O Dia em que o Vulcão Falou pelo Príncipe

A preparação da visita do Príncipe Alberto II ao Faial foi repleta de momentos peculiares, mas poucos se podem comparar à odisseia surreal envolvendo o acesso ao Farol dos Capelinhos. Era evidente que o evento precisava de requinte e organização, mas a ideia de permitir que viaturas chegassem até ao miradouro privilegiado do vulcão parecia-me, no mínimo, um contrassenso.

Quadro de Martim Cybrom (na foto) – Entrega ao Príncipe Alberto do Mónaco no jardim José do Canto, em Ponta Delgada – Abril de 2010 – Retrata o Vulcão dos Capelinhos, as odisseias marítimas do Príncipe Alberto do Monaco I e o Observatório Meteorológico com o seu nome na Cidade da Horta

Naquele altura, já nos empenhávamos em controlar motociclistas que insistiam em transformar o local num improvisado circuito de motocross, destruindo a paisagem delicada e perturbando a harmonia daquele território singular. Esforçávamo-nos para criar circuitos definidos que preservassem as cinzas e mantivessem a zona intacta. E agora, perante tudo isso, alguém achava lógico que o carro do Príncipe atravessasse as cinzas do vulcão. Era um absurdo.

Debatemo-nos, argumentámos, mostramos que aquilo era um verdadeiro disparate, mas havia quem estivesse determinado a seguir em frente. Como se desafiar a lógica não bastasse, a solução encontrada foi tão inusitada quanto a ideia original: colocaram um cilindro a compactar as cinzas para criar uma espécie de estrada. Confesso que, naquele momento, pensei que estava num filme de ficção

Quando chegou o dia da visita, a mim coube a ingrata tarefa de dar apoio a esta insensatez. Não fosse alguma viatura ficar enterrada no meio da aventura vulcânica. Os sons de motos ao longe indicavam que a comitiva se aproximava. Primeiro vieram os batedores da polícia. Um parou junto a mim, o outro seguiu direto até ao farol, como se nada pudesse deter aquele desfile.

Logo apareceram as viaturas dos anfitriões, que aceleraram para estar junto à torre e receber o ilustre convidado. E então, chegou o momento que todos aguardavam, o carro do Príncipe Alberto rolou lentamente sobre as cinzas do vulcão. Porém, mal o veículo avançou, parou de repente.

Pensei para comigo: “Estão com medo de ficar atolados.” Mas o que se seguiu foi inesperado. A porta de trás abriu-se e, com toda a calma e uma elegância inconfundível, o Príncipe saiu do carro. Olhou ao redor, fez uma pausa e, com um sorriso subtil, proferiu as palavras que guardarei para sempre:

“Les voitures ne roulent pas sur les cendres d’un volcan, nous devons respecter la nature”
“Os carros não rolam sobre as cinzas de um vulcão, devemos respeitar a natureza.”

Cumprimentei-o, absolutamente de acordo. Por dentro, sentia vontade de lhe dar um abraço. Era como se, finalmente, alguém trouxesse bom senso àquele cenário de absurdo.

As entidades anfitriãs, que aguardavam no farol, apressaram-se a correr até junto do Príncipe, como se estivessem numa prova olímpica, tentando minimizar a situação. Mas a ironia estava feita, enquanto todos corriam para apagar o desconforto, o Príncipe já tinha deixado a sua marca uma lição de respeito pela natureza, dita em poucas palavras, mas com o peso de quem entendia a verdadeira essência daquele lugar. E assim, no Faial, enquanto as cinzas do vulcão suportaram o peso das rodas, as palavras do Príncipe ficaram gravadas para sempre. E, claro, foi também o dia em que um cilindro virou o improvável protagonista da corrida das entidades

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

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