Publicado no Jornal “Incentivo” de 19 de Novembro de 2025
Pescas – Leituras Limitadas

A manchete do jornal Açoriano Oriental de 14 de novembro de 2025, “Recreio e turismo do mar geram mais valor que as Pescas”, baseia-se numa análise limitada da Conta Satélite do Mar e transmite uma visão distorcida da economia azul nos Açores. O estudo utiliza apenas o VAB (Valor Acrescentado Bruto), uma métrica contabilística que mede margens líquidas e não a riqueza total gerada, o emprego, as exportações ou o impacto social. As empresas de turismo marítimo beneficiam de isenções, custo reduzido, estágios financiados, projetos científicos e fundos comunitários que não são registados como despesas, inflacionando artificialmente o seu VAB. Já a pesca assume custos reais e apoios, manutenção, combustível, logística e obrigações legais que reduzem o VAB apesar de movimentar muito mais economia e sustentar comunidades inteiras. Assim, a conclusão apresentada pelo estudo é parcial e não traduz o verdadeiro peso económico, social e estratégico das pescas nos Açores. A comparação exige mais rigor do que uma métrica isolada, sobretudo num momento em que às pescas e aos pescadores se tenta frequentemente imputar todos os males do mar dos Açores.
Postos de Correio
As antigas caixas de correio de pilar vermelhas começaram a surgir em Portugal por volta de 1880, acompanhando a modernização do serviço postal. Inspiradas nas britânicas “pillar boxes”, representaram uma mudança na forma de comunicar e tornaram-se símbolos do progresso. Produzidas em ferro fundido, muitas pela Empresa Industrial Portuguesa, marcaram um tempo em que enviar uma carta era um gesto de proximidade e confiança.
Hoje, mais de um século depois, continuam a ser elementos valiosos do nosso património urbano. Em várias cidades existem exemplares restaurados, pintados com o vermelho vivo que lhes deu fama. Infelizmente, na Cidade da Horta, na ilha do Faial, o cenário é diferente as caixas de pilar estão abandonadas e cobertas de ferrugem. Há pelo menos cinco ainda de pé no Largo do Bispo, junto à estação dos CTT, em frente à Residencial de São Francisco, ao Novo Banco e à Igreja das Angústias. São testemunhos silenciosos da nossa história postal, mas carecem urgentemente de manutenção.

Não é apenas uma questão estética. Estas caixas fazem parte da memória coletiva e testemunharam o quotidiano de gerações. Deixá-las degradar é apagar um pedaço da nossa identidade. Se noutros lugares se preservam com orgulho, por que não também na Horta?
Recuperar as existentes é um gesto simples, mas significativo, um sinal de respeito pela história, pela beleza do espaço público e pelo valor das pequenas coisas que nos ligam ao passado. Ainda vão a tempo de ser salvas basta ver nelas mais do que ferro velho.
Melhorias
Junto ao Centro de Saúde foi recentemente criado um acesso pedonal a partir da estrada Mestre Jaime Feijó, o que representa uma melhoria muito positiva. No entanto, ainda faltam dois elementos fundamentais para garantir a segurança e a funcionalidade deste acesso. A colocação de um corrimão, garantindo um apoio essencial e a colocação de uma passadeira em frente ao referido acesso, de modo a permitir a travessia da estrada em segurança.

Já anteriormente tinha referido as dificuldades de estacionamento e a necessidade de ajardinamento das áreas envolventes, construídas com esse propósito, mas que continuam apenas relvadas ou com a monda cortada, sem qualquer arranjo paisagístico.
Seria importante que estas pequenas melhorias fossem concretizadas, valorizando o espaço público, melhorando a segurança dos peões, tornando o acesso ao Centro de Saúde mais agradável e funcional para todos.
Cuidados Paliativos
A recente palestra realizada no Hospital da Horta sobre cuidados paliativos foi um marco importante. Num tema muitas vezes evitado, esta iniciativa trouxe informação, empatia e a coragem necessária para discutir dignidade no fim de vida.
Os cuidados paliativos significam qualidade de vida, controlo da dor e apoio às famílias. E é por isso que ganha especial peso recordar que a criação de uma Unidade de Cuidados Paliativos no Faial foi, há muitos anos, perspetivada para a nossa ilha, mas nunca chegou a ser concretizada. Este é o momento de recuperar essa ambição e transformá-la finalmente em realidade.

A existência desta unidade na nossa ilha iria materializar um espaço onde as pessoas com doença grave pudessem viver com o máximo de conforto possível, assegurando dignidade, alívio e apoio humano tanto ao doente como à família.
A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos tem sido fundamental ao alertar para a falta de respostas no país e ao apoiar iniciativas como esta palestra, que reforçam a urgência de avançar.
Mais do que um evento, este encontro no Hospital da Horta foi um sinal de esperança e de mudança necessária para uma saúde mais humana nos Açores.
Suportes de Cartazes
Volto ao tema porque, terminado mais um ciclo eleitoral, percebe-se que, em vez de desaparecerem, as estruturas de suporte à propaganda política e comercial continuam a multiplicar-se. A estrada Príncipe Alberto Mónaco é disso um péssimo exemplo. Numa via que funciona como verdadeira porta de entrada da cidade, não havia qualquer necessidade de a transformar num corredor de anúncios, numa feira. O impacto visual é desnecessário e empobrece o ambiente urbano. Com a nova variante prestes a abrir, fica a pergunta, será mais um espaço a ser ocupado por este tipo de poluição visual? O nosso espaço público merece melhor.






Gostei de todos os assuntos descritos com muita clareza, como é habitual.
Marcaram-me muito os Marcos de Correio e, de um forma muito especial, os Cuidados Paliativos. Em Angra do Heroísmo, tive, por circunstâncias menos felizes, a possibilidade de constatar a qualidade dos serviços prestados. Humanidade, carinho, presença diária e até acompanhamento após desenlace inevitável. Percorrem diariamente as casas dos que necessitam do seu apoio.
Bem haja!