Relíquias de Família

OS AÇORIANOS e as missões do Oriente por Cecilia Terra

Publicado no Jornal Académico “Arauto” do Liceu Nacional da Horta – edição de Dezembro de 1958

“O brasão de armas do sr. Patriarca José da Costa Nunes, actualmente Vice-Camerlengo de Sua Santidade e que foi uma das mais salientes figuras do episcopado português, apresenta num campo a Cruz de Cristo e em lugar Principal a imagem de S. Francisco Xavier pregando. Por divisa as palavras de Cristo: «Ide e docete» — Ide e ensinai. Este simbolismo tem um sentido nacional, podemos dizer.

Todo o povo português cumpriu as palavras de Jesus. Desde os tempos mais remotos Portugal tem-se distinguido na Evangelização do Mundo, nomeadamente no Oriente. Recordemos a acção de S. Francisco Xavier, o símbolo do árduo trabalho do apostolado, do sacrifício da própria vida a favor da Fé. S. Francisco evangelizou várias terras do Oriente e o seu sonho era chegar à China, mas a morte barrou-lhe o caminho e ele não pôde prosseguir. Mas os missionários portugueses continuaram a sua obra. Fundaram-se as dioceses do Japão e Macau, ambas de grande história. Neste século, em Macau, elevou-se a figura de um dos maiores bispos portugueses, o sr. D. José da Costa Nunes, que com grande acção religiosa social na China, em bem da Fé e da Pátria. Como S. Ex.ª Rev.ª e muitos outros açorianos se distinguiram na China, no Japão, na Índia, na Indonésia, levando a esses povos do Oriente a palavra da Fé e da Esperança.

Muitos deles morreram, mártires pela vitória da Cruz de Cristo e pela expansão da Fé, como o Beato João Baptista Machado, natural da Terceira e que foi martirizado no Japão. Também não podemos esquecer a acção do Padre Francisco Furtado de Mendonça, faialense cuja obra se desenrolou no Japão vindo ele a falecer em Macau.

Os anos têm decorrido, mas a batalha pelo triunfo da civilização cristã continua, tendo sempre como colaboradores no Oriente missionários açorianos. D. Frei Bernardo de Sousa Enes bispo de Macau no século passado, era natural de S. Jorge, D. João Paulino de Azevedo e Castro, também bispo de Macau era das Lajes do Pico; do Pico é também D. José da Costa Nunes, alta glória de Portugal e da Igreja, bem como D. José Vieira Alvernaz, venerando patriarca das Índias. À longínqua província de Timor a obra dos nossos missionários também tem chegado. Lá trabalham presentemente os missionários: P.e Manuel Silveira Moriz, dos Cedros; P.e José Pereira da Silva Brum (Ribeiras); dois terceirenses que também se têm distinguido a levar a palavra de Cristo até Timor, o P.e Carlos da Rocha Pereira e o P.e Ezequiel Pascoal. Em Macau a obra também tem sido de elevado mérito, e lá exerceu o seu apostolado o P.e Barcelos Mendes, da Terceira, o cónego Nunes da Costa, da Candelária, Pico; P.e Arquimínio da Costa, de São Mateus. Lá trabalhou também o Dr. Manuel da Costa Nunes que, depois prestou relevante serviço em Goa e Moçambique: P.e Áureo da Costa Nunes e Castro, distinto músico picoense que se encontra em Lisboa no Conservatório Nacional; o notável poeta e professor Mons. Machado Lourenço; o Cónego Raul Camacho, o P.e Mateus das Neves. Em Goa trabalha outro conterrâneo nosso, P.e José Maria das Neves.

Presentemente em Moçambique dedica-se às missões o P.e Serafim Amaral, natural da Feteira, que se distinguiu na China em obras de assistência aos sinistrados da guerra. Outro missionário que também exerceu apostolado em Macau foi o P.e José Maria Fernandes já falecido. A obra da evangelização tem custado grandes sacrifícios, por vezes muitos contratempos tem surgido, mas os nossos missionários não o desistiram nem desistem.

A vida missionária é muito trabalhosa e árdua, mas também tem momentos de infalível consolação. Felizes daqueles a quem Deus escolheu para serem os mensageiros da verdade! São dignos de uma homenagem estes e outros missionários açorianos que no Oriente dão o seu preciso contributo a grande obra de Evangelização, que tem feito a grandeza de Portugal no Ultramar.”

Cecília Terra

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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