Memória e Património Baleeiro do Faial
Desde criança, a minha ligação ao mar e às histórias contadas pelos pescadores do Varadouro despertaram em mim a curiosidade e a vontade de saber mais. Ainda assisti aos últimos tempos da baleação no Varadouro e ouvi muitas histórias dessas aventuras passadas, algumas embelezadas, mas sempre com atenção. Talvez daí tenha nascido o meu interesse pela baleação açoriana.

Levado por essas memórias, e por ocasião das comemorações dos 400 anos da freguesia do Capelo, surgiu a ideia de criar um movimento dedicado à preservação da memória baleeira da Ilha do Faial. Diferentemente da vizinha Ilha do Pico, que já conservava alguns elementos dessa tradição, o Faial contava apenas com o bote “Claudina”, pertencente ao Clube Naval da Horta. Foi nesse contexto que se iniciou a recuperação do património baleeiro móvel e imóvel do Faial, primeiramente os oito botes baleiros e depois a Casa dos Botes, na aldeia baleeira do Comprido, um espaço que, naturalmente, se destinaria a celebrar e preservar a história da baleação na freguesia do Capelo.
A recuperação e musealização da Casa dos Botes teve como objetivo devolver à comunidade do Capelo um espaço que constituía parte de sua memória e identidade cultural. Além disso, a iniciativa procurou fomentar o turismo cultural, oferecendo aos visitantes uma compreensão aprofundada da baleação na Estação Baleeira do Porto do Comprido, uma das principais dos Açores.

A baleação terrestre começou nos finais do século XIX, por iniciativa da Família Dabney, que contou com a colaboração de açorianos que haviam embarcado em baleeiras americanas. Essa versão costeira da baleação apresentou-se como alternativa mais económica e adaptada à cultura local, em comparação à baleação oceânica praticada pelos americanos
O Porto do Comprido, destacou-se efectivamente como um dos postos baleeiros mais importantes. Antes da erupção do Vulcão dos Capelinhos, o local contava com 12 casas de pedra cobertas por colmo, conhecidas como palhotas, que serviam de alojamento aos baleeiros, armazém de cabos e velas e casa de botes. Durante as campanhas de verão, baleeiros do Faial e do Pico deslocavam-se para ali temporariamente, formando um núcleo ativo da indústria baleeira.
Segundo relatos de Francisco Medeiros, o Porto do Comprido foi “a maior estação baleeira e mais produtiva na caça à baleia do Arquipélago dos Açores”, sendo ponto de passagem de mestres e oficiais da região.
O Posto Baleeiro do Porto do Comprido encerrou a atividade após a erupção do Vulcão dos Capelinhos, em 1957-58, sendo transferido para o Varadouro. A partir desse evento, a baleação no Faial entrou em declínio, intensificado pela emigração de muitos baleeiros para os Estados Unidos. Ao longo das décadas seguintes, grande parte da memória física e material do Porto do Comprido perdeu-se, restando apenas fragmentos.

O projeto de recuperação da Casa dos Botes manteve a estrutura original do edifício e transformou-o num núcleo museológico secundário, complementar às infraestruturas existentes, como a Fábrica da Baleia de Porto Pim. Paralelamente, criou-se um circuito/roteiro Baleeiro do Faial, que incluía as vigias, postos baleeiros e fábricas, permitindo ao público compreender toda a cadeia de operações da atividade baleeira.
A concepção museográfica da Casa dos Botes, ficou a cargo do Observatório do Mar dos Açores, que baseou-se na simplicidade e clareza, utilizando painéis informativos e vitrinas para exposição de objetos históricos. O circuito expositivo organizou-se em torno do bote baleeiro “Senhora de Santana”, e uma área de descanso foi criada para visitantes, considerando que o espaço se situava no final do trilho pedestre dos 10 Vulcões.
Podem encontrar-se na aquela casa:
- Cronologia da baleação no Faial;
- História do Porto do Comprido;
- Mapas e fotografias históricas do local;
- Reconstituição informal da vida dos baleeiros, incluindo a “ceia dos baleeiros”;
- Lista de nomes de baleeiros que atuaram no porto, acompanhada de fotografias.
Além da exposição permanente, foram criados materiais de divulgação b, integrando a Casa dos Botes à Rota do Património Baleeiro, oferecendo aos visitantes uma experiência completa e educativa, bem como colocado um painel de azulejo ao ar livre que retrata a vida e o quotidiano do Capelo até 1960, da autoria da Pintora Fátima Madruga.
A Casa dos Botes do Porto do Comprido tornou-se, assim, um espaço de preservação da memória coletiva, resgatando saberes e tradições de uma comunidade ligada ao mar e à baleação.




