
Alberto I do Mónaco, o príncipe navegador Comite Albert Ier Monaco
Estava uma manhã radiosa quando se espalhou a notícia de uma visita ilustre ao Faial, o Príncipe Alberto II do Mónaco chegaria no dia 7 de abril de 2010. O destino da viagem era carregado de história para os faialenses, aqui deixou marca o seu trisavô, o Príncipe Alberto I do Mónaco (1848–1922), que se destacou não apenas como soberano, mas também como cientista e explorador. Apaixonado pelos oceanos, Alberto I dedicou grande parte da sua vida à oceanografia, financiando expedições e promovendo a investigação científica, com especial enfoque na fauna marinha e na geologia subaquática. Em reconhecimento à sua contribuição, o Observatório Meteorológico da Horta, situado na ilha do Faial, passou em 1923 a chamar-se Observatório Príncipe Alberto do Mónaco. A visita de Alberto II teve como objetivo celebrar o legado do seu trisavô, reforçar os laços históricos e científicos entre o Principado do Mónaco e os Açores, descerrar uma placa comemorativa no observatório e assinar um protocolo de colaboração científica entre o Museu Oceanográfico do Mónaco e o Instituto de Meteorologia português.

O evento seria marcante, não apenas pelo prestígio da ocasião, mas pela oportunidade de estreitar laços, estando previstas várias visitas, entre elas ao Vulcão dos Capelinhos, sendo oferecido um jantar de gala no Centro de Interpretação pelo Presidente do Governo Carlos César a inúmeros convidados.
A missão de organizar esse jantar caiu sobre os ombros experientes de José Matos, proprietário do renomado restaurante “O Barão”. Comida açoriana, requinte e tradição eram a sua especialidade, mas o local escolhido trazia desafios de proporções quase épicas. Um espaço magnífico, inaugurado apenas dois anos antes, mas sem qualquer infraestrutura de cozinha. Preparar pratos quentes para mais de 100 convidados parecia um pesadelo.
No dia da inspeção lá estávamos nós, eu, José Matos e o chefe de cozinha, a percorrer as instalações enquanto o vulcão ao fundo impunha a sua presença majestosa. Era impossível ignorar o contraste entre a grandiosidade do espaço e a total ausência de condições para um evento gastronómico desta dimensão. Garanto que era desanimador.
O chefe de cozinha, visivelmente desconfortável, desabafou com um tom categórico, gesticulando para os espaços vazios e a falta de equipamentos essenciais, de água e condutas de gás entre outras queixas, dizendo que ali não cozinhava para ninguém.
Havia uma tensão no ar, mas desistir não era opção. Respirei fundo e, num tom quase casual, perguntei:
— Já viu o filme Ratatui?
Ele fez que não com a cabeça, desconfiado, enquanto o José Matos cruzava os braços, contendo aquele seu sorriso inimitável de sempre.
— É um filme onde um rato consegue cozinhar pratos incríveis, mesmo em condições improváveis. Milagres acontecem. Vamos criar tudo o que for necessário aqui. Se correr bem, ofereço-lhe o filme como presente.

O chefe olhou para mim, claramente a tentar decidir se eu era um louco ou um sonhador. Depois, balançou a cabeça, relutante, mas com menos resistente.
As semanas seguintes foram uma corrida contra o tempo, cheia de criatividade e esforço. Montámos uma cozinha improvisada com fogões portáteis, bancadas desmontáveis e uma equipa com determinação contagiante. José Matos comandava as operações com a precisão de um maestro, adquiriu um serviço de porcelana da Vista Alegre, enquanto o chefe de cozinha, que inicialmente duvidava, acabou por se render ao espírito de equipa.
Na noite do jantar, o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos transformou-se num salão digno de realeza. Toalhas brancas, castiçais elegantes e uma vista deslumbrante das encostas vulcânicas criaram um cenário inesquecível. O Príncipe Alberto II chegou pontualmente com um sorriso de encantamento ao ver a harmonia entre a paisagem natural e a sofisticação do evento.
Os pratos foram servidos com uma precisão impecável, sopas quentes, a nosso peixe fresco, nossa carne açoriana e sobremesas típicas dos Açores arrancaram elogios de todos os presentes. No final, o chefe de cozinha ainda suado do trabalho árduo, aproximou-se de mim com um sorriso tímido e disse:
— Acho que hoje fizemos o nosso “Ratatui” orgulhoso.
No dia seguinte cumpri a promessa e ofereci-lhe uma cópia do filme. E assim a visita do príncipe ao Faial não só reforçou laços institucionais, mas também demonstrou que com determinação e um toque de inspiração os faialenses fazem os milagres acontecerem.
