcia