Casa dos Botes do Porto do Comprido

Memória e Património Baleeiro do Faial

Desde criança, a minha ligação ao mar e às histórias contadas pelos pescadores do Varadouro despertaram em mim a curiosidade e a vontade de saber mais. Ainda assisti aos últimos tempos da baleação no Varadouro e ouvi muitas histórias dessas aventuras passadas, algumas embelezadas, mas sempre com atenção. Talvez daí tenha nascido o meu interesse pela baleação açoriana.

Casa dos Botes – 7 de Julho de 2012

Levado por essas memórias, e por ocasião das comemorações dos 400 anos da freguesia do Capelo, surgiu a ideia de criar um movimento dedicado à preservação da memória baleeira da Ilha do Faial. Diferentemente da vizinha Ilha do Pico, que já conservava alguns elementos dessa tradição, o Faial contava apenas com o bote “Claudina”, pertencente ao Clube Naval da Horta. Foi nesse contexto que se iniciou a recuperação do património baleeiro móvel e imóvel do Faial, primeiramente os oito botes baleiros e depois a Casa dos Botes, na aldeia baleeira do Comprido, um espaço que, naturalmente, se destinaria a celebrar e preservar a história da baleação na freguesia do Capelo.

A recuperação e musealização da Casa dos Botes teve como objetivo devolver à comunidade do Capelo um espaço que constituía parte de sua memória e identidade cultural. Além disso, a iniciativa procurou fomentar o turismo cultural, oferecendo aos visitantes uma compreensão aprofundada da baleação na Estação Baleeira do Porto do Comprido, uma das principais dos Açores.

Dia da inauguração da Casa dos Botes do Comprido – 7 de Julho de 2012

A baleação terrestre começou nos finais do século XIX, por iniciativa da Família Dabney, que contou com a colaboração de açorianos que haviam embarcado em baleeiras americanas. Essa versão costeira da baleação apresentou-se como alternativa mais económica e adaptada à cultura local, em comparação à baleação oceânica praticada pelos americanos

O Porto do Comprido, destacou-se efectivamente como um dos postos baleeiros mais importantes. Antes da erupção do Vulcão dos Capelinhos, o local contava com 12 casas de pedra cobertas por colmo, conhecidas como palhotas, que serviam de alojamento aos baleeiros, armazém de cabos e velas e casa de botes. Durante as campanhas de verão, baleeiros do Faial e do Pico deslocavam-se para ali temporariamente, formando um núcleo ativo da indústria baleeira.

Segundo relatos de Francisco Medeiros, o Porto do Comprido foi “a maior estação baleeira e mais produtiva na caça à baleia do Arquipélago dos Açores”, sendo ponto de passagem de mestres e oficiais da região.

O Posto Baleeiro do Porto do Comprido encerrou a atividade após a erupção do Vulcão dos Capelinhos, em 1957-58, sendo transferido para o Varadouro. A partir desse evento, a baleação no Faial entrou em declínio, intensificado pela emigração de muitos baleeiros para os Estados Unidos. Ao longo das décadas seguintes, grande parte da memória física e material do Porto do Comprido perdeu-se, restando apenas fragmentos.

Dia da Inauguração – Carlos Fontes e João Garcia com o Mestre João Tavares

O projeto de recuperação da Casa dos Botes manteve a estrutura original do edifício e transformou-o num núcleo museológico secundário, complementar às infraestruturas existentes, como a Fábrica da Baleia de Porto Pim. Paralelamente, criou-se um circuito/roteiro Baleeiro do Faial, que incluía as vigias, postos baleeiros e fábricas, permitindo ao público compreender toda a cadeia de operações da atividade baleeira.

A concepção museográfica da Casa dos Botes, ficou a cargo do Observatório do Mar dos Açores, que baseou-se na simplicidade e clareza, utilizando painéis informativos e vitrinas para exposição de objetos históricos. O circuito expositivo organizou-se em torno do bote baleeiro “Senhora de Santana”, e uma área de descanso foi criada para visitantes, considerando que o espaço se situava no final do trilho pedestre dos 10 Vulcões.

Podem encontrar-se na aquela casa:

  • Cronologia da baleação no Faial;
  • História do Porto do Comprido;
  • Mapas e fotografias históricas do local;
  • Reconstituição informal da vida dos baleeiros, incluindo a “ceia dos baleeiros”;
  • Lista de nomes de baleeiros que atuaram no porto, acompanhada de fotografias.

Além da exposição permanente, foram criados materiais de divulgação b, integrando a Casa dos Botes à Rota do Património Baleeiro, oferecendo aos visitantes uma experiência completa e educativa, bem como colocado um painel de azulejo ao ar livre que retrata a vida e o quotidiano do Capelo até 1960, da autoria da Pintora Fátima Madruga.

A Casa dos Botes do Porto do Comprido tornou-se, assim, um espaço de preservação da memória coletiva, resgatando saberes e tradições de uma comunidade ligada ao mar e à baleação.

Published by João Garcia

Nascido na Freguesia da Matriz, ilha do Faial, a 23 de Outubro de 1967

Leave a Reply

Discover more from Assim c´má Sim Blog

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading