O Faial em meados do século XIX e a hipótese do primeiro jogo de futebol em Portugal

A meio do século XIX, a ilha do Faial vivia um período peculiar da sua história. Situada no coração do Atlântico Norte, entre rotas obrigatórias de navios baleeiros norte-americanos, paquetes ingleses e embarcações comerciais europeias, a cidade da Horta era então um dos portos internacionais mais movimentados do arquipélago dos Açores. A baía fervilhava de entradas e saídas diárias, trazendo marinheiros de múltiplas nacionalidades, hábitos culturalmente diversos e um modo de vida que transformava, mesmo que discretamente, o quotidiano insular.

É nesse contexto que ocorre a estadia do jovem norte-americano John Pierpont Morgan, futuro banqueiro mundialmente influente, que entre novembro de 1852 e abril de 1853 passou vários meses no Faial a recuperar de problemas de saúde. No seu diário, Morgan descreve não apenas a paisagem e as relações sociais da ilha, mas também os momentos de lazer dos marinheiros britânicos e norte-americanos que frequentavam o porto da Horta. Entre esses apontamentos, surge uma frase que, vista à luz da história do desporto, tem despertado enorme interesse, a referência a um jogo de “futebol pontapeado com o pé”.

Este registo, simples mas intrigante, abriu a porta à hipótese de que o primeiro jogo de futebol realizado em território português possa ter acontecido não no continente, nem na Madeira, mas sim na pequena ilha do Faial. Quase quatro décadas antes das datas tradicionalmente aceites pela historiografia desportiva nacional. Tal possibilidade não é descabida se considerarmos o ambiente sociocultural da Horta da época, um porto internacional, cosmopolita, habituado a receber marinheiros britânicos, justamente o povo que, naqueles anos, começava a uniformizar as regras do “football” que mais tarde daria origem ao futebol moderno.

Todavia, a prudência histórica exige distinguir certezas de hipóteses.
Certeza: Morgan escreveu o que escreveu. O documento existe, é fidedigno e datado.
Os marinheiros ingleses e norte-americanos praticavam atividades recreativas nos portos onde permaneciam, incluindo jogos com bola, já então frequentes em colégios e comunidades britânicas.
Hipótese — mas forte, que o jogo observado por Morgan corresponda, de facto, a uma forma primitiva mas reconhecível de futebol, praticada segundo os hábitos britânicos da época.
Dúvida: faltam, até ao momento, registos jornalísticos ou fontes locais que confirmem o evento o que, no entanto, é compreensível, dado que a imprensa faialense ainda era frágil e incipiente antes de 1857, ano em que surge o primeiro jornal estruturado da ilha.

Assim, a ausência de fontes secundárias não invalida totalmente a hipótese; limita-a, mas não a destrói. Pelo contrário, quando se considera o contexto histórico, torna-se mais realista do que irrealista admitir que jogos de bola trazidos por marinheiros britânicos tenham ocorrido no Faial durante aqueles anos. A ilha era, afinal, um ponto de escala frequente, onde a convivência entre locais e estrangeiros era diária e natural. A juventude faialense, observadora e curiosa, teria certamente contacto com esses divertimentos, mesmo que não os registasse por escrito. A prática de football entre marinheiros não seria um acontecimento extraordinário, apenas um momento informal de lazer, demasiado trivial para merecer atenção dos poucos meios escritos da ilha.

O Faial não se apresenta historigraficamente, portanto, como “berço oficial” do futebol português, título que a historia nacional continua a atribuir à Madeira (1875) e ao continente (1888–89) por serem casos documentados em contexto já desportivo. Mas o Faial pode muito bem ter sido o berço real, o local onde, pela primeira vez em solo português, se pontapeou uma bola segundo hábitos britânicos reconhecíveis. Não um jogo organizado, não um evento formal, mas um encontro espontâneo que, na perspectiva histórica, antecede e ilumina os capítulos posteriores.

No final, esta história revela mais do que um facto desportivo, revela o espírito de uma ilha que, mesmo pequena e remota, era atravessada por ventos globais, por encontros culturais e por práticas que chegavam muito antes de se institucionalizarem. Se o primeiro futebol português nasceu na Horta, nasceu na confluência entre o Atlântico, os marinheiros estrangeiros e a curiosidade natural de uma comunidade aberta ao mundo.

E mesmo que a ciência histórica peça cautela, a verdade é que, à luz do contexto e das evidências existentes, a ideia de que o Faial assistiu ao primeiro jogo de futebol em Portugal é, hoje, plenamente plausível e, em muitos aspetos, mais verosímil do que o contrário.

Fontes:

Elisa Gomes da Torre — My Sweet Fayal: Diário de J. P. Morgan nos Açores (1852–1853)

Museu Virtual do Futebol Português — “Histórias do Futebol em Portugal (37–100)”

Federação Portuguesa de Futebol — História do Futebol em Portugal (documentação institucional)

Rádio Ilhéu — “Primeiro jogo de futebol em Portugal terá ocorrido em 1852, na Horta”

RTP Açores — Reportagens e artigos sobre o diário de J. P. Morgan e o futebol no Faial

Azorean Torpor — Artigo sobre o diário de Morgan e o football no Faial

A Imprensa Faialense no Século XIX (compilação de publicações faialenses)

Portuguese Times — “A Imprensa Açoriana no Século XIX (Parte IV)”

Arquivo Regional da Horta / Biblioteca Pública João José da Graça — Catálogos de imprensa

Ernesto do Canto — Bibliotheca Açoriana

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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